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A Lavanderia | Crítica

A Lavanderia | Crítica

A Lavanderia (The Laundromat)

Ano: 2019

Direção: Steven Soderbergh

Roteiro: Scott Z. Burns (adaptado do livro de Jake Bernstein, Secrecy World: Inside the Panama Papers)

Elenco: Gary Oldman, Antonio Banderas, Meryl Streep, Melissa Rauch, Jeffrey Wright, David Schwimmer, Sharon Stone, James Cromwell

Em A Lavanderia, Steven Soderbergh emula o Adam McKay de A Grande Aposta para contar a história de um escândalo financeiro se utilizando da metalinguagem, do didatismo e, especialmente, do cinismo para jogar o espectador contra o mercado financeiro em um conto moral sobre a lavagem de dinheiro. E podemos dizer que ele é muito eficiente nisso, já que é impossível terminar o filme sem sentir raiva de homens engravatados que ficaram milionários escondendo segredos sujos de pessoas poderosas. O problema é que o diretor poderia ter criticado tudo isso sem resvalar no próprio cinismo moral norte-americano, que sempre acaba colocando o “cidadão médio” estadunidense como portador da ética, reproduzindo, ao longo do processo, todos os estereótipos dos “estrangeiros” criados na cultura pop ao longo das últimas décadas.

O filme conta, com todas as liberdades que uma ficção pode tomar, a história do Panama Papers – escândalo que vazou mais de 11 milhões de documentos da empresa Mossack Fonseca, que comprovavam a lavagem de dinheiro de pessoas poderosas no paraíso fiscal do Panamá, criando empresas de fachada (as chamadas offshores) para o livre trânsito de dinheiro ilegal. Gary Oldman (Mossack) e Antonio Banderas (Fonseca) interpretam os advogados proprietários da empresa, que quebram a quarta parede para explicar ao espectador todas as artimanhas que utilizaram para esconder a “sujeira” de seus clientes, que iam desde traficantes do México até primeiros-ministros da Islândia e do Paquistão, passando pela Odebrecht. Meryl Streep dá vida a Ellen Martin, personagem fictícia criada para representar o “cidadão comum” afetado diretamente pelas falcatruas da firma de advocacia panamenha.

Soderbergh aposta na montagem ágil e no humor ácido para conduzir uma trama que poderia soar enfadonha ou inteligível, devida à complexidade do tema. Não faltam momentos em que personagens falam, com todas as letras, que não entendem o que está acontecendo, e outro prontamente aparece para explicar, se utilizando de metáforas e figuras de linguagem simples para que o espectador médio compreenda satisfatoriamente – sem soar, todavia, como uma subestimação de nossa inteligência.

Embora cometa excessos ao apresentar várias subtramas que ajudam a compreender a dimensão global do caso, criando barrigas desnecessárias em seu miolo, é na montagem e no carisma de seu trio de protagonistas que A Lavanderia se sustenta. Oldman, Banderas e Streep são a alma do filme. O cinismo encantador dos dois primeiros contrasta com a humanidade da última, criando um equilibrado balanço entre a as justificativas deslavadas dos advogados e o impacto direto de suas ações nas pessoas. Dessa forma, reconheçamos seu charme, mas não perdoamos seus crimes.

O problema de A Lavanderia está muito mais relacionado à incapacidade de Soderbergh de olhar, efetivamente, para fora de sua janela – e a personagem de Meryl Streep é sintomática nesse sentido. Os latinos são retratados como excêntricos e despudorados, os chineses, como moralmente rígidos e incapazes de demonstrar emoções, mas é justamente a personagem de Streep que representa o balanço moral para tudo isso, sendo inabalável em sua ética e revoltada com a corrupção que a cerca. Seu núcleo familiar é amoroso e presente, ao contrário dos famílias de outras nacionalidades, que não reservam nenhum respeito a si próprios. Quando tenta, em seu último ato, dizer que toda essa cultura de crimes financeiros vem, justamente, dos EUA (fazendo até uma autocrítica), já é tarde demais. Não dá para fingir que a uma hora e meia que antecederam esse momento serviu para representar estereótipos racistas e preconceituosos de latinos e asiáticos, em detrimento da personalidade contida e ética de norte-americanos.

Soderbergh cumpriu exatamente com todo o expediente do “desconstruidão” desenhado pelos usuários brasileiros no Twitter: ao tentar fazer uma engajada crítica ao status quo, reproduz uma série de estereótipos raciais e culturais que acaba revelando os seus próprios preconceitos. Como toda Hollywood, Soderbergh acredita, mesmo que inconscientemente, na supremacia moral do branco norte-americano sobre o resto do mundo. E nesse caso, nem a auto-referência o desabona desse erro. A Lavanderia é um ótimo filme para demonstrar a indiferença dos poderosos com os mais pobres, desde que desconsiderada toda a sua inconsciência racial e étnica. Algo muito difícil de ignorar nos dias de hoje.

Nota:


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Jornalista em formação, ex-membro do finado e saudoso Terra Zero e leitor de histórias em quadrinhos. Fã de ficção científica e terror, divide seu tempo livre entre o cuidado com suas dezenas de gatos e a paixão pela cultura pop. Sonha com o dia em que perceberão que arte é sim, uma forma de discutir política.

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Comments

  1. 2,5 de 5? Ótimo filme? Difícil entender…

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