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Zumbilândia: Atire Duas Vezes | Crítica

Zumbilândia: Atire Duas Vezes | Crítica

Zumbilândia: Atire Duas Vezes (Zombieland: Double Tap)

Ano: 2019

Direção: Ruben Fleischer

Roteiro: Rhett Reese, Paul Wernick, Dave Callaham

Elenco: Woody Harrelson, Jesse Eisenberg, Abigail Breslin, Emma Stone, Rosario Dawson, Zoey Deutch, Luke Wilson

Em Zumbilândia: Atire Duas Vezes, podemos observar um fenômeno cada vez mais raro na Hollywood contemporânea: uma continuação que chega 10 anos depois de seu antecessor. Ruben Fleischer, diretor de ambos os projetos, corria um sério risco aqui: parecer datado. Afinal, o primeiro Zumbilândia veio antes de The Walking Dead e de toda uma nova safra de produções de zumbi, e até da fama de Jesse Eisenberg e Emma Stone (na época, ilustres desconhecidos, hoje, super astros que colecionam indicações ao Oscar e referências em Brooklyn 99). Felizmente, Fleischer se aproveitou do carisma de seu elenco e do orçamento ligeiramente maior para entregar não apenas uma mera versão turbinada do primeiro filme, mas, sim, uma sequência justa, honesta e tão divertida quanto.

Na trama, nosso quarteto original finalmente entra na Casa Branca, conquistando uma paz e uma segurança que há muito não vivia desde que os zumbis transformaram os Estados Unidos na Zumbilândia do título. Porém, uma atitude inesperada de Columbus (Eisenberg) faz com que Wichita (Stone) se assuste, fugindo com sua irmã Little Rock (Breslin) — que por sua vez, se sente sufocada pela presença cada vez mais opressiva de Tallahassee (Harrelson). Quando algo dá errado e Wichita tem que retornar à Casa Branca, uma longa jornada pelo país começa, fazendo com que a disfuncional família fortaleça ainda mais os seus laços de afeto.

O filme acerta já em seu começo, quando não ignora o longo tempo passado desde seu antecessor. O universo de Zumbilândia evoluiu. Os zumbis agora podem ser catalogados em diferentes tipos, o que faz com que não os tratemos como uma mera horda de comedores de cérebros estúpidos — podemos identificá-los, e sentir mais ou menos medo a partir disso, o que deixa o espectador atento e em certa medida até desafiado. Toda a ação conjunta da equipe se baseia nessas informações, o que faz muito bem para as sequências de ação — que aliás, estão bem mais desenvolvidas e criativas. A câmera lenta ao som de Master of Puppets na cena de abertura, o travelling arrojado na cena de Graceland, o exagero da sequência final na Babilônia. Todas as cenas são muito bem planejadas, coreografadas e executadas, o que não deixa de ser surpreendente em uma produção majoritariamente de humor.

Este, por sinal, está impagável. O texto é ótimo, mas talvez não seria nada se não fosse o perfeito timing do elenco. A maneira como suas personalidades contrastam e criam rusgas dá espaço para que troquem comentários ácidos e até maldosos entre si, o que diverte por si só, mas também serve para que a trama se movimente. Tudo é muito orgânico e funcional. O ritmo que Fleischer emprega faz com que a peteca não caia nunca, dosando as piadas, a ação e o drama de forma com que os 93 minutos de projeção soem agradáveis e suficientes, sem cansar o espectador em nenhum momento.

Os novos personagens representam estereótipos tão absurdos que confesso não ter compreendido o objetivo de Fleischer, não podendo reforçá-los ou criticá-los. O fato é que a burrice da loira Madison (Deutch) é engraçadíssima, fazendo com que o espectador se irrite e se encante por ela na mesma medida — e não deixa de ser divertido tentar compreender como aquela figura conseguiu sobreviver por tanto tempo em um “acrópole” zumbi. Albuquerque (Luke Wilson) e Flagstaff (Thomas Middletich) roubam a cena no exato instante em que aparecem, e suas participações são tão intensas que nem parecem ter durado tão pouco. A mesma sorte não teve Reno (Rosario Dawson), que padeceu de um melhor desenvolvimento — talvez sua personalidade pragmática e sisuda não tenha colaborado para que se destacasse em um elenco tão afeito às tiradas; mas o fato é que a personagem empalidece diante do que está ao seu redor, apesar do já comprovado talento da atriz.

Zumbilândia: Atire Duas Vezes é uma comédia dinâmica, esperta e muito bem executada. Com uma montagem ágil e uma edição competente (e em alguns momentos até sofisticada), Fleischer trabalha bem a mina de ouro que tem e mãos e faz bom proveito do talentoso elenco e do conceito estabelecido lá em 2009. Em uma era de produções que surgem em ritmo fordiano, este filme mostra o valor de dar um tempo para que o público sinta efetiva vontade de voltar a um universo. A saudade faz bem às vezes.

Nota:


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Jornalista em formação, ex-membro do finado e saudoso Terra Zero e leitor de histórias em quadrinhos. Fã de ficção científica e terror, divide seu tempo livre entre o cuidado com suas dezenas de gatos e a paixão pela cultura pop. Sonha com o dia em que perceberão que arte é sim, uma forma de discutir política.

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