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Brooklyn: Sem Pai Nem Mãe | Crítica

Brooklyn: Sem Pai Nem Mãe | Crítica

Brooklyn: Sem Pai Nem Mãe (Motherless Brooklyn)

Ano: 2019

Direção: Edward Norton

Roteiro: Edward Norton

Elenco: Edward Norton,Gugu Mbatha-Raw, Alec Baldwin, Bobby Cannavale, Willem Dafoe, Bruce Willis, Josh Pais, Michael Kenneth Williams

Quem tem amigos tem tudo. A grande verdade incrustada nesta frase se comprova tanto na frente quanto por trás das câmeras deste novo trabalho de Edward Norton. Norton, que escreveu, dirigiu e protagonizou Brooklyn: Sem Pai N’em Mãe conseguiu unir um elenco formidável que, em situações normais, custaria vários milhões de dólares a mais para o seu orçamento. Mas as amizades, algumas delas nascidas ou reforçadas em diversas parcerias ocorridas em filmes dirigidos por Wes Anderson, possibilitaram que a produção pudesse direcionar seu investimento para outros aspectos do filme, que atingiram um excelente resultado. E, em frente às câmeras, a amizade e a gratidão também são os sentimentos que movem a história.

O filme, ambientado no final da década de 1950 em Nova York, apresenta Lionel Essrog, vivido por Norton, um detetive que sofre de um caso grave de Síndrome de Tourette. Ele trabalha na agência liderada por Frank Minna (Bruce Willis), seu mentor e único amigo. Com um plano de lucrar uma boa soma em dinheiro, Minna decide se aproveitar de um caso que envolvia pessoas poderosas. Entretanto, as coisas não saem como previsto e ele acaba sendo morto. Sem saber detalhes do que envolvia o caso investigado por seu chefe, Lionel começa a montar um quebra-cabeças, tentando entender o que aconteceu e encontrar os responsáveis pela morte de seu amigo.

A narrativa do filme é apresentada de maneira que vamos descobrindo praticamente todas as informações juntamente com o protagonista. À medida em que pistas vão surgindo, podemos unir as peças e antecipar algumas das situações que virão. Uma boa estratégia utilizada no roteiro é fazer com que a investigação seja a responsável também por trazer novos personagens para a história pouco a pouco, de forma que as descobertas se tornam mais naturais. Eles vão ganhando espaço na tela à medida que compreendemos mais sua importância na trama.

Este clima de suspense na investigação está perfeitamente alinhado à ambientação noir da produção, mas o filme funciona mais como uma homenagem ao gênero do que como um verdadeiro exemplar do mesmo. De qualquer maneira, a direção de arte faz um trabalho fantástico na reconstituição de época, com seus figurinos, automóveis e cenários. E temos vários ingredientes que se somam para compor as características de um clássico noir. Detetives vestindo sobretudo e chapéus, mulheres sensuais e misteriosas (apesar de eu sentir falta de uma verdadeira femme fatale), muitas janelas com sombras passando através das persianas, e reviravoltas nos casos investigados.

Reforçado pela fotografia e pelas cores insaturadas, seria fácil sentir que assistimos um filme de décadas atrás, não fosse o ritmo um tanto quanto acelerado promovido pela montagem, bem mais típico dos dias atuais. Apesar desta característica provocar um certo estranhamento e descaracterizar um pouco o gênero, ela se mostra uma escolha acertada devido à longa duração do filme. Os 144 minutos de projeção são percebidos, mas não sentidos de maneira incômoda. O filme não chega a se tornar cansativo, pois cada cena cumpre um papel relevante na compreensão da história.

E este é um grande mérito de Norton no desenvolvimento do roteiro e na direção. Nenhuma cena ou personagem recebe mais tempo de tela do que o necessário. Todas as pequenas falas e aparições possuem funções pontuais, às quais o diretor dedica apenas espaço suficiente para passar ao público e ao protagonista as informações que construirão a compreensão final da trama. Inclusive, alguns personagens desaparecem subitamente logo que se torna claro o seu envolvimento (ou falta dele) com o caso investigado. Dessa maneira, o filme ganha uma dinâmica elogiável, ao evitar desviar a atenção do público do que realmente importa: o mistério a ser resolvido e a compreensão do contexto social no qual ele está inserido.

Isso porque o Brooklyn: Sem Pai Nem Mãe, mesmo ambientado na década de 1950, trata de um tema que segue atual, e talvez até de forma mais contundente nos dias de hoje, que é a limpeza social. Norton ficou no limite, em uma corda bamba, para tentar não apresentar no filme um white savior. Ao dividir de maneira menos desigual a participação dos personagens negros dentro dos conflitos que surgem, a figura do herói branco não ficou tão destacada.

Da mesma maneira, a concepção do personagem Lionel Essrog por parte de Norton foi um grande acerto. Os frequentes tiques e vocalizações quase aleatórias decorrentes de sua Síndrome de Tourette passam uma ideia de que ele é infantil, ou frágil, e assim vamos nos surpreendendo ao conhecer mais sobre ele, admirando sua coragem e inteligência. E esse é um ponto que merece grande destaque: o diretor nos faz encarar nosso próprio preconceito ao provocar surpresa com a capacidade funcional de uma pessoa, simplesmente por possuir determinada condição neurológica.

Norton estudou muito o comportamento de pessoas que sofrem deste distúrbio para representá-los corretamente, e realmente surtiu efeito. Os gritos e tiques que nos causam estranheza no início, em pouco tempo passam a ser sentidos de maneira natural. E a interação de Lionel com os outros personagens é sempre um espetáculo a parte. Vale ressaltar que, tanto as incontáveis crises, quanto os momentos em que ele consegue manter o controle e evitar os surtos, são igualmente admiráveis.

Apesar de longo, Brooklyn: Sem Pai Nem Mãe peca um pouco na falta de clareza sobre sua história de fundo ao final da projeção. Não que ela não se explique, mas parece que algumas ligações ocorrem de maneira confusa, sem que haja necessidade para isso. Mesmo assim, o bom desenvolvimento do suspense e a relevância da temática apresentada se sobrepõem aos poucos problemas, fazendo deste filme uma boa opção para escapar das fórmulas mais batidas e repetitivas que têm chegado às salas de cinema atualmente.

Nota: 


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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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