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Projeto Gemini | Crítica

Projeto Gemini | Crítica

Projeto Gemini (Gemini Man)

Ano: 2019

Direção: Ang Lee

Roteiro: David Benioff, Billy Ray, Darren Lemke

Elenco: Will Smith, Mary Elizabeth Winstead, Clive Owen, Benedict Wong

Não existe nada de particularmente novo na premissa de Projeto Gemini, que apresenta a trama de um assassino que tem que enfrentar outra versão de si mesmo — neste caso, mais nova — já foi realizada outras vezes. O próprio filme em si já é vem de uma ideia datada: o roteiro foi desenvolvido no início dos anos 2000 e nomes como Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger, Harrison Ford, Brad Pitt, Tom Cruise e Nicolas Cage foram cotados para viver o protagonista em duas idades diferentes. Mas, claro, a tecnologia na época não permitia que o projeto saísse do papel. Agora, que rejuvenescer atores e criar avatar totalmente digitais são tarefas quase que rotineiras na indústria cinematográfica, o filme finalmente pôde ver a luz do dia.

Henry Brogan (Will Smith) é o melhor e mais talentoso assassino do seu ramo. Ou, pelo menos, era. Aos 51 anos, as habilidades de Henry já não são mais tão precisas quanto antes e ele começa a considerar a aposentadoria. Quando começa a desenrolar uma conspiração por trás de seu último assassinato, Brogan se vê caçado por Júnior (Will Smith), um clone seu 25 anos mais novo. Junto da agente Danny Zakarweski (Mary Elizabeth Winstead) e do piloto Baron (Benedict Wong), o protagonista deve derrotar o seu maior rival até aqui e acabar com os planos da cruel agência Gemini, que está conduzindo testes com clones.

Apesar de genérico e com poucas surpresas, Projeto Gemini consegue entreter na maior parte do tempo. Will Smith, que sempre é críticado por interpretar o mesmo personagem e depender apenas do carisma nos seus papéis, tem a oportunidade de dar vida a alguém mais complexo — não a um só, na verdade, mas dois personagens. As duas versões de Henry Brogan são bem desenvolvidas e é interessante notar como ambos têm os mesmos medos e inseguranças, mas manifestadas de formas diferentes por causa dos 25 anos de experiência que os separam. Smith não se apoia tanto no próprio carisma e é ótimo ver o ator ser mais desafiado depois de tanto tempo ao mostrar um lado mais sentimental, com dois protagonistas mais emocionalmente vulneráveis.

O resto do elenco não tem tanto destaque, com a exceção de Clive Owen como o vilão Clay Verris. O chefe da Gemini é cruel e impiedoso, mas, ao mesmo tempo, tem um laço paternal com Júnior, que rende momentos bem interessantes, mas ainda é pouco comparado ao que o subestimado Owen consegue fazer. E vale ressaltar que Danny não é resumida apenas à donzela em perigo ou interesse amoroso (ou os dois), algo comum em filmes do gênero, com Mary Elizabeth Winstead podendo se juntar à ação uma vez que sua personagem tem histórico militar.

E quanto à ação do filme, bem, ela deixa um pouco a desejar. Existem momentos muito eficientes, como a perseguição nos telhados e a subsequente perseguição de moto em Cartagena (mesmo que esta termine ridícula com uma surra de moto), mas, no geral, as cenas de tiroteio e combate corpo a corpo são pouco inspiradas e falta a maestria intensa vista este ano em John Wick 3: Parabellum ou a execução deliberadamente absurda e divertida vista em Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw. Pouco deste quesito se destaca aqui.

Ang Lee não é um cineasta ordinário. O chinês toma longo intervalos entre seus filmes e quase sempre retorna à direção com um longa aclamadíssimo como O Tigre e o Dragão, O Segredo de Brokeback Mountain e As Aventuras de Pi, este último cheio de avanços digitais com ambientes e animais totalmente criados por computação gráfica. Em Projeto Gemini, ele tenta elevar a sua nova fixação: a taxa alta de frames. Este filme foi gravado a irreais 120 frames por segundo e é exibido em 60 frames por segundo no formato 3D+ nos cinemas (as exibições em 2D estão nos convencionais 24fps). E, como foi melhor desenvolvido aqui, é rápido se adaptar à nova tecnologia e à elevada taxa de frames permite uma nitidez e qualidade de detalhes absurda. Você nunca viu tantos poros no rosto do Will Smith como verá neste filme.

Mas, assim como foi em O Hobbit, o primeiro percursor desta tecnologia na tela grande, nem tudo roda tão perfeitamente assim. Sempre que um objeto ou personagem se locomove rápido demais, existe certa estranheza ao que se vê em tela, como se fosse irreal. E a exibição em 3D pouco ajuda, o que é de se estranhar uma vez em que As Aventuras de Pi foi aclamado como um dos filmes que melhor utilizava o formato. Quando ao CGI, não é possível notá-lo na maior parte do tempo. Mesmo que efeitos de rejuvenescimento sejam comuns agora (em grande parte, graças aos filmes da Marvel), o que é empregado em Projeto Gemini é diferente, mas nada não usual. Will Smith não está sendo rejuvenescido digitalmente, mas sim interpretando um avatar totalmente digital por captura de movimento de uma versão dele 25 anos mais nova. A computação gráfica impressiona, mesmo que fique bem evidente em determinados momentos em que Júnior é só um boneco criado em computador. Mas a estranheza reside mesmo na perseguição à moto e em um combate corpo a corpo entre os dois Henry Brogan, porque não apenas o clone mais jovem, mas também o velho Will Smith parece uma criação digital. Ainda não me é certo se isso é culpa dos 60fps ou se realmente era CGI nos dois.

Por fim, o maior problema de Projeto Gemini está no roteiro. O ritmo dos acontecimentos deixa a desejar e não para por aí. O script é escrito a seis mãos e o nome mais infame entre os três roteiristas é de David Benioff, um dos responsáveis pela catástrofe do final de Game of Thrones e por X-Men Origens: Wolverine. Enquanto não exista nada tão revoltante quanto o visto nos últimos episódios da série da HBO  (afinal, quem tem uma história melhor do que Bran, o Quebrado?), o roteiro é derivativo, pouco empolgante, resulta num clímax pouco inspirado e tem uma conclusão totalmente piegas e não satisfatória. Projeto Gemini tinha tudo para ser um excelente filme de ação, uma vez que diretor, protagonista e efeitos visuais estavam agindo para que tudo desse certo, mas não existe talento neste mundo que consiga vencer um texto decepcionante.

Nota do crítico:


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Estudante de jornalismo, tem 20 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli e de musicais, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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