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O Farol | Crítica

O Farol | Crítica

O Farol (The Lighthouse)

Ano: 2019

Direção: Robert Eggers

Roteiro: Robert Eggers, Max Eggers

Elenco: Willem Dafoe, Robert Pattinson 

Robert Eggers lançou sua carreira como um dos nomes mais empolgantes do horror contemporâneo, em 2016, com A Bruxa. A estreia do diretor, apesar de ter sofrido com um marketing enganoso, que levou muita gente aos cinemas esperando ver um filme de terror convencional, se tratava de um atmosférico e tenso thriller psicológico de época, que se destacava por sua atenção a mitologia folclórica e acurácia histórica na retratação dos personagens e seus costumes. Três anos depois, o cineasta inglês volta aos holofotes com uma nova produção, que pega todos os elementos pelo qual ele ficou conhecido e os deixa ainda mais insanos.

Ambientado na década de 1880, O Farol começa com o início das atividades de Ephraim Winslow (Robert Pattinson) como faroleiro. O quieto jovem esconde um passado misterioso ao passo de que precisa lidar com Thomas Wake (Willem Dafoe), seu experiente superior que, ao contrário dele, é barulhento e entusiástico. A árdua e isolada existência dos dois como os únicos habitantes da ilha é constantemente aterrorizada por acontecimentos sobrenaturais, que podem ou não estar acontecendo.

A primeira metade do filme é de Dafoe. Thomas Wake é um dos seus melhores personagens. Falador, duro, instável e bastante sensível em determinadas partes, Wake é um prazer de se ver em tela com seu sotaque carregado e sua implicância. O ator precisa ser insano e saltar por diversas emoções rapidamente, entregando uma atuação magnífica com a intensidade habitual. O faroleiro tem uma química explosiva com Winslow. Ambos não vão com a cara um do outro no início e brigam o filme inteiro. Mas, mesmo com tantos desentendimentos, existe certa amizade entre os dois homens que rendem excelentes momentos do filme.

A segunda metade do longa é de Pattinson. O ator, que tem escolhido projetos interessantíssimos nesta década, compõe Winslow como um jovem reservado e introspectivo, aceitando as desgastantes tarefas a que é atribuído com desgosto, mas sem reclamar com o seu superior. Porém, conforme a relação entre os dois se desenvolve — e o tempo na ilha somado ao isolamento, mais quantidades absurdas de álcool — ele fica tão louco quanto seu colega. O segredo que Winslow carrega é bem integrado à trama e adiciona uma dinâmica interessa a seu relacionamento com Thomas. Pattinson é quase tão eficiente quanto o seu parceiro de tela enquanto surta e os dois merecem a atenção das premiações desta temporada.

Mesmo se não tivesse qualquer elemento sobrenatural, O Farol seria um drama igualmente ótimo. O roteiro, escrito por Eggers com o seu irmão, Max, é um excelente estudo de obsessão e insanidade por conta própria. Os diálogos são um tempestuosos, extremamente bem estruturados e atuados, fornecendo um ótimo material para ambos os personagens. Por mais surpreendente que possa soar, o longa também é hilário. Desde incontáveis peidos a estar coberto de fezes, o senso de humor consegue ser absurdo sem nunca ser dissonante com o resto do material mais sério. Ainda existe um subtexto sexual fortíssimo, com as constantes tensões que acometem Winslow e se materializa na forma de sereia.

A parte técnica da produção também é igualmente bem concebida. Para começo de conversa, um farol de 20 metros foi construído do zero com uma luz tão potente que realmente poderia ser vista a quilômetros de distância. Filmado no aspecto 1:19:1, que foi utilizado apenas de 1926 a 1932, a produção tem um caráter claustrofóbico, com os personagens constantemente presos em enquadramentos fechados, até quando estão em ambientes abertos, mantendo um clima de constante sufocamento. Mas, mesmo que o filme seja disposto em um formato quadrado, ele nunca soa limitado.

Eggers é capaz de construir planos excelentes e magnéticos, sempre prendendo a atenção para a próxima revelação. A decisão de rodar o filme em preto e branco também é excelente. Ambientes são quase que completamente escurecidos, sombras e silhuetas criam pavor e incerteza e a sensação de algo estar errado é constante. A fotografia composta por Jarin Blaschke é excepcional. A trilha sonora e o desenho de som também se destacam por sua presença opressiva e bombástica, distorção sonora nunca foi tão bem utilizada quanto no clímax.

E, assim como foi com A Bruxa, O Farol não é um terror convencional. A atmosfera é inquietante e a tensão escala muito bem, mas a falta de elementos de horror mais sólidos pode decepcionar quem assistir com a impressão errada. O sobrenatural está lá, atormentando os faroleiros, mas a sua presença é incerta. Uma força maior agindo ou apenas o exílio delirando os protagonistas? Não importa. Quando o longa quer aterrorizar ou chocar ele é efetivo em qualquer proposta.

Atingindo um final marcante com o auge absoluto da insanidade com decisões corajosas de seus realizadores, O Farol não acaba com os créditos finais. Muitas cenas ficam na memória, muito é deixado para a interpretação. Folclore e mitologia formam um fator maior do que é levado a crer originalmente — diversos elementos podem significar mais de uma coisa. Como os melhores filmes, existem diversas interpretações que podem ser atribuídas ao novo projeto de Robert Eggers, um longa-metragem que, com certeza, deve ser uma experiência ainda mais enriquecedora, e talvez ainda melhor, quando assistido de novo.

Nota:


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Estudante de jornalismo, tem 20 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli e de musicais, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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