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A Luz no Fim do Mundo | Crítica

A Luz no Fim do Mundo | Crítica

A Luz no Fim do Mundo (Light of my Life)

Ano: 2019

Direção: Casey Affleck

Roteiro: Casey Affleck

Elenco: Casey Affleck, Anna Pniowsky, Elisabeth Moss, Tom Bower, Hrothgar Mathews, Timothy Webber, Thelonius Serrell-Freed, Patrick Keating, Lloyd Cunningham, Kory Grim, Jesse James Pierce

Em um mundo em que um vírus mortal reagente apenas às mulheres faz com que o sexo feminino seja inteiramente dizimado, um pai luta para esconder a filha da sociedade e mantê-la em segurança. Com essa premissa, conhecemos os personagens do pai não-nomeado (Casey Affleck) e da pequena Rag (Anna Pniowsky) em A Luz no Fim do Mundo. O longa-metragem, que traz Affleck também como diretor e roteirista, ainda conta com Elisabeth Moss no papel da mãe da garota.

Apesar da motivação para o cenário pós-apocalíptico ser novo (o que é diferente de ser inovador), quando se trata de histórias desse gênero, as fórmulas tendem a se repetir até o desgaste. Filhos da Esperança (2006) já trazia um motivo semelhante e uma pessoa que precisava ser protegida por causa dele: no caso, a infertilidade e um bebê, respectivamente. Sem se prender no que acabou com o mundo, A Estrada (2009) trabalhou a relação entre pai e filho em uma época em que isso ainda não era um clichê pós-apocalíptico consagrado pelo game The Last of Us (2013).

O que ambos os filmes citados têm em comum é a maestria como foram realizados, cada qual oferecendo algo de novo para um estilo cinematográfico com ideias limitadas. O mesmo não pode ser dito de A Luz no Fim do Mundo. O longa é um compilado de ideias velhas com os floreios de uma direção que não se apressa e uma pegada mais artística. O estilo de direção adotado por Affleck aposta em câmeras estáveis e em close, com o exemplo mais lógico na cena de abertura do filme, em que um diálogo entre os personagens é filmado inteiramente em uma câmera fixa em ângulo reto.

A trilha sonora do filme é tão sutil que é possível se esquecer da presença dela e, ao mesmo tempo, marcante o suficiente para ser lembrada depois do término da sessão. Com uso de instrumentos clássicos como o violoncelo, ela é usada comedidamente em momentos que antecedem a tensão, sendo substituída em seguida por intervalos de silêncio que ajudam a evidenciá-la. Assinada por Daniel Hart, mais conhecido por seus trabalhos em A Ghost Story (2017) e em The Old Man & The Gun (2018), as músicas no filme fazem uso do minimalismo para compor os ruídos daquela humanidade quieta e lúgubre que caminha para sua própria extinção.

Outro destaque na obra são as atuações dos dois protagonistas. Casey Affleck, mesmo com seu conhecido problema de dicção (que ele opta, mais por necessidade do que por escolha artística, tornar parte da construção de todos os seus personagens), decidiu criar longos monólogos para o pai, a fim de mostrar o esforço e a insegurança que ele sente em relação a sua capacidade de compreender e proteger a sua filha. Ainda que esses momentos no filme aprofundem a relação dos dois, é em situações silenciosas que o motivo pela sua estatueta do Oscar se evidencia, em que vemos ao mesmo tempo um sobrevivente visceral e um homem quebrado pela solidão e pelo peso da própria responsabilidade.

Anna Pniowsky, cuja carreira iniciou em 2018 com o terror He’s Out There, mostrou sua própria versatilidade profissional. Com apenas 13 anos, a atriz consegue expressar sentimentos que não são conhecidos por nenhuma outra menina no planeta, através de camadas de rancor, esperança e responsabilidade. A personagem Rag foi criada desde a mais tenra idade para sobreviver à vida difícil e clandestina que teria no futuro, e sabe de cor todas as normas de segurança impostas pelo pai, mas ela deseja mais do que isso. O que torna memorável a atuação de Pniowsky é a visível vontade de Rag em ser criança, em se expressar como uma menina dos livros que lê. O amor que ela sente pelo pai é tão palpável quanto a culpa que ela coloca sobre os ombros dele, como se o julgasse responsável por ela não poder ter tido uma infância normal.

A Luz no Fim do Mundo é um filme de estrada cozinhado em banho-maria, em que os acontecimentos que fazem a história seguir em frente importam menos do que o relacionamento entre os personagens. Sua intensidade pode ser sentida e requer um público paciente para sua apreciação. Casey Affleck pode ter se revelado um diretor talentoso, mas seu estilo lento foi comprometido por um roteiro raso que não auxilia na profundidade proposta por ele próprio.

Nota:


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Jornalista que migrou para a veterinária, mas sem deixar para trás as jornalices. Vive e respira horror, seja em quadrinhos, filmes, séries ou livros. Último posto de defesa da DC Comics em relação à Marvel, embora tenha que fazer vista grossa quando o papo é cinema. Fã de Heavy Metal, games single player e cospobre de carteirinha quando sobra dinheiro no final do mês.

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