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Fratura | Crítica

Fratura | Crítica

Fratura (Fractured)

Ano: 2019

Direção: Brad Anderson

Roteiro: Alan B. McElroy

Elenco: Sam Worthington, Lily Rabe, Stephen Tobolowsky, Adjoa Andoh, Lucy Capri

Poucas coisas são tão decepcionantes quanto prever onde um filme quer chegar. Especialmente quando você percebe que tudo que acontece em tela serve única e exclusivamente para chegar ao final, como se os envolvidos com a produção tivessem certeza de que o desfecho que projetaram era incrível — o que está longe de acontecer em Fratura, nova produção da Netflix dirigida por Brad Anderson e protagonizada por Sam Worthington.

Essa crítica poderia até ser considerada rude, pois se trata da experiência pessoal e subjetiva do crítico para com a obra — nem todos vão adivinhar o final, claro. Mas não dá para simplesmente ignorar o fato que o mesmíssimo diretor fez um filme praticamente idêntico em tema, narrativa e estrutura 15 anos atrás — e não se trata de uma produção desconhecida, que poucos assistiram e, sim, de O Operário (2004), a obra mais famosa da carreira de Anderson e um dos mais celebrados da carreira de Christian Bale. Aí, uma experiência que poderia ser considerada apenas desagradável, torna-se irritante.

O filme começa quando Ray (Worthington) e Joanne (Rabe) discutem seu casamento no carro, enquanto voltam da comemoração de Dia de Ação de Graças na casa da mãe dela. Quando a filha do casal, Peri (Capri), sofre um acidente, o casal se vê obrigado a pagar atendimento em um hospital próximo. Mas quando sua esposa e filha somem após fazer um exame, Ray entra numa espiral de loucura do qual não sabe se conseguirá sair.

O filme depende demais da atuação do astro de Avatar (2010), o que por si só já é um erro. Worthington está, como sempre, péssimo. Sua canastrice crônica não ajuda com a criação de empatia para com o sujeito que deveria ser a alma do filme. O que era para ser a jornada de um homem desesperado em busca de sua família se torna a enfadonha experiência de aturar um ator ruim atirando caras e bocas para todos os cantos, sem qualquer capacidade de demonstrar sentimentos genuínos. Nem todos são Christian Bale, afinal…

O roteiro de Alan B. McElroy padece da mesma falta de sutileza. Tudo bem que a graça de assistir a um filme com plot twist é revê-lo para perceber que os sinais estavam ali desde o começo, e você não percebeu. Mas o problema é que McElroy entrega esses sinais com fogos de artifício e auto-falantes. Quando Ray acorda com um esparadrapo na cabeça, quando seu boletim é encontrado no lixo, quando sabemos de seu problema com alcoolismo desde literalmente a primeira cena e lembramos que ele bebeu momentos atrás… Não dá pra ignorar que o filme grita, desde o começo, o que está acontecendo. Acompanhar a história se torna meramente um exercício de adivinhar QUANDO que o ‘segredo’ será revelado, já que a produção não nos dá qualquer outro motivo para se interessar por ela.

A direção de Anderson é apenas esquemática. As cores frias deixam o filme azulado e sem graça, o que é proposital, pois refletem a tristeza interior do traumatizado protagonista; mas a justificativa não se mostra suficiente para explicar sua composição desinteressante. Não há, durante os 100 minutos de projeção, qualquer plano ou composição que demonstrem alguma criatividade ou que causem encanto, e o mesmo pode ser dito da trilha sonora — um piano opressivo e irritante que condiciona o sentimento do espectador sempre que aparece. O filme, além de enfadonho, é feio, o que é imperdoável.

Fratura é muito, mas muito parecido com O Operário: um homem tem uma experiência traumática que nebula sua mente, e (AVISO DE SPOILER) cria uma realidade mais palatável para suportar o peso da própria existência (FIM DO SPOILER). Mesmo que fosse um bom filme, o que não é, Brad Anderson mereceria ouvir a crítica de que está, lamentavelmente, imitando a si mesmo. E copiando muito mal, por sinal.

Nota:


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Jornalista em formação, ex-membro do finado e saudoso Terra Zero e leitor de histórias em quadrinhos. Fã de ficção científica e terror, divide seu tempo livre entre o cuidado com suas dezenas de gatos e a paixão pela cultura pop. Sonha com o dia em que perceberão que arte é sim, uma forma de discutir política.

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