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Mindhunter – 2ª temporada | Crítica

Mindhunter – 2ª temporada | Crítica

Mindhunter  – 2ª temporada

Ano: 2019

Criador: Joe Penhall

Elenco: Jonathan GroffHolt McCallanyAnna TorvHannah Gross Stacey Roca, Michael Cerveris, Joe Tuttle, Lauren Glazier, Albert Jones, Sierra McClain, June Carryl

Depois de cinco anos sem um novo filme de David Fincher, é uma benção que o cultuado diretor esteja ao menos trabalhando nesta série. A primeira temporada de Mindhunter foi desconcertante, sublime e de altíssimo nível producional, se destacando por poder perturbar o espectador sem violência alguma, apenas com a descrição de notórios assassinatos. Dois anos depois e a segunda temporada não mantém o nível de sua antecessora, ela o supera.

Com o sucesso das entrevistas a serial killers, os agentes especiais Holden Ford (Jonathan Groff), Bill Tench (Holt McCallany) e a Dr. Wendy Carr (Anna Torv) sofrem mais pressão do que nunca, pois estão sob os cuidados do novo supervisor do FBI, Ted Gunn (Michael Cerveris), que apesar de aprovar o trabalho do departamento de Ciência Comportamental, cobra demais resultados para beneficiar os próprios interesses. Após um episódio traumatizante com Ed Kemper (Cameron Britton), Holden percebe que não pode mais se aproximar tanto dos psicopatas com os quais trabalha e não se deixa mais envolver tanto, mas segue extremamente focado no trabalho, seguindo quase que cegamente as suas intuições. Wendy tem mais espaço nessa temporada, não apenas sendo mais desenvolvida conforme a série explora a orientação sexual dela e um relacionamento passado são mais explorados, mas também ao deixar ela participar mais ativamente dos casos.

Mas da mesma forma que Holden era o foco da temporada anterior, Bill se torna o centro das atenções. Mesmo que tente manter o trabalho fora da vida pessoal, todo mundo que o agente do FBI conhece se mostra interessado (e levemente horrorizado) ao saber com o que ele trabalha e passa a interroga-lo da mesma forma que ele faz com os assassinos. Com o caso do Assassino de Crianças de Atlanta exigindo tempo integral no emprego, ele enfrenta com problemas familiares seríssimos envolvendo a esposa (Stacey Roca) e o filho (Zachary Scott Ross), quando um caso de assassinato que aconteceu perto de sua casa se mostra mais pessoal do que inicialmente aparenta. Tench fica completamente esgotado durante todos os episódios e Holt McCallany atua muito bem como um homem tentando manter as aparências enquanto tudo a sua volta se dissolve.

As entrevistas com os serial killers permanecem tão instigantes e brilhantemente executadas como sempre. Cada assassino é único e interessante da própria maneira, com os agentes especiais tendo de tentar diferentes abordagens para fazer com que eles colaborem. As dinâmicas entre os próprios agentes mudam com a adição de Jim Barnes (Albert Jones) ao time e com Wendy e Gregg (Joe Tuttle) conduzindo suas próprias entrevistas. O destaque dentro dessas cenas, como não poderia deixar de ser, é o infame Charles Manson. Damon Herriman dá um show de atuação em sua única cena na série, incorporando todos os maneirismos e tiques do líder do culto, provando ter sido desperdiçado em sua participação nada expressiva em Era Uma Vez em… Hollywood, onde também interpretou Manson neste ano.

Os diálogos de Mindhunter continuam sendo o ponto alto — e isso não se resume apenas as entrevistas. Toda conversa da série é mais do que um mero diálogo, mas sim uma disputa de poder entre duas ou mais pessoas, cada uma tentando sair por cima da interação. Na cena em que alguém bate na residência dos Tench à noite, por exemplo, Bill atende a porta desconfiado e hostil, o estranho está nervoso e revela ser um policial e diz querer falar com Nancy Tench; Bill passa para defensiva e conta ser do FBI, de nervoso o policial passa para mais aliviado e quando ele diz o que aconteceu, Bill passa de defensivo para cooperativo. Quase todo diálogo é rico desta forma e é um prazer enorme assistir.

As qualidades técnicas da série melhoraram muito em relação à temporada anterior. Os três primeiros episódios, dirigidos por Fincher, são facilmente os melhores. Mesmo que Andrew Dominik e Carl Franklin não desapontem, Fincher está em outro nível. O diretor tem um controle tão preciso de tensão e desconforto que apenas ele neste ponto da carreira consegue desenvolver. A cena em que um sobrevivente do serial killer BTK conta como a sua irmã foi assassinada é ao mesmo tempo tensa, perturbadora e de partir o coração. A trilha sonora, composta por Jason Hill, é inquietante e deixa as cenas mais desconcertantes da série ainda mais difíceis de assistir.

O enredo da caçada ao Assassino de Crianças de Atlanta deixa a temporada mais centrada e conforme o número de jovens mortos aumenta, mais estressante fica o caso. Holden e Bill tentam lidar com as limitações de atuação do FBI e com o descaso das autoridades locais que, ao mesmo tempo em que não estão dando bola pros assassinatos, não acreditam nos métodos dos agentes. Apesar de todas as melhorias, o poder narrativo da série perde parte da força na segunda metade da temporada, mas nada muito sério. Mindhunter é facilmente uma das melhores atrações da Netflix atualmente (e a mais sofisticada, sem competição) e merece a sua atenção.

Nota do crítico:


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Estudante de jornalismo, tem 20 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli e de musicais, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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