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O Rei | Crítica

O Rei | Crítica

O Rei (The King)

Ano: 2019

Direção: David Michôd

Roteiro: Joel Edgerton

Elenco: Timothée Chalamet, Robert Pattinson, Joel Edgerton, Lily-Rose Depp, Sean Harris, Dean-Charles Chapman, Ben Mendelsohn

Começando com o pé direito o mês de novembro, a Netflix emplacou uma estreia cuja expectativa conseguiu sair do papel e gerar um resultado positivo quanto à sua produção. Estamos falando do recém lançado O Rei, filme dirigido por David Michôd e roteirizado por Joel Edgerton, baseado nas peças teatrais de William Shakespeare, que fazem referência aos reinados de Henry IV e seu sucessor, Henry V, da Inglaterra.

Os materiais visuais que fizeram a divulgação do longa-metragem já chamavam atenção por si só, criando uma esperança de que o serviço de streaming finalmente entregaria uma obra bem planejada e de bom gosto. E, dessa vez, há de se admitir que a Netflix finalmente acertou o pulo na produção de um filme, porque O Rei realmente proporciona entretenimento de qualidade. 

O enredo foca na história de Henry de Monmouth (Timothée Chalamet), também apelidado de Hal, filho de Henry IV (Ben Mendelsohn), que foi criado afastado da corte por não ser um candidato ao trono. Após seu pai depor Ricardo II, assumindo a coroa da Inglaterra, o jovem Henry seguiu vivendo longe da monarquia por não ser a favor da forma com que seu patriarca gerenciava os conflitos contra outros impérios. Entregando-se à uma vida de bebedeiras e promiscuidades em tavernas, Hal acaba não adquirindo boa reputação perante o reino e, com isso, ressalta a preferência do rei em subir seu irmão mais novo, Thomas (participação de Dean-Charles Chapman, que, diga-se de passagem, deu uma melhorada na atuação desde Tommen Baratheon de Game of Thrones), ao trono inglês.

Porém, ao se deparar com problemas de percurso, Henry de Monmouth acaba cedendo à sua obrigação como monarca, provando sua determinação em liderar o reino de forma menos destrutiva, a partir do momento em que resolve enfrentar pessoalmente a revolta invocada por Harry Percy contra o reinado de seu pai, na tentativa de impedir uma possível guerra e aniquilação de seus soldados. Aos poucos o rei novato consegue ir provando sua competência, empenhado em honrar suas responsabilidades, mas acaba não conseguindo escapar de alguns confrontos, o que faz com que seja obrigado a entrar em batalha para defender seu título.

Havia uma preocupação da audiência quanto ao elenco do filme, uma vez que, por seus personagens serem muito jovens, a maior parte do cast de destaque do longa ainda está abaixo de 35 anos e não tem uma carreira artística efetivamente consolidada na área cinematográfica. Entretanto, assim como esse receio se fez presente, também foram feitas apostas otimistas acerca do desempenho do protagonista, Timothée Chalamet, pois ele já vinha dando o que falar desde seu trabalho em Me Chame pelo Seu Nome, que lhe rendeu diversas indicações de melhor ator em premiações de cinema.

Com apenas 23 anos, Chalamet demonstra muito profissionalismo e dedicação ao interpretar Henry V. É notável o crescimento de seu personagem ao passo em que Hal é incumbido de compromissos dos quais não demonstrava interesse, mas que resolve abraçar para atestar sua capacidade como homem e governante, limpando a imagem de bêbado inconsequente que nutria desde a adolescência. Em todas as cenas, Chalamet se encarrega de demonstrar seriedade para com seu papel, e entrega uma excelente performance, mostrando que seu talento não é fruto de um único produto.

Outro ator que também faz parte do filme, mas está sempre sendo questionado quanto a suas habilidades, é Robert Pattinson, intérprete do delfim francês Louis, que no longa representa a presença de seu pai, o Rei Charles VI, na Batalha de Azincourt contra Henry V e o exército da Inglaterra. Infelizmente, Pattinson é sempre lembrado por ter representado Edward Cullen na saga Crepúsculo, cuja obra, roteiro e direção acabaram maculando sua notoriedade como profissional, pois na época fez com que se tornasse apenas um ídolo teen da cultura pop, sem relevância por seu trabalho. Entretanto, vale salientar aqui que Pattinson já vem marcando presença em diversas produções após essa película, e seu portfólio como ator deve ser analisado por todas suas experiências e não apenas por uma única série de 11 anos atrás. 

Na pele de Louis, alguns espectadores podem encarar a performance de Pattinson como exagerada, mas a realidade é que o seu personagem aparentemente incorporou o histórico de negligência familiar da vida do Rei Charles VI, que acarretou em uma educação lamentável e problemas mentais posteriores, a ponto de levar o apelido de ‘Rei Louco’. Se essa mescla de personalidades for levada em consideração, o desempenho de Pattinson no papel é de certa forma acurado e não remete a outros personagens que tenha exercido até então.

Como O Rei é inspirado nas peças Shakespearianas, a precisão histórica não é um fator relevante para o longa, vários acontecimentos se sucedem de maneira diferente para causar reações mais emocionantes à trama. Apesar de ter surgido com a premissa de ser um filme de guerra, e as cenas relativas a ela serem extremamente bem executadas, o maior trunfo dele é a dramaticidade do desenrolar do enredo em torno de questionamentos acerca de políticas governamentais e obrigações hereditárias da coroa. 

O Rei é certamente uma das produções mais bem sucedidas da Netflix até então. Uma boa atração que ganha pontos pelo esforço do elenco e desenvolve muito bem um período da era medieval, independente de divergências históricas para com a realidade e os livros de Shakespeare.

Nota:


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Designer de moda e redatora gaúcha, vivendo em São Paulo. Interessada por arte e cultura pop em suas mais diversas áreas. Por ser uma romancista entusiasta, curte assistir adaptações literárias para o cinema, e pela ligação acadêmica com figurino, longas de época ocupam o topo da sua lista de filmes favoritos. Além disso, possui o super poder inútil (?) de guardar com facilidade nomes de artistas e apontar suas participações em produções.

Comments

  1. A fotografia é usada como instrumento narrativo, com coerentes avanços entre planos fechados e abertos, sendo mais soturna mas sem se evadir de um jogo de luz e sombras, demostrando os perigos que cercam a coroa. Off topic: o jogo de luz e sombras, em geral na diagonal, me lembrou de quadros barrocos.

    As atuações são convincentes e o Timothée Chalamet prova mais uma vez, após Lady Bird, Call Me By Your Name e Beautiful Boy que é, mais do que uma promessa de uma futura grande estrela, um ator já consolidado e do mais alto nível.

    Direciono um parabéns à direção sobretudo nas cenas de batalhas, que se esquivam de um heroísmo exacerbado para dar lugar ao realismo, com homens se engalfinhando sem brilho, mas com a crueza e o animalesco inerentes de uma guerra.

    Já o roteiro tem seus percalços. Eu, que aprecio obras mais lentas sem o frenesi característico dos blockbusters, senti que houve momentos que deixam a tensão (e a atenção) do espectador fugir. No entanto, alguns diálogos são potentes (Shakespeare né!) e eu apreciei o plot twist final (será que posso denominar assim?).

    No mais: obrigado pelo conteúdo do Bode e “God Save The King”.

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