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It: Capítulo Dois | Crítica

It: Capítulo Dois | Crítica

It: Capítulo Dois (It Chapter Two)

Ano: 2019

Direção: Andy Muschietti

Roteiro: Gary Dauberman

Elenco: Bill Skarsgård, James McAvoy, Jaeden Lieberher, Jessica Chastain, Sophia Lillis, Jay Ryan, Jeremy Ray Taylor, Bill Hader, Finn Wolfhard, Isaiah Mustafa, Chosen Jacobs, James Ransone, Jack Dylan Grazer, Andy Bean, Wyatt Oleff, Teach Grant, Jess Weixler, Xavier Dolan, Will Beinbrink, Jake Weary, Ari Cohen, Javier Botet, Owen Teague

[ATENÇÃO! Essa crítica possui leves spoilers]

Em Game of Thrones, dizia-se que quando nascia um Targaryen, os deuses jogavam uma moeda para ver se ele seria bom ou ruim. A mesma lógica pode ser aplicada às adaptações cinematográficas dos livros de Stephen King. Ao longo das décadas, tivemos o privilégio ver nas telas filmes como O Iluminado (1980), Louca Obsessão (1990) e Carrie, a Estranha(1976) e a inconveniência de assistir Langoliers (1995) e A Criatura do Cemitério (1990). A carreira literária do Rei do Terror sempre se manteve em alta pelos seus constantes lançamentos, tal qual uma cadeia de produção fordista, e pela excelência de sua escrita, enquanto seus filmes e séries sempre oscilavam sem um padrão de qualidade.

Mais recentemente, o mundo foi tomado por uma forte nova onda de adaptações de King, e as moedas seguiam com suas probabilidades aleatórias. Em 2017, ao mesmo tempo em que a Netflix produziu os excelentes Jogo Perigoso e 1922, os cinemas viam o parto difícil de A Torre Negra e a bastante inconsistente série de O Nevoeiro. No entanto, a chegada do remake do primeiro capítulo de It: A Coisa ofuscou todos os erros e acertos daquele ano. Embora de qualidade duvidosa, a antiga série-que-virou-filme do palhaço Pennywise possui uma quantidade considerável de fãs por se tratar de um dos maiores (literal e figurativamente) livros de Stephen King.

Sem desmerecer o extraordinário primeiro capítulo desse remake — com sua direção, elenco, edição e roteiro impecáveis — é possível que parte da grande expectativa e contentamento do público se deva ao fato de que a nostalgia se transformou em um produto valioso em Hollywood. Colocar crianças sobre bicicletas resolvendo mistérios nos anos 1980 se tornou um atrativo instantâneo para os fãs de cultura pop, e o primeiro filme se aproveitou dessa fonte com abundância. Assim, o Clube dos Otários de Derry alcançou seu efeito blockbuster e sua continuação recebeu os devidos benefícios: orçamento nas alturas e confiança do estúdio (lembrando que a Warner não mede esforços para podar filmes e diretores que não sejam de seu agrado).

O elenco adulto foi escolhido meticulosamente para se adequar aos personagens em suas versões mais jovens. Nomes grandes ocuparam os papéis principais — James McAvoy interpretou o líder Bill e Jessica Chastain a única garota do clube, Beverly — e os demais atores se assemelharam tanto aos personagens 27 anos mais novos que é possível se esquecer durante as cenas que são pessoas diferentes. Nesse sentido, os dois grandes destaques do elenco adulto foram Bill Hader como o irônico o Richie, e James Ransone, o hipocondríaco Eddie, interpretados no primeiro capítulo por Finn Wolfhand (o Mike de Stranger Things) e Jack Dylan Grazer, respectivamente. No caso de Ben, o garoto acima do peso que cresceu para se tornar o galã do Clube dos Otários (interpretado primeiramente por Jeremy Ray Taylor), Jay Ryan superou a diferença física significativa ao transcrever perfeitamente os trejeitos e expressões de sua contraparte adolescente.

Assim como na adaptação de 1990, o capítulo dos adultos sofre com a dificuldade clássica do horror de transformar a experiência literária em cinematográfica, uma vez que aquilo que não é visto sempre aterroriza mais do que o que é visto. As personificações monstruosas que a Coisa utiliza para alimentar o medo nos personagens beiram à comicidade, e os efeitos especiais de qualidade duvidosa — de longe, o pior aspecto do filme — são capazes de dissolver o medo do mais assustado dos telespectadores.  Por outro lado, o diretor Andy Muschietti percebeu de antemão esse problema na narrativa e resolveu no melhor jeitinho Sam Raimi: dosou as cenas de tensão com uma boa amostra de comédia e nojeira. Qualquer um que tenha assistido Arraste-Me para o Inferno (2009) vai notar certa semelhança em uma cena em que Eddie enfrenta seus medos.

As referências mudaram um pouco do primeiro capítulo para esse. Embora ainda vejamos alguns pôsteres de filmes clássicos como Os Garotos Perdidos (1987), outro bando de pré-adolescentes enfrentando monstros sobrenaturais, agora as alusões oitentistas perdem seu espaço no mundo contemporâneo dos adultos, e são substituídas por referências ao universo de histórias de Stephen King. 

Em uma cena já revelada no trailer, era possível ver uma reconstrução da cena clássica de sangue inundando os corredores do Hotel Overlook de O Iluminado (1980), em que a água submerge os esgotos de Derry em câmera lenta, filmado frontalmente para dar profundidade ao cenário, ao estilo Stanley Kubrick. Há também outro momento em que o próprio personagem Jack Torrance (interpretado por Jack Nicholson) faz uma aparição um pouco mais evidenciada que, embora aparentemente tenha sido elaborada como apenas cômica, pode fazer um paralelo entre os pais abusivos de Beverly e do garoto d’O Iluminado, Danny Torrance (Danny Lloyd).

Na própria cena de confronto de Beverly com Pennywise, ao ser banhada em sangue pela segunda vez em dois filmes, vem à memória Carrie White (Sissy Spacek), do filme Carrie, a Estranha (1976), outra personagem de King que também sofreu bullying em um banheiro da escola em uma cena sangrenta. Ao comparar as duas personagens, é interessante ver semelhanças entre as situações em que vivem a garota com poderes telecinéticos e a Otária de Derry. Ambas sofrem com pais abusivos que, ao mesmo tempo em que temem o crescimento de suas filhas (a mãe de Carrie a castiga por menstruar e o pai de Bev não quer que a filha pertença a nenhum outro homem senão ele mesmo), anseiam por ele para poder fazer com que se sintam culpadas pela sua própria puberdade, destruindo qualquer segurança futura em suas feminilidades.

E como não há nada mais Stephen King do que livros fenomenais com finais… questionáveis, essa piada é reiterada o filme inteiro. Bill cresceu para se tornar um escritor de sucesso, porém, é lembrado exaustivamente que os finais que escreve sempre deixam a desejar. Em dado momento, King em pessoa faz uma participação especial contracenando com James McAvoy, em que nega um autógrafo do personagem por dizer que não gostou do fim de seu livro. It está entre os finais polêmicos de seus livros por conta da explicação do surgimento do palhaço (com direito a uma arqui-inimiga tartaruga espacial lovecraftiana), que foi limitada a algumas cenas flashback sem grandes explicações para não gerar estranhamento nos telespectadores sem conhecimento da história do livro.

Ao contrário do primeiro filme, It: Capítulo Dois não é sobre Pennywise e o controle que ele tem sobre a cidade de Derry. Quando crianças, os membros do Clube dos Otários não eram felizes, mas tinham esperança de o ser quando crescessem e estivessem livres das amarras dos pais e da cidade natal. No entanto, não foi felicidade o que encontraram na vida adulta, mas uma repetição de erros passados. A obra de Muschietti é intimista ao mostrar para quem assiste e para os próprios personagens que abandonar o passado não nos faz pessoas diferentes e que nossos medos fazem parte de quem somos. O fim da saga dos Otários não é um filme sobre superar seus medos, mas sobre aceitar a realidade sem negar seu lado ruim, pois ele continuará presente. E se isso for esquecido, todo o resto também pode ser.

Nota:


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Jornalista que migrou para a veterinária, mas sem deixar para trás as jornalices. Vive e respira horror, seja em quadrinhos, filmes, séries ou livros. Último posto de defesa da DC Comics em relação à Marvel, embora tenha que fazer vista grossa quando o papo é cinema. Fã de Heavy Metal, games single player e cospobre de carteirinha quando sobra dinheiro no final do mês.

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