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Chuck Wepner: o verdadeiro Rocky Balboa

Chuck Wepner: o verdadeiro Rocky Balboa

Por Rodrigo Ramos

Em 2011, em sua série de documentários 30 for 30, a ESPN norte-americana lançou The Real Rocky, contando a esquecida história do pugilista Chuck Wepner, ainda trabalhando na loja de bebidas da família, nos subúrbios próximos a sua terra natal, Bayonne, New Jersey. Não lembro exatamente quando vi o doc, mas faz mais de cinco anos.

Nesse tempo, já ouvi de mais de um correspondente brasileiro radicado nos Estados Unidos se dizendo espantado com a veneração ao Rocky na Filadélfia. O que parecia absurdo, afinal, “ele é claramente um personagem de ficção”. Impressionante como alguém especializado em esportes e residente nos Estados Unidos possa desconhecer a história de Wepner.

Veja se isso lhes parece familiar: um homem com pouca instrução trabalha de segurança em uma boate, faz uns bicos e é encrenqueiro. Volta e meia, inclusive por sua função, arruma uma briga e mostra talento para castigar os inimigos. Até que surge um treinador que diz para o cidadão que se ele quer algo da vida, deve ir para uma academia de boxe.

Essa é a história de Wepner, não muito diferente das batalhas do Garanhão Italiano. Tudo começou para Chuck nas lutas do circuito underground de New Jersey e New York, onde ele começou a ficar conhecido por ser voluntarioso, quase nunca cair e sangrar, sangrar muito! Seu apelido era The Bayonne Bleeder — numa tradução livre, o Sangrento de Bayonne.

Começaram a aparecer oportunidades maiores e Wepner correspondeu. Até que veio uma oferta irrecusável que mudou a vida de Wepner e de Stallone: a chance de lutar contra Muhammad Ali.

Ali tinha acabado de recuperar seu título mundial contra George Foreman, no então Zaire — hoje, República Democrática do Congo — e por aquelas questões intrincadas da sociedade americana, eles precisavam de um peso-pesado branco para lutar contra Ali. Qual era o único minimamente qualificado para o desafio? Wepner!

A promoção da luta foi bizarra, com os dois saindo no soco durante entrevistas, muita provocação. Enfim, Apollo Creed era até humilde e bonzinho se comparado a Ali quando o assunto era provocar adversários.

Chega o dia da luta, 24 de março de 1975, e quem era um dos menos de 15 mil espectadores da luta em Cleveland? O então ator pornô Sylvester Stallone. Vale lembrar que essa luta foi transmitida em PPV nos Estados Unidos. Portanto, poucos viram, de fato, o combate. Wepner chocou o mundo ao quase nocautear Ali no nono round, mesmo todo ensanguentado.

Reza a lenda que ele disse para seu empresário: “Liga o carro e vamos sair correndo, estamos milionários”. Porém, Ali se levantou. Uma vitória daria US$ 1,6 milhão para Wepner. A luta só foi decidida no último assalto, o 15º, com vitória por nocaute técnico para o campeão, com menos de 20 segundos restantes no cronômetro.

Pois, depois de assistir a essa batalha épica, Stallone teria escrito o roteiro de Rocky: Um Lutador (1976) em três dias — até hoje, o seu filme mais premiado e aclamado. As referências a Wepner, que passam pelo estilo extravagante, pelo deslumbramento com a fama instantânea, também são claras em Rocky III (1982), quando Balboa em fase decadente enfrenta um lutador de luta-livre chamado Clubber Lang, interpretado por Hulk Hogan, pro-wrestler na vida real, que vence jogando Rocky pra fora do ringue.

Foi exatamente isso que aconteceu quando Wepner encarou Andre, The Giant, outra lenda do wrestling, em uma das aparições públicas mais marcantes de Wepner depois da luta contra Ali. Isso foi em 1978. Depois, ele caiu no ostracismo.

Wepner e Stallone, que chegaram a ser amigos, acabaram se envolvendo em uma luta judicial em virtude da forte inspiração de Rocky na vida de Wepner, gerando distanciamento entre os dois e um valor não revelado, mas considerável para o ex-pugilista.

Espero não ter destruído o coração de muitas pessoas com esse texto. Confesso que eu mesmo fiquei com dividido ao ver The Real Rocky. Claro, isso tira um pouco da aura de genialidade que permeia a ideia de Stallone para seu grande sucesso. No entanto, conheço muitos que roubam ideias e não têm 1% da capacidade de Sly para fazer algo de qualidade. Trago verdades.


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Redação

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