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Midsommar: O Mal Não Espera a Noite | Crítica

Midsommar: O Mal Não Espera a Noite | Crítica

Midsommar: O Mal não Espera a Noite (Midsommar)

Ano: 2019

Roteiro: Ari Aster

Direção: Ari Aster

Elenco: Florence Pugh, Jack Reynor, Vilhelm Blomgren, William Jackson Harper, Will Poulter, Ellora Torchia, Archie Madekwe, Henrik Norlén, Gunnel Fred, Isabelle Grill, Julia Ragnarsson, Hampus Hallberg, Liv Mjönes  

Fui para a cabine de imprensa de Midsommar: O Mal Não Espera a Noite preparado psicologicamente para sentir medo. Isso porque, como já manifestei algumas vezes, sentir medo não é algo que me agrade muito. Concordo que este meu receio pode ser considerado um problema, visto que gosto muito do gênero terror. Para mim, um bom filme de terror é aquele que me faz sentir que valeu a pena todo o sofrimento vivido durante sua projeção. Felizmente, ainda em meio ao segundo ato, pude constatar que não haveria tanto sofrimento, mesmo que a história trouxesse elementos assustadores, em um roteiro cheio de tensão muito bem construída. Foi uma experiência muito diferente do que estamos acostumados em um filme de terror. Algo que batizei posteriormente, por falta de um termo melhor, como um “terror do bem”.

No entanto, essa não é a impressão inicial. O primeiro ato nos apresenta a protagonista Dani (Florence Pugh) passando por um evento muito traumático, ao mesmo tempo em que percebemos a falta de apoio e empatia de seu namorado Christian (Jack Reynor) em relação a ela. Enquanto a garota passava por um dos momentos mais difíceis de sua vida, Christian e seus amigos planejavam uma viagem para a Suécia, para participar de uma festividade pelo solstício de Verão em uma pequena comunidade rural. Enfim, Christian acaba convidando Dani para ir junto com eles e, para insatisfação geral do grupo, ela aceita. Lá chegando, tudo parece ser lindo e encantado, mas não demora para que o grupo perceba que aquela comunidade era muito diferente do que eles imaginaram.

Escrito e dirigido por Ari Aster, Midsommar traz alguns elementos que remetem ao seu trabalho anterior, o fantástico e assustador Hereditário. No entanto, se naquela ocasião, o filme tinha uma atmosfera densa, de escuridão, e até claustrofóbica durante quase todo o tempo, dessa vez vemos exatamente o contrário. O Verão naquele povoado sueco vive o fenômeno do Sol da Meia-Noite, no qual o Sol fica visível durante as 24 horas por vários dias seguidos. Sendo assim, é curioso que praticamente apenas no primeiro ato tenhamos cenas escuras e frias, muito adequadas à situação vivida pela protagonista. A partir do segundo, quase tudo o que ocorre, por mais terrível que seja, fica maquiado pelo calor e pela luminosidade, além dos sorrisos constantes no rosto dos amáveis habitantes de Hårga. Esse clima receptivo em um local que sabemos que se tornará hostil já foi visto outras vezes, como em O Homem de Palha e, mais recentemente, em Corra!. Mesmo assim, Hårga parece ainda mais acolhedora, com suas belas cores e trajes típicos, e uma comunidade que parece uma grande família.

Assim, chegamos ao ponto que torna Midsommar tão perturbador: por mais grotescos que sejam os atos promovidos por aquela espécie de seita, eles são realizados de maneira tão natural e simbólica que não parecem possuir maldade. Assim, também não chegam a provocar medo. É mais uma espécie de desconforto por estarmos presenciando algo que não compreendemos, inclusive com cenas visualmente impactantes. Dessa maneira, percebemos que o mundo “normal” que conhecemos, apresentado no primeiro ato, é tão ou mais trágico e violento do que o local onde, teoricamente, o terror aconteceria. Mesmo assim, enxergamos estas tragédias com muito mais naturalidade. Em Hårga, existe uma espécie de empatia extrema, de forma que as pessoas ao redor realmente compartilham os sentimentos de quem os está passando de verdade, sejam estes sentimentos bons ou ruins, dor ou prazer, tristeza ou alegria. Algo totalmente oposto ao que a protagonista viveu até ali. Inclusive em suas alucinações, após utilizar alguns psicotrópicos com seus amigos, Dani enxerga sempre a vegetação surgindo de seu corpo, como se ela fizesse parte daquela terra.

Aster, além de criar uma história cheia de camadas para interpretação, principalmente nos aspectos comportamentais do casal principal, reafirma a sua qualidade como diretor. A apresentação dos personagens, muito além do que era mostrado através dos diálogos, podia ser visto nos planos e enquadramentos utilizados. Na cena inicial na qual Dani e Christian conversam ao telefone, vemos apenas a garota, em um longo plano sem cortes, mostrando o distanciamento que existia entre ela e o namorado. Pouco depois, essa ideia se reforça quando, em uma discussão na qual os dois estavam muito próximos, enxergávamos Christian apenas em um pequeno reflexo no espelho. Este enquadramento se repete posteriormente entre Christian e seus colegas de faculdade, quando ele conta que convidou Dani para a viagem sem consultar nenhum deles. Neste momento, Christian aparece apenas refletido em uma TV enquanto enxergamos os outros jovens que o observam e escutam incrédulos. Assim, o diretor deixa muito claro o egoísmo e individualismo de Christian, que será uma constante na trama. Outro belo momento, apesar de simples, é o plano da chegada dos jovens em Hårga. Acompanhamos o carro pela estrada e, ao cruzarem os limites da cidade, a câmera vai virando até ficar de cabeça para baixo, dando uma ideia de que eles entraram em uma outra dimensão ou algo assim.

Outro aspecto que merece ser ressaltado é a direção de arte, que conseguiu fazer de Hårga um lugar real. É impossível não imaginar que aquela cidade e aquelas pessoas realmente existem, e que aquelas pinturas e trajes são realmente tradições que vêm de séculos atrás. Cenários, figurinos e maquiagem impecáveis, trazendo um realismo assustador em alguns momentos. A montagem é ágil, a ponto de fazer com que os mais de 140 minutos de filme não sejam sentidos. Diversas elipses simples e funcionais ligam as sequências, mantendo um ritmo fluido e contínuo até o final.

Por fim, Midsommar se mostra muito mais próximo do tipo de terror de A Bruxa do que Hereditário, por exemplo. É uma espécie de drama psicológico, com toques de gore e suspense. Uma história fantástica e perturbadora, que provoca mais medo quando pensamos sobre ela do que no exato momento em que assistimos. Como é bom sair de uma sessão de cinema com o filme ainda mexendo com nossos sentimentos, não perdendo sua relevância enquanto ainda sobem os créditos finais. É um filme que podemos revisitar mentalmente por dias e até semanas, e certamente surgirão novas interpretações ou sensações sobre aquilo que assistimos.

Nota: 


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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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