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As Panteras | Crítica

As Panteras | Crítica

As Panteras (Charlie’s Angels)

Ano: 2019

Direção: Elizabeth Banks

Roteiro: Elizabeth Banks

Elenco: Kristen Stewart, Naomi Scott, Ella Balinska, Elizabeth Banks, Patrick Stewart, Noah Centineo, Djimon Hounsou, Sam Claflin, Luis Gerardo Méndez, Jonathan Tucker, Nat Faxon, Chris Pang

Quando pensamos em espionagem na cultura pop, o primeiro personagem que nos vem à cabeça costuma ser o imortal Bond, James Bond, 007. De fato, o mundo dos agentes secretos no cinema sempre se mostrou dominantemente masculino. Se hoje em dia ainda carecem de personagens espiãs femininas, em comparação com o número de homens na mesma função, na década de 1970 a situação era ainda mais escassa. Por isso, a criação da série As Panteras, produzida por Aaron Spelling e Leonard Goldberg para a emissora ABC, foi uma revolução muito necessária para o gênero. Mesmo com os vícios de representação de figuras femininas normais da década, As Panteras sempre foram personagens feministas, que se utilizavam do fato de serem subestimadas por serem mulheres para cumprir suas missões e quebrar umas fuças pelo caminho.

O que a série dos anos 1970 e os saudosos filmes dos anos 2000 têm em comum é uma direção masculina. Não que isso diminua a qualidade das obras, mas naturalmente faz com que algumas decisões se tornem meio problemáticas. Closes em decotes exagerados é só um exemplo de vários que podem ser encontrados ao rever as atrações de antigamente. Para a nova adaptação, em tempos em que o movimento feminista nunca esteve tão em alta, era evidente a necessidade de trazer o olhar de uma mulher para dirigir o trio de protagonistas.

Elizabeth Banks, além de atuar como um dos Bosley (os ‘gerentes’ de espionagem), dirigiu, produziu e roteirizou o novo longa-metragem das agentes. Ela entendeu que, apesar de As Panteras ser potencialmente para toda a família, seu público-alvo são as mulheres e, assim, fez um filme para elas. É uma produção de ação e espionagem, mas Banks também aproveita o mesmo fato antigo de as protagonistas serem subestimadas por seu gênero para trazer situações de machismo cotidiano que farão as espectadoras mulheres se sentirem compreendidas — e os espectadores masculinos, talvez, desconfortáveis. Não significa que um homem não possa aproveitar As Panteras: apenas que, provavelmente, algumas cenas sirvam para reconhecer o machismo em outros homens, quem sabe até mesmo em si próprios.

O elenco do filme, julgado e condenado previamente pelo grande tribunal das redes sociais, foi uma grata surpresa. Kristen Stewart, Naomi Scott e Ella Balinska possuem uma química excelente na tela, e o trio ganha vida própria tanto nas cenas de ação quanto nos momentos mais descontraídos. Sem querer imitar as antigas protagonistas, as novas Panteras receberam personalidades e talentos únicos que complementam uns aos outros.

Em especial, Kristen Stewart chama a atenção em todas as cenas que atua. Embora todas as personagens tenham um pouco de comédia, a Sabina de Stewart foi construída inteiramente para ser o desconto cômico do filme, com seu jeito meio inconveniente e hiperativo. Ainda marcada negativamente como ‘aquela protagonista que não sorri daquele filme de vampiros que brilham no sol’ (dispensa apresentações), a escalação da artista e seu desempenho no longa podem trazer redenção à atriz e mostrar para a internet uma mulher irreverente, cheia de personalidade e — pasmem — com expressões faciais.

Ao contrário do que se acreditava inicialmente, o novo filme não se trata de um reboot da franquia, mas, sim, uma continuação para mostrar a evolução da própria agência Townsend, que agora é uma organização internacional com espiãs treinadas em todos os cantos do mundo. A própria figura do rádio que transmite a voz de Charlie, o líder fundador que distribuía as missões para as Panteras, não está mais tão presente, pois a organização se tornou maior do que um chefe designando uma missão por vez para apenas três agentes.

A personagem de Naomi Scott, Elena, trouxe uma perspectiva nova para a franquia. A atriz, que no mesmo ano passou de princesa da Disney para Pantera, é a novata do grupo. Inicialmente uma engenheira de computação que nada tinha de espiã, ela procura a agência para denunciar uma tecnologia perigosa, e se vê de repente no fogo cruzado do cotidiano das agentes de Townsend. É a personagem que auxilia o público a compreender melhor o funcionamento da organização e dos brinquedinhos tecnológicos que as Panteras usam em suas missões — pois seus desconhecimentos ajudam a elucidar as dúvidas do telespectador e fazer a história andar.

O filme prioriza o desenrolar do roteiro em detrimento do desenvolvimento dos personagens. Para as protagonistas, isso não se torna tão prejudicial para que o espectador as conheça, uma vez que naturalmente elas possuem mais tempo de tela. Os vilões, porém, são apresentados de maneira rasa, com motivações clichês e personalidades insossas. Se isso fizesse com que a trama fosse muito bem desenvolvida, seria um problema menor, entretanto, temos um roteiro esburacado e que confunde com seu andar frenético, mantendo-se em uma perseguição de gato e rato pelo mundo afora entre as espiãs e os bandidos.

As Panteras é um filme meio farofa, carismático e caótico. Ao mesmo tempo em que homenageia seus antecessores, ele não fica sob suas sombras. Com charme próprio, o filme de Elizabeth Banks trouxe as agentes para uma nova era e sob uma nova perspectiva, com mensagens de sororidade e empoderamento. É o típico cinema pipoca: sem grande profundidade, mas que nos anima, nos faz torcer pelas mocinhas e nos deixa com aquele gostinho de quero mais.

Nota:


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Jornalista que migrou para a veterinária, mas sem deixar para trás as jornalices. Vive e respira horror, seja em quadrinhos, filmes, séries ou livros. Último posto de defesa da DC Comics em relação à Marvel, embora tenha que fazer vista grossa quando o papo é cinema. Fã de Heavy Metal, games single player e cospobre de carteirinha quando sobra dinheiro no final do mês.

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