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Ninguém Tá Olhando – 1ª temporada | Crítica

Ninguém Tá Olhando – 1ª temporada | Crítica

Ninguém Tá Olhando

Ano: 2019

Direção: Daniel Rezende

Roteiro: Carolina Markowicz, Teodoro Poppovic, Daniel Rezende

Elenco: Victor Lamoglia, Kéfera Buchmann, Júlia Rabelo, Danilo de Moura, Leandro Ramos, Projota, Augusto Madeira, Telma Souza, Kevin Vechiatto, Thati Lopes

A Netflix reuniu um time de peso para a produção de Ninguém Tá Olhando. Com direção de Daniel Rezende (Turma da Mônica: Laços) e um elenco estrelado, que conta até com o fenômeno da internet Kéfera, a série aposta em um tema aparentemente batido, o universo dos anjos, para criar uma comédia que flerta com a crítica teológica (soft, mas ainda uma crítica).

A atração começa já nos colocando sob o ponto de vista de Ulisses (Lamoglia), um anjo recém nascido que é apresentado ao sistema Angelus — um espécie de repartição pública que gerencia todo o serviço dos anjos pela terra. Quando o protagonista conhece a questionadora humana Miriam (Kéfera), contamina-se por seu espírito inquieto e passa também a questionar a validade do sistema Angelus e todas as suas burocracias estúpidas. Porém, quando o seu chefe Fred (Madeira) começa a desconfiar das atitudes suspeitas, Uli põe em risco não apenas sua própria integridade, mas também a de seus colegas Greta (Rabelo) e Chun (de Moura).

A escolha de Rezende e do time de roteiristas de colocar a narrativa em torno do novato é óbvia, mas funcional. Estando ao lado de um personagem que não conhece nada daquele universo, temos a desculpa perfeita para apresentar didaticamente todos os conceitos da série, sem que isso pareça inverossímil. Por isso, quando este presencia um ato de injustiça logo no início, justamente se indigna, o que contrasta com a atitude resignada e passiva dos demais “Angelus” — e este choque é o que dá o tom de toda a série: “Como que ninguém percebeu o quanto todas essas regras são estúpidas?”. Lamoglia se vira bem nesse contexto, conferindo a Uli um ar de estranhamento, descontentamento e inconformidade com o universo que é construído em tela.

Os personagens de Rabelo e de Moura são essenciais nessa narrativa, pois representam as figuras que estavam inseridos neste sistema, que a partir das provocações de Uli se questionam e, eventualmente, se libertam. Sem eles, a série não faria qualquer sentido. O timing perfeito de humor dela e o ar contido dele funcionam muito bem em conjunto, o que confere alguma tridimensionalidade ao arco.

Nem todos os atores envolvidos no projeto estão bem, a começar pela maior estrela do projeto. Kéfera não encontra o tom de Miriam, que não demonstra qualquer verdade em suas falas e ações. Por si só, a personagem já é complicada: pedante, acriticamente altruísta e sem qualquer falha de caráter aparente, Miriam dificulta a criação de empatia. Curiosamente, logo a personagem que deveria representar o elo entre os humanos e os Angelus acaba sendo a figura menos humana (e mais chata) de toda a série.

Por sorte, algumas dessas falhas são contornadas pelo talento de Rezende. O experiente realizador cria cenários dissonantes que demonstram com clareza a diferença dos dois mundos, num competente design de produção: enquanto a sede dos Angelus surge com cores opacas e formas desinteressantes, ressaltando a burocracia daquele lugar, o mundo dos humanos é retratado com cores mais vivas, sem filtros, elevando a sensação de vida, movimento. O figurino, sóbrio e eficiente, funciona bem, dando aos anjos elementos visuais suficientes para que sejam identificáveis, se, que percam sua natureza corriqueira e padronizada.

Mas confesso que a parte da série que mais me interessou foi a crítica de costumes. As regras opressivas dos anjos representam as amarras que a religião impõe à fé, desconsiderando toda a aleatoriedade da vida nesse processo. Isso fica muito bem pontuado pelo personagem de Fred, que mantém um rígido código de conduta para cumprir todas as regras e tarefas que o “chefe” lhe dá — e o trecho em que ele tenta interpretar o sentido metafísico de uma “mensagem” que sabemos ser completamente fortuita é hilário.

E mais interessante ainda é perceber como a relação de Uli com os humanos muda conforme ele os conhece mais profundamente. De imediato, ele se encanta por sua imprevisibilidade, por seu desespero de encontrar sentido perante a finitude, pela capacidade de empatia e de criação de comunidade. Mas, quando tenta interferir para que todas vivam sua vida de forma mais plena, percebe o quanto o moralismo e a pré-disposição ao julgamento os impedem de atingir seu ápice enquanto espécie.

Ninguém Tá Olhando é um belo exercício de gênero do audiovisual brasileiro, narrando com bom humor uma narrativa simples, mas inteligente e bem executada. Embora derrape em algumas questões pontuais, atinge inegáveis méritos, chegando a flertar com uma crítica social muito atual. Com certeza, assistir a essa série é bem melhor do que assistir a Cidade dos Anjos pelo resto da eternidade.

Nota:


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Jornalista em formação, ex-membro do finado e saudoso Terra Zero e leitor de histórias em quadrinhos. Fã de ficção científica e terror, divide seu tempo livre entre o cuidado com suas dezenas de gatos e a paixão pela cultura pop. Sonha com o dia em que perceberão que arte é sim, uma forma de discutir política.

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