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O Irlandês | Crítica

O Irlandês | Crítica

O Irlandês (The Irishman)

Ano: 2019

Direção: Martin Scorsese

Roteiro: Steven Zaillian

Elenco: Robert De Niro, Al Pacino, Joe Pesci, Ray Romano, Bobby Cannavale, Thomas Rogari, Anna Paquin, Lucy Gallina, Stephen Graham, Stephanie Kurtzuba, Jesse Plemons, Harvey Keitel 

Martin Scorsese é um dos poucos diretores da sua época que nunca teve uma fase ruim. O cineasta, que é descendente de italianos, sempre esteve no topo da sua carreira e raramente faz um filme abaixo da média. Com seu novo projeto, Scorsese volta a se unir com Robert De Niro para uma nona colaboração, tirou Joe Pesci da aposentadoria para sua quarta parceira e está trabalhando pela primeira vez com Al Pacino. O diretor tenta tirar o projeto do papel desde 2004 e depois de várias disputas orçamentárias, estourar o investimento da produção com os altos custos de rejuvenescer digitalmente os três atores principais e mover o longa da Paramount para a Netflix, O Irlandês finalmente está entre nós.

Ao longo de várias décadas, acompanhamos a vida de Frank Sheeran (De Niro), desde a sua juventude, como motorista de caminhão, até seus últimos dias. Na história, Sheeran é recrutado por Felix ‘Navalha’ DiTullio (Bobby Cannavale) para trabalhar para a família mafiosa Buffalino, liderada pelo calculista Russell (Pesci). Depois de anos como assassino profissional para o clã, Frank acaba conhecendo Jimmy Hoffa (Pacino), presidente do Sindicato dos Caminhoneiros, que secretamente financia a máfia. A amizade dos dois ancora a trama a partir do segundo ato do filme e é responsável pelos momentos mais emocionais.

É praticamente um eufemismo dizer que cada um dos três atores principais está no seu melhor em anos. O Irlandês não seria o mesmo sem o protagonista que tem. Robert De Niro acompanhou a carreira de Scorsese no papel principal de diversos crime dramas do diretor e isso dá um significado maior para a presença do ator daqui. De Niro interpreta Frank Sheeran ao longo de quase 60 anos e está brilhante em qualquer idade. Conforme o personagem envelhece, o ator consegue dar dimensões cada vez mais trágicas a Sheeran e o desenvolve perfeitamente.

Pesci interpreta um personagem menos esquentado que o normal com Russell Buffalino, mas igualmente ameaçador — o mafioso é calmo, taciturno e mesmo sem nunca revelar suas verdadeiras intenções, é de longe a figura mais perigosa do longa. Já Al Pacino é estrondoso como Hoffa, vivendo o personagem com a sua intensidade habitual e também o dando uma certa sensibilidade, que é facilmente o mais humano de O Irlandês. O líder do Sindicato rapidamente se afeiçoou com a filha de Frank, Peggy (Lucy Gallina/Anna Paquin) e é mais próximo da garota que o próprio pai dela. Sempre que Jimmy Hoffa grita, todos ouvem sua imponente voz. Toda vez que Pacino berra, é um espetáculo diferente.

Apesar de trazer excelentes nomes no seu elenco de apoio como Anna Paquin, Jesse Plemons, Bobby Cannavale e Harvey Keitel, outro grande colaborador de Scorsese, os talentosos atores pouco podem fazer nos papéis coadjuvantes que não conseguem ter o mesmo peso do trio principal. Ray Romano, ao menos, se diverte como Bill Buffalino, primo de Russell e advogado de Frank, em um ótimo alívio cômico. O humor do filme é excelente e é capaz de criar momentos hilários em cenas violentas – algumas mortes são mais divertidas do que têm o direito de ser.

O CGI empregado para rejuvenescer os atores não é sempre funcional. Responsável por aumentar o orçamento da produção em US$ 50 milhões, a computação gráfica deixou De Niro, Pacino e Pesci décadas mais novos e, apesar de nós lembrarmos muito bem como estes três eram mais jovens por conta dos clássicos que protagonizaram, as versões vistas aqui não se assemelham tanto, mas funciona mesmo sem ser 100% verossímil. De Niro, que tem mais tempo em tela e é o mais rejuvenescido, de fato parece um boneco digital em algumas breves cenas, mas não distrai tanto.

Escrito por Steven Zaillian, responsável pelos scripts de épicos como A Lista de Schindler e Gangues de Nova York, O Irlandês é um dos melhores trabalhos do roteirista. Adaptando o livro O Irlandês: Os Crimes de Frank Sheeran ao Serviço da Máfia, escrito pelo advogado de defesa Charles Brandt, Zaillian consegue encaixar a vida inteira do mafioso em três horas e meia de duração — que nunca soam desnecessárias. No entanto, estaria mentindo se não dissesse que o filme, infelizmente, perde um pouco do ritmo em algumas cenas da segunda metade do segundo ato. A carreira de Scorsese é composta por projetos longuíssimos que sempre fluem rápido, mas esta foi uma exceção à regra. O filme volta ao trilhos com tudo na sua hora final.

A direção de Scorsese é tão magnífica quanto é esperado do cineasta, que tem mais de 50 anos de carreira. O seu controle do que acontece em tela, desde a direção dos atores aos movimentos de câmera, é absoluto, criando uma experiência muito imersiva. Todas as marcas registradas do diretor estão presentes e ele as usa melhor do que nunca. Durante os dois primeiros atos, O Irlandês é como todos os filmes de crime do diretor. É apenas em sua conclusão que o longa encontra o seu diferencial.

A última hora é poderosa e Scorsese não teria conseguido executá-la em outro momento de sua carreira. Da mesma forma em que Silêncio é complexo e traz consigo questionamentos sobre fé e devoção quando o protagonista é colocado no limite, O Irlandês faz algo similar com Frank Sheeran. Aos 80 anos, o mafioso está velho, amargurado e cheio de arrependimentos. A vida no crime o afastou das suas quatro filhas, fez seus amigos chegarem a fins violentos e não o trouxe nada.  Este segmento funciona como uma desconstrução e uma reflexão de Scorsese no gênero que o tornou o autor cultuado que é hoje.

No final de suas três horas e meia de duração, O Irlandês soa como o melancólico final de uma jornada. Mas não de uma que começou no início do filme, mas em 1973, com Caminhos Perigosos, o primeiro longa de crime de Scorsese com De Niro e Keitel. Todo longa do diretor o levou a este momento, que soa quase como uma despedida. Pode ter sido a última colaboração dele com De Niro, mas, aos 77 anos, Scorsese parece estar longe do seu último filme. Ainda bem.

Nota do crítico:


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Estudante de jornalismo, tem 20 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli e de musicais, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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