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O Espião | Crítica

O Espião | Crítica
O Espião (The Spy)
 
Ano: 2019
 
Criador: Gideon Raff
 
Elenco: Sacha Baron Cohen, Hadar Ratzon-Rotem, Yael Eitan, Noah Emmerich

Impossível falar de O Espião sem colocar os holofotes sobre Sacha Baron Cohen. O britânico, que ficou famoso com o humor ácido de suas personas exageradas e irônicas, nunca conseguiu emplacar um grande papel em produções de drama. Bom, pode-se dizer que essa ‘fama’ foi pulverizada nessa minissérie, que, apesar de várias irregularidades, entrega um belo documento de sua época — com uma grande atuação de Cohen, que conduz a produção com carisma inabalável.

A trama acompanha a espetacular (e real) jornada de Eli Cohen, espião israelense que não apenas se infiltrou na Síria, grande inimiga do Estado Judeu, como se tornou uma figura influente no governo e candidato a ministro nacional. Cohen é um pacato contador que vive uma vida mundana ao lado da esposa Nadia (Hadar Ratzon-Rotem), até ser recrutado pelo governo israelense através do agente Dan Peleg (Noah Emmerich). A partir daí, a série acompanha linearmente sua trajetória, desde um começo tímido na Argentina até  a bonança de sua estadia em Damasco, terminando com sua derrocada após ser descoberto (não se preocupe, isso não pode ser considerado spoiler, já que está nos primeiros minutos da série).

Gideon Raff, principal roteirista e diretor da série, conduz habilmente a narrativa. Confiando na grandiosidade da história original, espetacular por si só, Raff  imprime um ritmo bem acelerado à produção, que não deixa a peteca cair em nenhum momento — os seis episódios correm com grande fluidez, sem cansar o espectador com prolongamentos desnecessários. A forma como informações que estão em bilhetes e documentos surgem em destaque no cenário emprega energia à narrativa, que mesmo em momentos mais intimistas e expositivos, consegue trazer vida para a tela.

Além disso, os recursos técnicos são muito bem empregados em favor do trama. A fotografia, belíssima, transita bem entre a paleta de cores ‘chapadas’ e sem vida que dominam o núcleo de Tel Aviv, demonstrando seu caráter corriqueiro e pragmático, e a vibrante que toma conta da extravagante vida de Cohen na Síria. Há uma grande diferença entre Eli Cohen, o pacato contador israelense, e Kamel Amin Thaabet, o excêntrico empresário sírio (personagem usado por Cohen para se infiltrar na Síria), e a série consegue pontuar com boa clareza essa distinção.

Porém, não deixa de ser irônico que o roteiro de Raff, que é tão competente na direção, traz as maiores sabotagens para a execução de O Espião. Primeiramente, há uma série de coincidências que beneficiam os acontecimentos da trama de maneira descarada, especialmente no primeiro ato, quando ocorre o treinamento de Cohen (justamente a parte da série que toma mais liberdades em relação aos fatos reais). Um ‘ensaio’ de triângulo amoroso acaba não passando disso, um ensaio, já que é apresentado e esquecido muito rapidamente. Há também a sugestão de homossexualidade de um personagem que tem fim em si só, não sendo recuperada em nenhum outro momento e não tendo nenhuma influência na resolução da trama. Uma pena, já que a subtrama tinha inegável potencial.

Uma tentativa de deixar um gancho para uma possível segunda temporada é, sem dúvida, o trecho mais frustrante de toda a série. Além de ser fraco e esquemática por si só, a cena ainda soa como uma grande traição ao espectador, que, logo após passar seis episódios torcendo por Cohen e, no final, se compadecendo de seu destino, é obrigado a ver o protagonista ser tão facilmente substituído.

Mas essa frustração talvez demonstre aquilo que é a maior virtude de O Espião: a empatia com o protagonista interpretado por Sacha Baron Cohen. Criando um personagem complexo, que transita entre a singeleza do homem comum apaixonado por sua esposa e a grandiloquência do empresário poderoso que frequenta a alta sociedade de um país, Cohen atinge o que talvez seja o seu ápice enquanto ator. E é impossível não admirá-lo quando, ao ter a chance de escolher entre uma persona ou outra, acabe escolhendo a primeira delas.

Nota:


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Jornalista em formação, ex-membro do finado e saudoso Terra Zero e leitor de histórias em quadrinhos. Fã de ficção científica e terror, divide seu tempo livre entre o cuidado com suas dezenas de gatos e a paixão pela cultura pop. Sonha com o dia em que perceberão que arte é sim, uma forma de discutir política.

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