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As Golpistas | Crítica

As Golpistas | Crítica

As Golpistas (Hustlers)

Ano: 2019

Direção: Lorene Scafaria

Roteiro: Lorene Scafaria

Elenco: Jennifer Lopez, Constance Wu, Lili Reinhart, Keke Palmer, Cardi B, Julia Stiles, Madeline Brewer, Usher

Filmes sobre roubos são carismáticos por natureza. Há um sentimento especial por ver ladrões elaborarem um assalto perfeito, cheio de planejamentos e improvisos que de outra forma só pertenceriam aos espiões. Seja a franquia dos Onze Homens e Um Segredo, que surgiu lá na década de 1960 e se popularizou com o remake de 2001, seja a série espanhola La Casa de Papel, a moralidade questionável das ações dos protagonistas é costumeiramente passada para o público de maneira partidária. Isso porque tais situações são mostradas sob uma perspectiva de Robin Hood, em que os possuidores daqueles bens não são merecedores dos mesmos.

No caso de As Golpistas, a situação é um pouco diferente. Temos como protagonistas strippers, mulheres que são julgadas e minimizadas por outras mulheres e, principalmente, pelos homens. As personagens não são donzelas em perigo, falam palavrão, possuem muita atitude e falam de sexo sem pudor algum. Para o público geral (e isso claramente exclui homens e mulheres com uma boa noção de feminismo), são personagens difíceis de simpatizar.

Para resolver esse problema, a diretora e roteirista Lorene Scafaria dividiu seu filme em duas metades: inicialmente, temos uma longa construção do cotidiano das strippers da boate, suas dificuldades e suas perspectivas sobre a vida e sobre seus empregos. Ao longo da trama, Scafaria utiliza em diversos momentos uma câmera que segue a protagonista Destiny (Constance Wu) por trás, de modo a trazer o telespectador para seu corpo e fazê-lo sentir o que ela sente. Em uma cena em específico, em que acompanhamos Destiny ao entrar com suas colegas na boate, é inevitável o sentimento de exposição, como um pedaço de carne em um açougue.

Na segunda parte do filme, obviamente, resta o próprio golpe que dá nome à obra. Baseado em uma história real, As Golpistas acompanha um grupo de strippers tentando se reerguer após a crise econômica de 2008 nos Estados Unidos, que varreu o emprego de muitas delas e a maioria de seus clientes. Com uma motivação de vingança pelo que os seus clientes ricos, em maioria executivos da Wall Street, fizeram com o país, elas decidem começar a drogá-los em bares para os levar à boate em que trabalhavam e conseguir qualquer quantia que quisessem.

Com exceção de Constante Wu e de Jennifer Lopez, nenhuma das outras atrizes conseguiu brilhar muito em tela, mas a dinâmica entre elas, convincentemente amigas e parceiras de crime, compensa a opacidade das demais atuações. J-Lo, em especial, está perfeitamente confortável na pele da stripper veterana Ramona Vega, e nos entrega a personagem de maneira crua e intensa. Talvez os rumores de que ela concorreria ao Oscar sejam um pouco exagerados, mas não se pode tirar o mérito de que ela, ao menos uma vez, entregou uma atuação para calar a boca de muitos (inclusive, a minha própria).

A direção de Scafaria é construída tijolo a tijolo, sem pressa e com muita sensibilidade. A diretora dosou momentos de maior dramaticidade e algumas descontrações com habilidade, e o modo como ela abordou a profissão de stripper foi bastante respeitoso. Ela quebrou o estereótipo de que as mulheres precisam se sentir humilhadas porque trabalham com seus corpos, e mostrou um lado empoderado dessas dançarinas que compartilham seus segredos, suas impressões e suas opiniões sobre o ambiente que as cercam. A sororidade entre as personagens pode ter um jeito meio rude, mas é presente e extremamente humanizada.

A direção de arte se alia à trilha sonora para criar uma ambientação contemporânea, como uma versão anos 2000 dos cabarés burlescos de antigamente. Como resultado, temos um mergulho profundo em uma atmosfera que mistura muito neon, cores e figurinos vibrantes, malandragem, glamour e vulgaridade. Sem objetificar as personagens, o filme traz coreografias cuja estética se traduz em autenticidade e autonomia para elas.

Os momentos mais insossos em toda a trama são os que fazem a personagem que conta a história (Destiny) se afastar e voltar para o presente, em que está sendo entrevistada pela jornalista Elizabeth (Julia Stiles). Eles quebram o ritmo da história e, embora supostamente sirvam para justificar as lembranças que são contadas, são dispensáveis e não agregam mais charme ou informações relevantes para o filme. Ironicamente, o longa é baseado na reportagem escrita pela jornalista vivida por Stiles, que investigou o caso das strippers golpistas.

As Golpistas é um filme sobre amizade, injustiças sociais e de gênero e o poder que as mulheres têm quando se unem. Ele é eficaz ao contar sua história, e cumpre a boa função de entretenimento com uma qualidade que surpreende.

Nota:


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Jornalista que migrou para a veterinária, mas sem deixar para trás as jornalices. Vive e respira horror, seja em quadrinhos, filmes, séries ou livros. Último posto de defesa da DC Comics em relação à Marvel, embora tenha que fazer vista grossa quando o papo é cinema. Fã de Heavy Metal, games single player e cospobre de carteirinha quando sobra dinheiro no final do mês.

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