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Doutor Sono | Crítica

Doutor Sono | Crítica

Doutor Sono (Doctor Sleep)

Ano: 2019

Direção: Mike Flanagan

Roteiro: Mike Flanagan, Akiva Goldsman

Elenco: Ewan McGregor, Rebbeca Ferguson, Alexandra Essoe, Zahn McClarnon, Bruce Greenwood, Emily Alyn Lind, Kyliegh Curran, Cliff Curtis, Carl Lumbly

Ao aceitar dirigir a adaptação de Doutor Sono para as telonas, Mike Flanagan estava entre a cruz e a espada. Por um lado, havia a conceituadíssima versão de Stanley Kubrick de O Iluminado, com suas tomadas de câmera caracteristicamente profundas e simétricas, seu elenco inesquecível e sua trilha marcante, que deixava o espectador em absoluta tensão com suas notas graves e pausadas. Kubrick fez questão de cortar o cordão umbilical do livro de Stephen King quando estava desenvolvendo seu filme e, embora para muitos diretores essa seja uma decisão arriscada, não estamos falando de qualquer diretor. O Iluminado de Kubrick se tornou uma obra à parte de seu livro homônimo, criou vida própria e cresceu como fenômeno cult. Agradar os fãs do filme nessa continuação não seria fácil, uma vez que se trata de uma história completamente diferente. Além disso, qualquer tentativa de simular a direção de Kubrick seria um atentado horrendo transvestido de homenagem.

O outro empecilho da história seria o próprio Stephen King. Não é novidade que o autor sempre se opôs ao filme de Kubrick por causa das mudanças significativas em relação ao livro de referência. O escritor sempre argumentou que o longa mudava não apenas detalhes supérfluos da obra – tais como as topiárias em forma de animais que foram transformadas em um labirinto ou a marreta que virou um machado – mas características centrais da narrativa, como a evolução da loucura de Jack Torrance, o destino de Dick Hallorann e o desfecho da obra. Características essas que fariam diferença em Doutor Sono.

Flanagan precisava ser fiel ao material de origem para adaptar Doutor Sono, mas isso poderia fazer com que os fãs da adaptação cinematográfica se desagradassem pela falta do impacto e da semelhança da história do filme anterior. Ao mesmo tempo, considerar as mudanças realizadas por Kubrick seria fazer o próprio Rei do Terror (juntamente com seus fãs mais puristas) torcer o nariz. Ele estava no meio de um cabo de guerra, tentando equilibrar uma sequência muito esperada e que poderia dar errado por qualquer descuido.

O diretor conseguiu manejar a situação com extremo cuidado e diplomacia. Ele optou por continuar diretamente do filme de O Iluminado e, ao mesmo tempo, seguir a história do livro de Doutor Sono com a maior fidelidade possível, até onde as devidas modificações permitissem. Assim, após décadas de debate, os mundos literário e cinematográfico se mesclaram como um só.

O problema que isso acarretou é que a adaptação não se decide qual filme quer ser. Enquanto conta a história de Doutor Sono, o roteiro segue com habilidade e fluidez, e o espectador pode facilmente esquecer a produção de 1980 enquanto se diverte com esse novo universo do enfermeiro Dan, da poderosa Abra e dos vampiros sugadores de vapor de pessoas iluminadas. O problema está nos constantes tributos à obra original, distribuídos em momentos nem sempre necessários. O resultado foi algumas poucas cenas que poderiam ter sido brilhantes em sua originalidade, mas a referência Kubrickana cortou a imersão e deixou um estranhamento no ar.

Quanto às atuações, é notório o destaque de Rebecca Ferguson como Rose Cartola. A líder do clã Verdadeiro Nó é uma personagem esperta e impiedosa, com sinceridade e carisma suficientes para nos fazer esquecer momentaneamente de suas vilanias. Ao vestir o chapéu da ‘vampira’, Ferguson consegue externar não só a confiança e a resolução que fazem com que seja ela a responsável pelas decisões do Verdadeiro Nó, como também a loucura que os anos de imortalidade implantaram em sua mente.

Ewan McGregor faz um trabalho decente como a versão adulta de Dan Torrance, um alcoólatra em recuperação tentando fugir dos erros do passado e da semelhança que possui com seu falecido pai. No entanto, temos um filme longo, com uma história intensa e outros personagens mais interessantes que o menino sobrevivente do Hotel Overlook, de modo que o trabalho de McGregor não se destaca tanto quanto deveria. Não sentimos o peso das decisões ruins que Dan toma ao longo da sua jornada — e nem o trauma que ele carrega.

A jovem Abra, interpretada pela talentosa Kyliegh Curran, de apenas 13 anos, rouba a cena em diversos momentos, mesmo contracenando com adultos. Abra sabe da força que possui, e isso vem acompanhado de um excesso de confiança e uma determinação heroica para fazer a coisa certa, mesmo quando os adultos receiam. Ao contrário de Danny, Abra nunca foi ameaçada por causa de seus poderes, e foi criada em uma família bem-estruturada que, mesmo fingindo não saber das habilidades da filha, buscam conselhos por entender que ela sabe mais do que as pessoas comuns.

Quem leu o livro Doutor Sono (sem spoilers, prometo), provavelmente deve estar se perguntando como eles resolveram a cena da ‘batalha final’. Por conta das modificações de Kubrick que impediriam de seguir à risca o livro, Flanagan aproveitou aquele momento para pôr em prática sua liberdade criativa. Isso criou uma sequência de déjà vus bem pontuados, em uma crescente sensação de claustrofobia e desastre iminente. Talvez o único erro dessa parte final do filme seja o de não ter deixado o clímax, o ponto de não-retorno, explícito o suficiente.

Os atores escalados para viver os personagens em suas versões do filme anterior são bastante convincentes na semelhança física. Henry Thomas, embora com uma participação mais reduzida do que era esperado, trouxe a loucura de Jack Torrance de volta à superfície em uma das cenas mais tensas do filme, e as marcas da vitimização em Wendy Torrance, vivida por Alexandra Essoe, são palpáveis. Dos personagens antigos, o ator que mais pareceu compreender a atuação de seu antecessor foi Carl Lumbly, que interpreta Dick Hallorann, o cozinheiro do Hotel Overlook. Os trejeitos, a entonação na fala, o olhar de tristeza e compreensão para uma criança que vai crescer solitária por conta de seu dom, Lumbly abraça seu personagem tão intensamente que é possível esquecer que não estamos vendo o falecido Scatman Crothers de volta ao papel.

Os efeitos especiais da Warner Bros. sempre precisam ser citados. Infelizmente, o estúdio não possui bons profissionais nesse departamento, e isso prejudica todos os filmes que saem de lá (às vezes pouco, às vezes nível bigode do Superman). No caso de Doutor Sono, o que mais incomoda são os olhos dos membros do Verdadeiro Nó, que brilham quando estão consumindo uma presa (assim como dentes de vampiro que crescem na hora de atacar). Parece ser um detalhe pequeno, mas não combinou com a ameaça que aquele culto vampiresco deveria transmitir. As cenas passadas dentro das mentes dos personagens (como a de Dan e de Rose Cartola) também assumem um tom meio cartunesco, e quase podemos ver a tela verde por trás de toda a computação gráfica. Felizmente, Doutor Sono é um filme que não requeria tanto uso de efeitos especiais, e talvez por isso eles não pareçam tão ofensivamente amadores, tais quais os de It: Capítulo 2.

Doutor Sono é um longa de ambição limitada. Nos momentos em que ele ousa ser ele mesmo, mergulhamos em um mar de profundidade desconhecida, típico da criatividade irrestringível de Stephen King, e abre portas para possíveis spin-offs. O universo dos vampiros de vapor é misterioso e cativante, e tem potencial para ser tão aprofundado quanto as raízes malignas do hotel. O que desestrutura o filme é o medo de sair das sombras de O Iluminado. Assim como os fantasmas do Hotel Overlook assombram e coíbem a vida de Dan Torrance, o mesmo pode se dizer sobre o fantasma de Stanley Kubrick sobre a obra de Mike Flanagan.

Nota:


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Jornalista que migrou para a veterinária, mas sem deixar para trás as jornalices. Vive e respira horror, seja em quadrinhos, filmes, séries ou livros. Último posto de defesa da DC Comics em relação à Marvel, embora tenha que fazer vista grossa quando o papo é cinema. Fã de Heavy Metal, games single player e cospobre de carteirinha quando sobra dinheiro no final do mês.

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