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Projeto Gemini | Primeiras Impressões

Projeto Gemini | Primeiras Impressões

A princípio, não parece haver nada de diferente em Projeto Gemini. A premissa de um protagonista ter que enfrentar sua versão mais nova (ou mais velha, dependendo do caso) não é novidade no cinema. Nesta década, ela esteve presente em filmes como Logan, O Exterminador do Futuro: Gênesis e, mais predominantemente, em Looper: Assassinos do Futuro. Então, ao ler que Will Smith interpreta Henry Brogan, um talentoso — mas velho — assassino que precisa enfrentar Júnior, sua versão de 23 anos criada em laboratório a partir de seu DNA, não há nada de inovador no enredo. A inovação, no entanto, está na tecnologia empregada.

Sim, também não há nada de surpreendente em usar computação gráfica para rejuvenescer atores. Desde que a tecnologia foi aperfeiçoada em Tron: O Legado, que contava com um Jeff Bridges de 60 anos interpretando a sua versão 28 anos mais jovem, da mesma idade em que o ator interpretou o protagonista Kevin Flynn no original Tron: Uma Odisseia Eletrônica em 1982, vimos muito disso. A Marvel é a maior responsável, com seu universo expandido ao longo de várias décadas, vimos versões rejuvenescidas digitalmente de grandes nomes como Michael Douglas, Hayley Atwell, Robert Downey Jr., Kurt Russell e Samuel L. Jackson — este último praticamente coprotagonizou Capitã Marvel neste ano interpretando a si mesmo 20 anos mais jovem. Mas Projeto Gemini não usa esta tecnologia do jeito qual estamos acostumados.

Em um evento organizado pela Paramount Pictures, distribuidora do longa, em São Paulo, foi possível não apenas assistir a mais de 20 minutos de cenas exclusivas do filme, bem como uma longa entrevista com o protagonista do filme, Will Smith, o diretor Ang Lee e o produtor Jerry Bruckheimer. Nisso, foi possível ver a forma inovadora com a qual eles utilizaram tecnologias já existentes para contar esta história.

  • Uma tecnologia inesperada

Projeto Gemini não é uma história particularmente nova, o roteiro do filme existe há quase duas décadas, mas permaneceu não produzido para esperar que a tecnologia estivesse desenvolvida o suficiente para que o longa fosse produzido do jeito correto. No começo da década, Peter Jackson tentou repetir o feito revolucionário da trilogia O Senhor dos Anéis ao comandar a trilogia O Hobbit, desta vez aumentando a taxa de frames. Um filme normal é gravado e exibido a 24 frames por segundo, todos estamos acostumados com essa taxa de frames porque é o padrão. O High Frame Rate (taxa alta de frames, em tradução livre), também não é invenção do Peter Jackson, já que a prática é utilizada em certas produções televisivas, geralmente documentários e transmissões esportivas, para aumentar o realismo da exibição. Um exemplo das melhorias que a prática pode trazer é não ter borrões de movimento quando algum personagem ou objeto se desloca muito rápido, podendo ver mais claramente cada segundo de cada ação realizada.

O primeiro filme da trilogia, O Hobbit: Uma Viagem Inesperada, foi aos cinemas em dezembro de 2012 com cópias 2D convencionais e 3D com 48 frames por segundo, o dobro do normal. Mas a reação não foi tão positiva quanto o esperado. O público reclamou do excesso de clareza e a estranheza do movimento dos personagens, o que distraía bastante da experiência de assistir ao filme na tela grande e fez com que o HFR não fosse para frente. Até agora.

Ang Lee é um diretor experiente. O taiwanês já levou para casa o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, por O Tigre e o Dragão, e duas estatuetas de Melhor Diretor, uma por O Segredo de Brokeback Mountain e outra por As Aventuras de Pi. Este último conta com efeitos impressionantes, que recriaram perfeitamente os mais diversos animais sem nenhum estar presente nos sets e ambientes, totalmente criados digitalmente — tudo renderizado com computação gráfica da sempre excelente WETA, companhia de efeitos especiais responsável pelas trilogias Planeta dos Macacos e O Senhor dos Anéis. Lee não apenas resolveu ressuscitar o aparentemente falecido HFR como também o elevou à segunda potência: Projeto Gemini foi filmado com CENTO E VINTE FRAMES POR SEGUNDO e será exibido nos cinemas com 60 frames.

E isso não é motivo de preocupação. Nos 20 minutos de cenas inéditas do filme exibidos para a imprensa, a taxa elevada de frames causava certa estranheza inicial, mas depois de poucos minutos foi possível sentar e aproveitar a experiência. Com os 60 frames por segundo, os movimentos se tornavam mais fluídos e mais singulares ao mesmo, a clareza das cenas de ação as tornavam mais realistas e quase únicas. E o diretor, que não comandava um filme de ação desde Hulk, em 2003, mostra que tem total controle sobre o que acontece em tela. A ação é rápida, focada, bem executada e, o mais importante, inegavelmente tensa. O primeiro embate entre o protagonista e o clone genético dele na belíssima locação de Cartagena é de tirar o fôlego. O que nos leva ao próximo ponto do filme: o Will Smith de 23 anos.

  • Recriando o astro

Como dito anteriormente, ver versões digitalmente rejuvenescidas em tela não é novidade alguma, mas o modo em que Projeto Gemini emprega o recurso é totalmente novo. Sob a asa da WETA, que popularizou a captura de movimentos com personagens totalmente digitais como Smeagol, Caesar e todos os personagens de As Aventuras de Tintim: O Segredo de Licorne. O resumo da ópera: Will Smith não é rejuvenescido com computação gráfica, ele interpreta um avatar 100% digital dele mesmo com 23 anos. Em preparação para o papel de Júnior, o ator teve que assistir filmes e séries dos anos 1990 para realizar como deve agir e movimentar. O mesmo se aplica ao stand-in dele, que contracena com o ator quando Henry e Júnior estão na mesma cena, afinal, Smith só pode interpretar um de cada vez.

Os efeitos não decepcionam e é fácil esquecer que Júnior é uma criação totalmente digital, mesmo nos momentos em que é mais perceptível o uso do CGI, as emoções que o personagem demonstra (raiva, hesitação, tristeza, confusão) são todas convincentes. Will Smith, que é bastante criticado por interpretar a si mesmo nos seus papéis mais populares, aqui afasta qualquer crítica interpretando duas pessoas que são tão diferentes, mas, no fundo, são a mesma. O uncanny valley, teoria que diz que a tecnologia nunca poderá reproduzir perfeitamente a complexidade das expressões faciais do rosto humano, está mais perto de ser refutado — mas ainda não é o caso. Quando o protagonista do filme entra em uma luta física com a sua versão jovem adulta, os efeitos visuais caem consideravelmente e o confronto parece dois personagens de um game de PS4 saindo no soco. Mas de resto, é um trabalho impressionante.

Projeto Gemini ainda conta com um excelente elenco de apoio com Mary Elizabeth Winstead, Benedict Wong e Clive Owen — este último interpretando o cientista responsável pelo projeto titular e uma espécie de figura paterna distorcida de Júnior, que promete uma dinâmica muito interessante com os dois protagonistas. O filme estreia nos cinemas nacionais em 10 de outubro. As cópias 2D serão exibidas convencionalmente em 24fps e as cópias 3D estão disponíveis em 60fps.


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Estudante de jornalismo, tem 20 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli e de musicais, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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