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Problematizando Matrix

Problematizando Matrix

Por Rodrigo Ramos

Não é novidade que completamos, em 2019, vinte anos do histórico lançamento de Matrix. As repercussões cinematográficas são relativamente conhecidas e foram muitos os desdobramentos na indústria com o lançamento da trilogia do Escolhido.

Gosto de trazer elementos pessoais para os meus textos e nesse não será diferente. Em 2000, existia algo chamado locadora e tínhamos de esperar meses, por vezes anos, até os grandes lançamentos ficarem disponíveis para nós. Assim que Matrix chegou para a única locadora das redondezas. Era uma luta para conseguir a única cópia disponível do filme, no saudoso VHS.

Depois de algumas semanas de frustração, me antecipei aos vizinhos e garanti a locação. Difícil foi lembrar-me de rebobinar a fita. Afinal, sem exageros, vi mais de 10 vezes em dois dias o primeiro filme do que viria a ser uma trilogia dos irmãos Wachowski.

Só tínhamos uma televisão em casa e eu causei um nem tão leve trauma na minha mãe por causa das repetidas vezes que assisti ao filme. Hoje, não conseguiria fazer com que ele revisse Matrix nem com uma mistura de muitas pílulas azuis e vermelhas, mesmo que aliada a doses generosas de álcool.

Nariz de cera encerrado, vamos partir para o que interessa os conceitos filosóficos por trás da obra. As pílulas, que remetem a alegorias anteriores ao Deus cristão, nos abrem (ou não) essa possibilidade da escolha, que perpassa toda a trilogia. Porém, a noção de escolha e de liberdade pode ser bastante enganosa. Como é retratado em conversa de Neo com a Oráculo.

Afinal, que liberdade tinha Neo em fazer essa ou aquela escolha, se a Oráculo já sabia qual seria a tomada de decisão dele? Isso é mais comum em nossas vidas do que imaginamos. Nos oferecem muitas vezes pequenas escolhas que não terão efeito prático algum. Por outro lado, decisões importantes nos são repassadas não por pura bondade ou interesse que se cumpre nossa vontade. O que se quer é alguém para estampar a face da derrota caso ela ocorra.

De outro lado, o fatalismo está presente nos três filmes, encarnado em muito por Morpheus e sua crença quase inabalável na Profecia, que, por sinal, não se cumpre. E que diferença prática a falha na Profecia tem em Morpheus? Quase nenhuma. Ele segue messiânico e grandiloquente, com aquele ar soturno, de quem sempre parece ter uma resposta e acredita tanto em si mesmo que raros são aqueles que ousam contestá-lo.

Com Merovíngio temos outra parte fatalista, trazida até nós pela falsa moderação da causalidade, elementos muitos explorados na física e na filosofia jurídica, na qual tanto se trabalha no nexo causal. Para o insaciável personagem francês, quase tudo era permitido desde que houvesse um motivo para isso. Não interessa se esse motivo era frágil ou fútil. Basta o gatilho.

Em que pese traga proposições pouco exploradas para sua época como obsolescência e a emoção contida nas máquinas, a trilogia esbarra em questões bem mais comuns e pouco aprofundadas. Afinal, mesmo naquela época ninguém teria sucesso comercial com um filme que fosse um tratado sobre filosofia, em vez de um grande filme de ação com pequenas pitadas com ares de iluminação.

Destaque para o brilhante monólogo de Smith na luta final com Neo. Infelizmente, aquela série de questionamentos não tem qualquer resposta satisfatória. Longe disso, se soma uma série de puerilidades até a queda final do grande vilão, com todo aquele estilo de recolhedor de impostos e que anos depois seria consagrado pelo CQC.

A questão do propósito de cada um, da função das coisas e do sentido da vida intriga os habitantes da Matrix em vários momentos. Fato é que respondendo negativamente a última questão acabamos basicamente anulando o debate sobre as duas primeiras indagações.

Se não há sentido na vida e não faz nenhuma diferença o que façamos ou deixamos de fazer nesse ou em qualquer Mundo pouco interessa se temos um propósito, se as coisas têm uma função.

A maioria das pessoas luta por toda sua existência buscando um motivo para viver, alguns encontram isso na Religião, outros na perpetuação e alguns seguem uma linha psicanalítica contemporânea, na qual cada um acredita ter um propósito em sua existência e que descobrir e expandir esse dom seria o sentido da vida em si.

Dado isso poderíamos partir para uma análise mais detida sobre propósito e função, que também abrangem a causalidade citada anteriormente. Eu posso acreditar que ter acordado às 08h da manhã, tomado um café rápido e ter encontrado um conhecido que me abriu uma porta no meio de uma caminhada é uma relação de causa e efeito e que se eu não tivesse agido dessa exata maneira, nada teria acontecido.

Penso que isso beira a crendice. Acredito que o propósito é questão de vontade e que a função depende das responsabilidades que buscamos ter ou o que a vida nos proporciona. E isso engloba variáveis que nem mesmo todas as equações perfeitamente equilibradas pelo Arquiteto poderia prever e fazer a matemática necessária para calcular as possibilidades desse ou daquele evento fortuito ocorrer.

As duas coisas que mais me incomodam em Matrix do ponto de vista de análise da sociedade e das ponderações filosóficas, são a insistência no mito da pureza das crianças, que pode até ser considerada uma questão de cunho de proteção à infância, personificada em Sati.

E, principalmente, o desfecho Bíblia high-tech escolhido pelos realizadores do filme no final de Neo, que conectado (crucificado?) morre pela humanidade e por seus irmãos. Enfim, me lembrou muito outra história?

Aquele céu Romero Brito também dói nos olhos, e os estereótipos de uma velha negra ser a sábia Oráculo e o sisudo idoso branco de barba ser o racional Arquiteto parecem pouco. Muito pouco, para quem quis misturar as estéticas de Blade Runner e Mad Max em um só filme e, ainda por cima, deixar algo supostamente intrigante para os fãs. Simplesmente não me convencem.


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