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Pássaro do Oriente | Crítica

Pássaro do Oriente | Crítica

Pássaro do Oriente (Earthquake Bird)

Ano: 2019

Direção: Wash Westmoreland

Roteiro: Wash Westmoreland

Elenco: Alicia Vikander, Riley Keough, Naoki Kobayashi, Jack Huston, Kiki Sukezane, Ken Yamamura, Akiko Iwase

Pássaro do Oriente é um suspense lento, estéril e frio. Esses adjetivos, por si só, não são suficientes para alegar a má qualidade de uma obra – temos bons exemplos de filmes que se firmam na ausência de emoções para criar uma atmosfera que serve à narrativa. Mas, no caso desta nova produção original Netflix, o estilo não consegue maquiar o roteiro frágil e desinteressante, conduzido por uma direção errática e burocrática.

Wash Westmoreland (Para Sempre Alice) roteiriza e dirige a produção, baseada num livro homônimo de 2001. Na trama, conhecemos Lucy Fly (Vikander), uma norte-americana que vive como tradutora no Japão. Já no início do filme, descobrimos que uma pessoa relacionada a Lucy, a também americana Lily (Keough), desapareceu. Em uma narrativa não-linear, em que os depoimentos de Lucy à polícia local se entrecortam com o passado, descobrimos como a protagonista conheceu o misterioso fotógrafo Teiji (Kobayashi), e que o triângulo formado entre eles pode ser importante para compreender o sumiço de Lily.

Alicia Vikander parece apropriada para o papel. Sua expressão contida combina, de certo modo, com a personalidade de Lucy – que, marcada por traumas de infância, não consegue demonstrar sentimentos de maneira eloquente. Mas a atuação da sueca não convence. Seus maneirismos e vícios de atuação chamam atenção pra si, prejudicando a imersão do espectador. O olhar perdido, as mexidas inconstantes de cabeça, as falas que demoram a sair – tudo isso parece uma maneira artificial de compôr uma personagem que, presumo, possui uma complexidade que o filme não consegue explorar.

Além disso, a nova Tomb Raider não está bem acompanhada neste Pássaro do Oriente. Todo o elenco coadjuvante parece fraquíssimo, mas o personagem composto por Naoki Kobayashi consegue se destacar – no caso, sua atuação é ainda pior que seus colegas de cena. Sua inexpressão forçada e não-natural chega a gerar momentos constrangedores, em que não conseguimos sequer acreditar em seus diálogos. E é difícil ignorá-lo, já que boa parte da trama se movimenta em torno dele.

Mas não são apenas os atores que geram constrangimento. A direção de Westmoreland é, na maior parte do tempo, burocrática – e em alguns momentos, equivocada. A recriação do Japão de 1989 não convence, já que os atores e os figurinistas não parecem ter sido avisados de que o filme se passava nessa década. Cortes de cabelo, roupas, expressões, vocabulário: nada parece combinar com os anos 1980. Confesso que se o filme não avisasse, sequer perceberia que era ambientado nesse período.

Há um momento, no primeiro ato da produção, que retrata a morte de uma personagem. Admito que pausei a exibição do filme e assisti a cena algumas vezes para tentar encontrar o momento em que o trauma alegado como causa do óbito acontece. Além de não encontrar, ainda percebi o quão incapaz o diretor foi de esconder o rosto da dublê que faz a cena.

O roteiro, também escrito por Westmoreland, é inconsistente e inverossímil. O filme, mesmo apostando numa narrativa naturalista, abusa da suspensão da descrença ao tentar nos convencer da incrível coincidência de que uma mesma pessoa esteja envolvida na morte acidental de três (!) outras. Além disso, a breve sugestão da insanidade da protagonista, no último ato, é inconsistente tanto com o que antecede o momento (o roteiro não dá qualquer indício dessa condição ao longo de toda a projeção), tanto com o que vem depois, já que o assunto é citado, descartado e sequer trabalhado posteriormente. Presumo que o período entre a bombástica revelação e a descoberta de que ela não era verdadeira não ultrapassa 10 minutos.

Pássaro do Oriente é um filme mal conduzido e esquecível. E é curioso notar como a tradução brasileira do título destrói uma das poucas ideias inspiradas da produção: “Earthquake Bird” é uma ave japonesa que sempre emite um belo canto logo após um terremoto acontecer – sutileza que foi totalmente eliminada no Brasil. Confesso que senti a falta de um belo canto de pássaros para esquecer que assisti esse filme.

Nota:


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Jornalista em formação, ex-membro do finado e saudoso Terra Zero e leitor de histórias em quadrinhos. Fã de ficção científica e terror, divide seu tempo livre entre o cuidado com suas dezenas de gatos e a paixão pela cultura pop. Sonha com o dia em que perceberão que arte é sim, uma forma de discutir política.

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