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Link Perdido | Crítica

Link Perdido | Crítica

Link Perdido (Missing Link)

Ano: 2019

Direção: Chris Butler

Roteiro: Chris Butler

Elenco: Hugh Jackman, David Walliams, Stephen Fry, Matt Lucas, Zach Galifianakis, Timothy Olyphant, Zoe Saldana, Emma Thompson

Link Perdido é o nome perfeito para esta animação da Laika Studios, a mesma responsável por Coraline e o Mundo Secreto e Kubo e as Cordas Mágicas. É um título muito apropriado, visto que o novo projeto do estúdio dos dois sucessos anteriores conseguiu cortar todos os links possíveis com os seus maravilhosos antecessores e entregar um filme raso, genérico, e que nem de perto é capaz de transmitir o encantamento e as emoções que os dois acima citados nos fizeram sentir.

Pelo visto, os estúdios de animação redescobriram a lenda do Pé Grande. Após o divertido Pé Pequeno, da Warner, a Dreamworks lançou Abominável, e a Laika surge com este Link Perdido. Desta vez, a criatura que acaba por ser batizada de Sr. Link, cansa de viver sozinho nas florestas dos Estados Unidos e decide entrar em contato com o famoso explorador Lionel Frost, através de uma carta anônima, com o objetivo de ir em busca de seus parentes no distante Himalaia. Sir Lionel Frost, disposto a tudo para se tornar membro de um seleto clube de famosos aventureiros, conclui que encontrar provas da existência de um sasquatch seria a garantia de seu ingresso no grupo. No entanto, os integrantes mais antigos do clube não estão nada dispostos a aceitá-lo por lá.

Esta pequena sinopse apresentada acima parece confusa, e realmente é. O roteiro de Chris Butler é uma bagunça e faz pouquíssimo sentido, com incoerências gritantes a cada nova sequência. Que fique muito claro que tenho plena consciência de que se trata de um filme infantil, que o público-alvo provavelmente é apenas as crianças. Já considero um grande erro lançar no cinema um longa-metragem no qual cerca de metade do público (os adultos que acompanham as crianças) não terá o que aproveitar. Mas não é só isso. O filme acaba por subestimar tanto a capacidade de discernimento do público que até para crianças pequenas ele poderá soar estranho. Por exemplo, uma das piadas mais recorrentes no filme diz respeito ao peso do Sr. Link, devido à sua grande estatura. No entanto, em um momento-chave do filme, esta informação que foi repetida à exaustão, é simplesmente ignorada contrariando toda a lógica criada até ali.

E esse é apenas o equívoco mais gritante. Existem vários outros problemas mais discretos, alguns detalhes inexplicáveis referentes à composição do protagonista no primeiro ato, que destoam totalmente do comportamento que vemos por parte dele no decorrer do filme. Há ainda personagens que supostamente seriam importantes para a trama, mas que são pobremente utilizados, e desaparecem de cena sem maiores explicações ou consequências.

Além do roteiro ser problemático, a direção também não ajuda nem um pouco. Planos mal elaborados e uma narrativa mal conduzida o tempo inteiro. A primeira aparição do Sr. Link pode ser definida em algum termo entre o frustrante e o patético. Sir Lionel leva cerca de 30 segundos para encontrar uma criatura que ele perseguiu por décadas. O suspense resume-se ao Pé Grande correndo entre as árvores por alguns segundos, até parar em uma clareira, afinal de contas, ele queria ser encontrado. E praticamente tudo se resolve dessa maneira no filme. Sem lógica, sem emoção, sem magia. É uma animação com seres mitológicos na qual falta fantasia, e este é um erro quase inaceitável.

Importante ressaltar que assisti a cópia dublada em português e que, já aí, percebi uma perda significativa que pude observar nos trailers. Afinal de contas, a versão original conta com alguns nomes de peso como Hugh Jackman, Stephen Fry, Zach Galifianakis, Zoe Saldana e Emma Thompson. E, se a voz brasileira de Sir Lionel funcionou bem, apesar da inevitável perda em relação a Hugh Jackman, o mesmo não pode ser dito de Adelina Fortnight, originalmente dublada por Zoe Saldana. A versão nacional, além de irritante, passou longe de se adequar aos sentimentos e personalidade de Adelina. A personagem demonstrava um sotaque indecifrável, supostamente hispânico, que desaparecia por algum tempo e reaparecia depois, de forma que chegava a surpreender cada vez que escutávamos alguma palavra com aquele acento carregado.

É decepcionante constatar que uma técnica tão fantástica — e trabalhosa —  de animação, que une um stop motion de bonecos incrivelmente bem produzidos a modernos recursos de CGI, se transformar em um filme tão raso e sem graça devido a um roteiro tão pouco inspirado. É um erro enorme subestimar a capacidade de compreensão do público infantil. Afinal de contas, mesmo que alguns ingredientes óbvios consigam garantir que as crianças curtam o filme, até para elas algumas obras se tornam esquecíveis, enquanto outras marcam suas vidas, sendo revisitadas por décadas a fio. É bem provável que Link Perdido se encaixe no primeiro tipo, e desapareça rapidamente da lembrança de todos, mesmo daqueles aos quais o filme se destina.

Nota:


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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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