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História de um Casamento | Crítica

História de um Casamento | Crítica

História de um Casamento (Marriage Story)

Ano: 2019

Direção: Noah Baumbach

Roteiro:Noah Baumbach 

Elenco: Scarlett Johansson, Adam Driver, Laura Dern, Alan Alda, Ray Liotta, Julie Hagerty, Merritt Wever

Quando lançado em 1974, Cenas de um Casamento, de Ingmar Bergman, foi atribuído como razão de um crescimento no número de divórcios realizados na Suécia. Em um impacto menor, Garota Exemplar também causou um fenômeno similar quando atingiu os cinemas em 2014. Não será uma surpresa se História de um Casamento for responsável pela separação de diversos casais depois de sua estreia, em dezembro deste ano.

O filme começa com o casal principal explicando o que ama no seu ex-cônjuge. A atriz Nicole (Scarlett Johansson) e o diretor de teatro Charlie (Adam Driver) estão passando por um complicado divórcio. Eles estiveram juntos por anos e tiveram um filho, mas as diferenças irreparáveis nas suas respectivas decisões sobre qual caminho seguir no relacionamento colocaram tudo a perder. Apesar de inicialmente amigável, o processo de separação começa a ter grandes riscos quando Nicole se muda para Los Angeles e Charlie pretende continuar em Nova York. Nenhum dos dois está disposto a trocar de cidade nem perder a guarda do filho.

Mesmo que ambos já estejam separados, Driver e Johansson vivem um casal extremamente crível. Em toda cena é possível ver o quanto eles se amavam e ainda se respeitam, apesar de tudo que estejam passando, como profissionais e como pessoas. Nicole e Charlie se conhecem extremamente bem e a performance dos atores captura de forma perfeita a profundidade da relação. Às vezes, um único olhar consegue expressar mais do que qualquer diálogo. Logo de cara, o maior acerto do longa é não facilitar para que a audiência simplesmente escolha um lado. Cada um dos dois têm as suas paixões, seus motivos e seus medos e ninguém está completamente certo ou errado em relação ao divórcio: dá para entender a posição de ambos de forma clara e objetiva.

Scarlett Johansson não esteve tão bem assim em anos. A atriz, que focou mais em produções da Marvel na segunda metade da década, surpreende e não é pouco. Ela vive Nicole Barber com o carisma e vivacidade habitual, mas em toda cena que exige complexidade emocional, ela é convincente e de partir o coração. Adam Driver, que continua se mostrando um profissional cada vez melhor com ótimos projetos no currículo, provavelmente dá a sua melhor atuação até aqui. Charlie sofre mais com o divórcio e com o subsequente distanciamento do filho e Driver tem muito material para brilhar, passando de sensibilidade para pura raiva.

O elenco de apoio está igualmente fantástico. Laura Dern continua com a renascença da sua carreira interpretando outra personagem icônica; a advogada Nora Fanshaw é hilária e tem as melhores frases do filme, mesmo que seja utilizada como alívio cômico na maior parte do tempo, a atriz tem boas oportunidades para deixar a sua personagem multidimensional. Merritt Weaver, de Godless, tem uma curta participação, mas está histérica em toda cena em que aparece. Alan Alda está ótimo e afetuoso como Bert Spitz, o advogado de Charlie. Por fim, Ray Liotta, sumido desde sabe Deus quando, está brilhante, uma vez que toda fala que sai do personagem dele é ouro.

Escrito por Noah Baumbach, que também assume a cadeira de diretor em seu segundo projeto da Netflix (o primeiro foi o bom Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe), História de um Casamento é um primor. Logo na primeira cena, em que ambos os personagens detalham o que amam no outro são estabelecidos diversos traços de personalidades e manias que voltam na trama constantemente. O longa é constantemente engraçado e alterna muito eficientemente entre comédia e drama — mas o humor nunca estraga os momentos mais sérios. É possível ver o carinho e atenção com a qual ele criou esta história e estes personagens neste que deve ser facilmente o seu melhor filme.

E toda cena culmina para a intensa e memorável cena de briga no clímax. Charlie e Nicole, exaustos do desgastante processo de divórcio, perdem a paciência um com o outro e entram nesta grande discussão. Os dois personagens simplesmente descarregam todo o estresse, o ódio e a frustração de uma só vez, trazendo à tona não apenas o drama da separação, mas questões não resolvidas que traziam do casamento e desde antes de conhecerem. É uma cena igualmente triste e fascinante de se assistir — Driver e Johansson estão absolutamente brilhantes.

Por mais climática que a briga seja, o filme não fica nem perto de acabar e as duas horas e dezesseis minutos de duração passam a soar excessivas. O ritmo, que até então era ótimo, acaba se perdendo um pouco e as cenas parecem durar demais e nunca chegar a um fim. E quando História de um Casamento chega à sua agridoce conclusão, duas coisas ficam certas: que todos os envolvidos são magníficos e que a Netflix deveria investir em mais conteúdo original tão bom quanto este.

Nota:


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Estudante de jornalismo, tem 20 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli e de musicais, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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