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Carcereiros: O Filme | Crítica

Carcereiros: O Filme | Crítica

Carcereiros: O Filme

Ano: 2019

Direção: José Eduardo Belmonte

Roteiro: Marçal Aquino, Fernando Bonassi, Marcelo Starobinas, Dennison Ramalho

Elenco: Rodrigo Lombardi, Kaysar Dadour, Tony Tornado, Rafael Portugal, Milton Gonçalves, Jackson Antunes, Rômulo Braga

Os carcereiros das prisões não são personagens comuns em produções cinematográficas, literárias ou televisivas. E, quando estão lá, na maioria das vezes, são retratados como vilões. Drauzio Varella, em 2012, após ter escrito o famoso Estação Carandiru, decidiu mostrar o outro lado da moeda, entregando a obra Carcereiros, focado no dia a dia dos agentes penitenciários. O livro do médico mais famoso do Brasil acabou inspirando a Rede Globo a criar uma série homônima, protagonizada por Rodrigo Lombardi, em 2016.

A atração acabou caindo no gosto do público, mesmo trazendo um retrato não tão realista das prisões brasileiras (assista Central: O Filme e entenda). Então, com o sucesso, a Globo decidiu tirar a série da telinha e levar para as telonas, produzindo Carcereiros: O Filme. E, no longa, o público é apresentado a uma trama inédita, mesclando personagens do seriado com novidades no elenco — entre eles, o sírio Kaysar Dadour, que está em alta nas produções nacionais, após uma carismática passagem pelo Big Brother Brasil.

Na história do filme, Adriano (Lombardi) precisa coordenar um grupo de agentes penitenciários para receber em sua prisão um terrorista internacional, Abdel Mussa (Dadour) — para que mais esteriótipo, né, minha gente? —, que passará uma noite no local, até seguir viagem com a Polícia Federal no dia seguinte. Como o homem é acusado de ter colocado uma bomba em uma escola na Europa e ter matado diversas crianças, os presos acabam querendo “passar” o cara, o que deixa o clima ainda mais tenso no local.

E como se não bastasse, no meio da noite, um grupo altamente armado invade a penitenciária e eles não vão parar até encontrar o seu alvo que, a princípio, só pode ser o terrorista Abdel Mussa. E, para chegarem ao seu objetivo, os assassinos de elite vão passar por cima de qualquer um, seja carcereiro ou presidiário, deixando um rastro de sangue e pilhas de corpos. Enquanto isso, Adriano precisa proteger o forasteiro, afinal, o seu objetivo é manter os presos atrás das grades. E vivos.

O longa, mesmo tendo um vasto material já apresentado na televisão, funciona sozinho, sem ter a necessidade do conhecimento prévio da história de Adriano e seus companheiros carcereiros — mas é claro que a experiência com os episódios da série deve colaborar com o grau de importância dos personagens. O problema do filme, definitivamente, não é este.

A realidade dos presídios do Brasil, de fato, é digna de um filme, que mesclaria terror e drama, na mesma proporção. A situação de ambos, prisioneiros e carcereiros, renderia uma grande produção cinematográfica, mas o longa decide extrapolar o verossímil e investir na ação. Os roteiristas Marçal Aquino, Fernando Bonassi, Marcelo Starobinas e Dennison Ramalho tentaram fazer uma espécie de Assalto à 13ª DP, mas não chegaram sequer perto — afinal, escrever um script a oito mãos e depois juntar tudo de forma coerente não é uma tarefa fácil. Dificilmente, não viraria uma colcha de retalhos.

O diretor José Eduardo Belmonte, com o material que lhe foi entregue, tinha uma missão complicada, mas não impossível. No entanto, faltou ao cineasta criatividade para organizar as ideias e entregar um filme que conseguisse, pelo menos, ser coerente, mas acaba sendo apenas uma chacina interminável. Os cortes no modo ‘facão’ nas sequências de ação são sofríveis, eliminando a imersão do espectador — uma das principais mortes da história acaba sendo mostrada de qualquer maneira e, como causa tão pouco impacto por conta da condução falha do longa, é esquecida, tornando-se apenas mais uma dentre tantas.

De fato, o grande atrativo de Carcereiros é o carisma de Rodrigo Lombardi, um ator que convence como um homem comum. No entanto, o seu personagem, Adriano, apesar de ser o guia do espectador dentro da obra, não tem uma utilidade efetiva na trama — se analisar o filme com calma, é possível perceber que as atitudes do personagem, na verdade, acabam sempre piorando a situação e, com isso, aumentando o número de mortes no presídio.

Mas nem tudo são problemas. A reviravolta na história consegue trazê-la mais para a realidade do Brasil, o que é um mérito, afinal, dar elementos para que o público se identifique é sempre bem-vindo. No entanto, isso poderia ter sido feito sem se utilizar de esteriótipos ou forçar uma coincidência absurda, utilizada apenas para render meia hora a mais de produção e, com isso, não ser apenas mais um episódio da série. Às vezes, séries de TV funcionam muito bem… na TV.

Nota:


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Jornalista e radialista, é um dos fundadores do Bode na Sala. Se orgulha de ter nascido em São Borja, no interior do Rio Grande do Sul, e, atualmente, mora em Porto Alegre. Trabalhou em todas as áreas que se pode imaginar, mas acabou caindo no submundo geek. É fã do Jim Carrey, acha que o Ben Affleck é o melhor Batman do cinema, não suporta pseudo-cultismo e pretende dominar o mundo.

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