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Campo do Medo | Crítica

Campo do Medo | Crítica

Campo do Medo (In the Tall Grass)

Ano: 2019

Direção: Vincenzo Natali

Roteiro: Vincenzo Natali

Elenco: Patrick Wilson, Harrison Gilbertson, Laysla De Oliveira, Avery Whitted, Will Buie Jr., Rachel Wilson

Campo do Medo, a adaptação de Stephen King da semana, tenta funcionar em dois níveis. Num primeiro, procura criar terror e suspense a partir de sua premissa, instigante e promissora. No segundo, nos fazer ter interesse genuíno pelos personagens que são expostos ao terror que o ‘Matagal’ é capaz de causar, numa subtrama de redenção e de união em torno de um núcleo familiar disfuncional. Ainda que essa primeira camada funcione razoavelmente bem, a falta de carisma dos personagens faz o filme praticamente naufragar. Por mais interessante e assustadora que a ameaça seja, de nada ela vale se não nos importarmos com quem é afetado por ela.

Vincenzo Natali, o diretor por trás do horror cult O Cubo (1997), assume as rédeas da adaptação deste conto de King, escrito em 2012 em parceria com seu filho Joe Hill. Na trama, os irmãos Becky (Oliveira) e Cal (Whitted) se vêem obrigados a interromper uma viagem para atender a um pedido de socorro, vindo de um estranho matagal. Quando percebem que esse caminho talvez não tenha volta, o medo toma conta da dupla — o que é agravado pela gravidez em estágio avançado de Becky.

É inegável que o filme cresce a medida em que os conceitos metafísicos inerentes ao Matagal ficam mais claros. Quando as particularidades de espaço e tempo daquele local começam a ficar mais evidentes, o interesse pela trama se retoma. O que antes parecia ser apenas um labirinto de mato e barro, desinteressante visual e narrativamente (o que deixa a primeira meia hora do filme repetitiva e enfadonha), acaba se revelando algo maior,  com uma ideia que se não pode ser chamada de complexa, no mínimo deve ser considerada elegante. A grama alta e as trilhas que não levam a lugar algum são apenas o começo. Ao entrar no Matagal, você entra num buraco do qual nem o tempo é capaz de tirá-lo.

Infelizmente, o Matagal acaba sendo o melhor personagem da trama — e pode ter certeza que isso se trata de uma crítica. O jovem elenco não consegue trazer interesse humano pela trama de Campo do Medo. Patrick Wilson, sempre ótimo, se utiliza de seus já conhecidos excessos para, desesperadamente, trazer alguma vida à tela. Ele grita, gesticula, age operisticamente; mas a verdade é que seu material não ajuda: os personagens possuem nada além do que funções práticas a cumprir para que a trama ande, isentos de qualquer tridimensionalidade ou complexidade. Becky é a mulher grávida que se move pelo instinto e pelo senso fraterno, Cal é irmão ciumento e ultra protetor, Travis (Gilbertson) é o homem falho que busca corrigir seus erros. E em nenhum momento o filme nos traz qualquer informação que contradiga esses estereótipos tolos.

Tobin, o personagem do jovem Will Buie Jr., é o melhor exemplo disso tudo. Na primeira vez em que aparece no filme, sua expressão assustadoramente tranquila e o aparente conhecimento de tudo o que cerca o Matagal causam espanto e medo em Travis, e consequentemente no espectador. Mas quando conhecemos seu passado e os percebemos como um humano, se perde o interesse por ele. Enquanto Tobin é um mero objeto do horror, ele funciona, mas quando precisa ir além disso, para que se crie empatia pelo humano, tudo vai por água abaixo. Só o terror parece interessar Natali.

Competente em sua construção gradativa de tensão e na exploração de uma premissa interessante, Campo do Medo sem dúvida entretém os fãs do gênero terror (grupo no qual me incluo). Mas a sensação de que aqueles personagens são apenas peças de um tabuleiro, funcionando como ferramentas maniqueístas para meramente entendermos a dinâmica do Matagal, deixa um gosto agridoce. Quando o filme tenta, artificialmente, fazer com que nos importemos com o destino daqueles indivíduos, é justamente quando percebemos onde ele falhou tão terrivelmente.

Nota:


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Jornalista em formação, ex-membro do finado e saudoso Terra Zero e leitor de histórias em quadrinhos. Fã de ficção científica e terror, divide seu tempo livre entre o cuidado com suas dezenas de gatos e a paixão pela cultura pop. Sonha com o dia em que perceberão que arte é sim, uma forma de discutir política.

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