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Yesterday | Crítica

Yesterday | Crítica

Yesterday

Ano: 2019

Direção: Danny Boyle

Roteiro: Richard Curtis

Elenco: Himesh Patel, Lily James, Kate McKinnon, Sophia Di Martino, Ellise Chappell, Ed Sheeran

A década de 1960 foi marcada musicalmente pelo surgimento, ascensão e separação daquela que é considerada a maior banda de rock de todos os tempos: Os Beatles. Os quatro rapazes de Liverpool não revolucionaram apenas o cenário musical, mas também acabaram influenciando o comportamento e cenários culturais da juventude em escala mundial. O que aconteceria se, de uma hora para outra, todos os registros e memórias sobre a banda simplesmente desaparecessem da face da Terra? E mais, se apenas uma pessoa lembrasse que eles existiram? Essa é a premissa de Yesterday.

Escrito por Richard Curtis e dirigido por Danny Boyle, o filme nos apresenta Jack Malik (Himesh Patel), um funcionário de estoque em um supermercado, que está tentando engrenar sua carreira de cantor. Após inúmeras tentativas fracassadas e de ser praticamente ignorado em todos os locais que se apresentava, fosse na rua, bares ou festivais, Jack finalmente desiste, apesar dos esforços de sua fiel amiga-agente-empresária Ellie (Lily James) em convencê-lo a prosseguir. E quando tudo parecia perdido, ocorre um grande apagão em escala global. Durante esses segundos de total escuridão, Jack, que voltava para casa de bicicleta, é atropelado por um ônibus. Após o acidente, pouco a pouco, ele vai percebendo que ninguém se lembra das músicas dos Beatles. E logo descobre que, de alguma forma, o grupo simplesmente foi apagados da existência e, aparentemente, apenas ele se recorda da banda e suas composições. Ao incorporar estas músicas ao seu repertório, Jack finalmente alcança o reconhecimento e sucesso que sempre sonhou, mas acaba conhecendo também o outro lado da fama, e enfrentando o tempo inteiro a culpa por receber, sem merecimento, os créditos por algumas das maiores canções já feitas.

No entanto, toda essa história fantástica e inexplicável do apagão e a súbita inexistência dos Beatles, acaba se transformando apenas no pano de fundo para as desventuras de um romance que jamais se concretizou entre Jack e Ellie que, se por um lado enfraquece um pouco o filme, por outro lado torna-se o ponto que justifica as maiores crises de consciência do protagonista. Isso porque as exigências da vida de super estrela do mundo pop, ali se mostram totalmente incompatíveis com a construção de uma relação a dois, apesar disso se mostrar um pouco exagerado por parte dos personagens. Dessa maneira, o roteiro parece se apoiar em premissas não exatamente corretas para que a história siga adiante. Além disso, os arcos criados entre Jack e alguns personagens ficam em aberto, sem resolução alguma, e algumas situações que recebem um grande destaque inicial são simplesmente esquecidas logo em seguida, sem influência nenhuma na trama.

Entretanto, estes equívocos e incoerências parecem se diluir na leveza e boas vibrações do filme. A fantasia do roteiro de Curtis, que possui em seu currículo outros filmes com essa mesma pegada, como o excelente Simplesmente Amor, encaixou muito bem com a direção de Boyle, que já havia demonstrado trabalhar bem essa leveza com pitadas de surrealismo no ótimo e pouco comentado Caiu do Céu. Até os momentos com potencial de gerar mais tensão acabam, rapidamente, tornando-se situações divertidas ou de reflexão. E as pequenas piadas que surgem em diversos momentos, quando Jack vai descobrindo outras coisas das quais ninguém mais lembra, funcionam bem o tempo todo. Desde produtos e marcas até referências cômicas a outras bandas.

Os números musicais, obviamente, são todos ótimos. Difícil seria que dessem errado, considerando que seria possível escolher dezenas de set lists diferentes para o filme e todos seriam compostos apenas de canções fantásticas. O esforço de Jack para se recordar das letras de músicas que só ele sabe que existem se mostra por vezes cômico, e outras vezes nos lembram como as canções são importantes para marcar momentos de nossas vidas, e como elas trazem significado para algumas situações que estamos vivendo.

A trama acaba também levando a uma reflexão acerca da indústria musical. Quando vemos que uma verdadeira obra de arte como ‘Hey Jude’ recebe sugestões para ser alterada para agradar o público, e o título ‘White Album’ pode ser considerado de teor racista, percebemos que o conteúdo está cada vez mais perdendo espaço para a imagem. O ser é menos importante do que o parecer. Não à toa, na mesa de reuniões que decidirá as estratégias de lançamento do álbum de um músico que, teoricamente, compôs todas suas canções sozinho, há cerca de 30 publicitários para decidirem como ele será apresentado. E, por mais talento que ele demonstrasse ter, o fato de não se encaixar no padrão estético esperado pela indústria torna-se um incômodo só tolerado pela gananciosa empresária Debra (Kate McKinnon) por saber que ele a tornaria ainda mais rica com suas composições.

Debra, diga-se de passagem, é apresentada como o estereótipo completo de empresária de grandes estrelas da música. Não esconde em momento algum que só vê em Jack uma fonte de bilhões de dólares, que irão, na maior parte, para ela. É, assim, uma das personagens menos interessantes do filme. Himesh Patel, pelo contrário, conquista o público como Jack Malik — um cara correto e dedicado, mas também extremamente azarado. Até quando ele ‘rouba’ as músicas dos Beatles, ele deixa bem claro que não é por querer. Mas como explicar para o mundo que só ele conhece uma banda com algumas da maiores canções de todos os tempos? Só é meio decepcionante que uma das principais reflexões sobre o acontecido não parta dele, e sim de dois personagens que surgem já em meio ao segundo ato. A química do protagonista com Lilly James também funciona muito bem, fazendo com que torçamos pelo casal, mesmo com as mancadas que o roteiro dá no relacionamento entre os dois, com conflitos não são tão graves como eles tentam nos convencer.

Yesterday é um filme que nos conquista no início, mas passa todo o tempo sem conseguir criar aquele momento marcante que o faria se tornar memorável. Ele atinge seu ponto mais alto nos primeiros minutos e se mantém pouco oscilante até o final. Mesmo assim, além de ser um filme muito gostoso de se assistir, traz uma forte e linda mensagem de que não é preciso ter fama e dinheiro para inspirar e levar alegria às pessoas. Tudo que você precisa é amor.

Nota:


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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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