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A Vida Invisível | Crítica

A Vida Invisível | Crítica

A Vida Invisível

Ano: 2019

Direção: Karim Aïnouz

Roteiro: Murilo Hauser, Inés Bortagaray, Karim Aïnouz

Elenco: Carol Duarte, Julia Stockler, Gregório Duvivier, Fernanda Montenegro, António Fonseca, Marcio Vito, Nikolas Antunes, Maria Manoella, Bárbara Santos

Baseado no livro A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha, e ambientando durante toda a década de 1950, a produção debutou em Cannes vencendo o prêmio Um Certo Olhar. A aclamação internacional e os temas universais que a adaptação aborda a tornaram uma escolha segura para representar o país no Oscar de Melhor Filme Internacional (a categoria mudou de nome recentemente) de 2020.

O filme começa com a amizade das irmãs Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler) Gusmão, duas filhas de um casal português que moram no Rio de Janeiro. Eurídice deseja se tornar uma renomada pianista enquanto a impulsiva Guida sonha em ser livre do controle do conservador pai, Manuel (António Fonseca), e viver a vida do jeito que bem entender. As duas moram em uma casa isolada e, por conta disso, são muito próximas. E esse intenso amor fraternal é colocado à prova quando um evento as distancia.

A separação das protagonistas logo no primeiro ato e os dois núcleos diferentes em que se encontram ilustram perfeitamente as dificuldades da vida das mulheres em uma sociedade extremamente patriarcal e machista na metade do século XX em duas classes diferentes, uma privilegiada e outra menos favorecida. Existem brilhantes paralelos com as irmãs passando pela mesma coisa, ao mesmo tempo, mas com consequências dissonantes de acordo com o ambiente em que cada uma está inserida.

A princípio, Eurídice e Guida têm pouca agência sobre suas próprias vidas, que são totalmente forjadas pelas figuras masculinas a quem são obrigadas a obedecer. Seja o pai, o marido de Eurídice (vivido por Gregório Duvivier) ou qualquer autoridade, como um médico, um segurança de balada ou um oficial de aeroporto, todos representam um agente limitador que impede as mulheres do filme de atingir os seus objetivos. No entanto, é interessante notar que existe menos limitações na vida de Guida, uma vez que esta está fora de uma estrutura familiar tradicional, sem pai ou marido.

Mesmo passando o filme inteiro separadas e com poucas cenas juntas, Carol Duarte e Julia Stockler são capazes de criar um laço muito forte de irmandade quando contracenam e nunca deixam de ser convincentes no intenso desejo das irmãs de se reencontrarem, que não diminui com o passar dos anos e das décadas. O roteiro exige muito das atrizes e ambas entregam atuações competentes. Enquanto Guida é composta com mais força, resistência e um senso maior de sobrevivência por ser obrigada a se virar sozinha, ela é muito bem contraposta pela irmã, que não consegue sair da autoridade dos homens de sua vida, mas cuja passividade nunca anula a sua determinação ou a impede de explodir quando necessário. Fernanda Montenegro, presente apenas na última seção do longa, prova duas coisas: que não é preciso muito tempo de tela para roubar o filme para si e que, sem dúvidas, ela é um tesouro do audiovisual brasileiro.

A Vida Invisível não ameniza os seus momentos mais impactantes. As cenas intensas do filme causam desconforto e inquietação, convidando o espectador a sentir a dor das protagonistas. Mesmo que os trágicos acontecimentos digam mais respeito a década de 1950 do que a atualidade, o longa traz uma necessária reflexão de quantas mulheres passaram pelos mesmos eventos do que Eurídice, Guida, Ana (Flávia Gusmão), mãe das irmãs, e Filomena (Bárbara Santos) – todas vivem ou à sombra dos homens de sua vida ou à margem da sociedade, cada uma experimentando a sua própria invisibilidade.

E mesmo em suas partes de maior horror, o filme surpreende por sua beleza. O design de produção e o figurino de A Vida Invisível são magníficos e repletos de cores vibrantes que são ainda mais destacadas pela belíssima fotografia comandada por Hélène Louvart, de Feliz Como Lázaro e Pina, que aposta na saturação e em cores vibrantes na sua identidade visual. A direção de Karïm Ainouz é extremamente sensível, permitindo afeto nos momentos mais leves e um pulso firme nas cenas de maior tensão e poder dramático. Ainouz se prova habilidoso comandando os atores e ao criar cenas inesquecíveis, tanto pela beleza quanto pela dor presentes em tela.

Com a distribuição internacional apadrinhada pela Amazon, que promete uma campanha forte para conquistar uma indicação ao Oscar, A Vida Invisível é uma produção nacional relevante capaz de dialogar com qualquer país. Não é difícil relacionar a luta das personagens do filme com as dificuldades que as mulheres ainda enfrentam mesmo depois de 60 anos da invisibilidade de Eurídice e Guida.

Nota do crítico:


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Estudante de jornalismo, tem 20 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli e de musicais, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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