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Ford vs Ferrari | Crítica

Ford vs Ferrari | Crítica

Ford vs Ferrari (Ford v Ferrari)

Ano: 2019

Direção: James Mangold

Roteiro: Jason Keller, John-Henry Butterworth, Jez Butterworth

Elenco: Matt Damon, Christian Bale, Jon Bernthal, Noah Jupe, Josh Lucas, Tracy Letts, Caitriona Balfe, Remo Girone

O forte ronco dos motores ainda durante os créditos de abertura de Ford vs Ferrari dá o tom do que iremos assistir nos próximos 150 minutos, durante os quais seremos diversas vezes transportados para dentro de cockpits de carros a mais de 300 km/h. Em meio aos dramas pessoais dos protagonistas e das disputas de bastidores entre as gigantes fabricantes de automóveis, a velocidade e a adrenalina tomam conta do espetáculo.

O roteiro do filme é baseado em uma história real. No início da década de 1960, a construtora Ford enfrentou uma grande queda nas vendas de automóveis. Para tentar alavancar as vendas, o marketing da empresa decidiu investir no ramo das carros esportivos, de competição. Após uma tentativa frustrada de fusão com a Ferrari, a Ford Motors buscou Carrol Shelby (Matt Damon), um piloto aposentado, que anos antes vencera as 24 horas de Le Mans. Agora, construtor e vendedor de automóveis, Shelby traz o mecânico e piloto Ken Miles (Christian Bale) para compor sua equipe. O objetivo da Ford é vencer a Ferrari em Le Mans, o circuito no qual a escuderia mantinha uma longa hegemonia. Mas, para isso, Shelby terá que fazer mais do que construir um carro potente. Ele precisará lidar com o temperamento de Miles e com as interferências dos executivos da empresa.

O primeiro ponto a se destacar é o trabalho fantástico da direção de arte ao nos ambientar na década de 1960. Desde os belos automóveis até os figurinos característicos, toda composição visual nos transporta para quase seis décadas no passado. Além disso, a fotografia estilizada com a baixa saturação das cores, auxilia a tornar esta ambientação eficaz e também plasticamente belíssima. Ao apresentarem detalhes da engenharia dos automóveis de corrida daquela época, percebemos o quão desgastantes e perigosas eram aquelas disputas, devido à alta velocidade que os carros atingiam e os poucos recursos de segurança tanto nas máquinas quanto nas pistas. Esse cuidado se mostra fundamental dentro da narrativa para que tenhamos noção do perigo constante ao qual os pilotos estão expostos e das consequências das decisões tomadas no projeto do carro e nas estratégias de corrida.

E a direção de James Mangold nunca nos deixa esquecer dos riscos enfrentados pelos pilotos. Ao nos posicionar não só dentro dos carros, mas também como se estivéssemos deitados sobre seu capô, a velocidade com a qual retas se transformam em curvas fechadas, ou que caminhos abertos subitamente são obstruídos por pedaços de carros destroçados voando pelos ares, faz com que o público fique constantemente tenso e grudado na poltrona. E são várias sequências de corridas, com direito a acidentes, explosões e pilotos saindo em chamas de dentro de seus carros. As ressalvas ao eficiente trabalho de Mangold dizem respeito, primeiramente, a momentos de diálogos expositivos que soam artificiais demais, principalmente entre Miles e seu filho, cujas informações que o diretor quer passar para o público poderiam tranquilamente ser mostradas de outra maneira. Mas, provavelmente, o maior equívoco consiste na caracterização do piloto da Ferrari, que será o adversário de Ken Miles em Le Mans. Sempre com uma expressão imutável de vilão que, de tão cartunesco, remete a um personagem de Os Simpsons — aquele bebê de sobrancelhas unidas que é apresentado como inimigo da pequena Maggie.

Mesmo com estes tropeços, o ritmo do filme nunca é perdido. Com uma montagem fluida que joga bem entre os momentos mais intimistas e aqueles de maior adrenalina, as duas horas e meia de projeção não se tornam cansativas. Apenas constatamos a longa duração do filme ao perceber tudo que se passou na história, considerando que apenas as extensas sequências de corrida somadas, tirando toda a trama que as precede, talvez já pudessem formar um longa-metragem. E, nas corridas, a montagem faz um papel fundamental unido às excelentes e já comentadas direção e fotografia, ao se utilizar da desaceleração do tempo, por exemplo, mostrando o sentimento e a percepção dos pilotos sobre momentos específicos em que eles entram em uma espécie de transe. Além disso, ela também serve para mostrar a sintonia entre Shelby e Miles que, mesmo sem se falar, compartilhavam do mesmo pensamento sobre as estratégias de ultrapassagem, de quando atacar e quando esperar.

A sintonia entre os personagens se estende aos atores. Damon e Bale mostraram uma química excelente, e a amizade que os seus personagens demonstram, com todos os desentendimentos que ocorrem, pode ser percebida mesmo nas mais discretas expressões. Várias vezes, só pelo olhar ou pela linguagem corporal, um já compreendia o que o outro estava sentindo ou pensando, e isso nunca deixou de soar natural na tela. O carregado sotaque britânico que Bale compôs para Miles também funcionou perfeitamente, e ainda diferenciou o ator dos personagens que estamos acostumados a vê-lo interpretar.

Ford vs Ferrari expõe uma história que talvez não seja tão conhecida do público, e mesmo utilizando as licenças poéticas comum em obras do gênero, segue sendo uma justa homenagem àqueles dois homens que fizeram história no automobilismo. E mesmo que você não seja exatamente um fã deste esporte, poderá se emocionar tanto com a ação bem desenvolvida quanto com a bela história de amizade e obstinação de Ken Miles e Carroll Shelby.

Nota: 


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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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