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Brinquedo Assassino | Crítica

Brinquedo Assassino | Crítica

Brinquedo Assassino (Child’s Play)

Ano: 2019

Diretor: Lars Klevberg

Roteiro: Tyler Burton Smith

Elenco: Mark Hamill, Gabriel Bateman, Aubrey Plaza, Brian Tyree Henry, Tim Matheson, Beatrice Kitsos, Ty Consiglio, David Lewis, Marlon Kazadi, Trent Redekop, Carlease Burke, Nicole Anthony

Uma empresa de alta tecnologia comandada por um bilionário marqueteiro começa a tomar monopólio do mundo ao lançar produtos e serviços com inteligência artificial. Através de robótica avançada e de um software de interação entre eletrônicos de qualquer natureza, é impossível olhar para qualquer lugar sem ver um produto com seu logotipo estampado. No entanto, uma inteligência artificial pode aprender novas informações e tirar suas próprias conclusões através dos estímulos externos, de modo que não seria surpreendente vê-la se tornar maligna e perceber os humanos ao seu redor como ameaças.

Pode parecer que estamos falando da Skynet, mas na verdade é sobre o novo filme da franquia Brinquedo Assassino. Com ousadia para se reinventar completamente, o reboot deixa para trás o sobrenatural, sem mais rituais macabros e possessão de bonecos. Nem mesmo o serial killer Charles Lee Ray ou sua icônica noiva Tiffany tiveram espaço na releitura de Lars Klevberg. O novo Buddi (Good Guys, nos filmes anteriores), um boneco dotado de inteligência artificial capaz de se conectar e interagir com qualquer produto da megacorporação Kaslan, é projetado para ser o melhor amigo de uma criança e também controlar e organizar a casa e a rotina de toda a família.

O que torna Chucky diferente dos outros Buddi é o fato de que ele foi modificado por um funcionário explorado e demitido por seu chefe abusivo em uma fábrica da Kaslan no Vietnã, antes de cometer suicídio. É interessante notar o contraponto da propaganda da empresa — um executivo de terno em um fundo branco e um discurso cativante à lá Steve Jobs — com sua fábrica, quente e claustrofóbica, cheia de empregados infelizes em um regime semelhante à escravidão.

O tom de crítica ao modo como as pessoas se tornaram dependentes das tecnologias e preferem o isolamento de um smartphone ao contato social se mantém ao longo da trama. Andy, um pré-adolescente introvertido e inseguro que acabou de se mudar para uma nova cidade, prefere a companhia de seu Buddi recém adquirido a dos outros garotos do condomínio, e é apenas através dele que consegue estabelecer amizades, quando eles passam a notar que seu boneco é diferente dos demais.

Chucky não é naturalmente mal, apesar das modificações que foram feitas quando ele estava sendo construído. Ao longo do filme, ele vai definindo seu alinhamento moral ao observar Andy e seus amigos, por exemplo, rirem ao assistir um filme de horror. No entanto, o longa não investe com consistência nesse tom “isso-é-muito-Black-Mirror”, e se mantém na superfície de seu próprio questionamento, com medo de afundar em mares mais sérios do que a franquia se propõe.

Com a história toda modificada, a obra de 2019 teve que buscar outros recursos para trazer nostalgia aos fãs dos filmes anteriores. Desde o humor mordaz e sarcástico de Charles Lee Ray até as infames chutadas de balde (como as cenas de sexo entre Chucky e sua noiva), os filmes podem não estar no nível “Uma Noite Alucinante” de comédia-horror escrachada, mas definitivamente não são slashers que pretendem ser levados a sério. A comédia tem papel importante no filme, em situações bem colocadas e com tiradas criativas. Mesmo durante as cenas de matança ela se faz presente, substituindo a tensão por irreverência.

Outro recurso de nostalgia utilizado foi a boa construção dos adolescentes e da amizade que cultivaram ao longo da trama, bebendo da fonte de It: A Coisa e Stranger Things, a fim de simular aquela tradicional amizade juvenil de obras oitentistas como Conta Comigo. Mais uma vez, o filme parece ter medo de se aprofundar em sua própria ideia, e o que poderia ser mais uma turma memorável para os fãs de cultura pop se deliciarem em aventuras futuras se torna um acúmulo de personagens, sim, bem carismáticos, mas sem serem marcantes o suficiente para serem lembrados depois de um tempo.

As cenas mais sangrentas utilizam um pouco do velho e desgastado subterfúgio do jump scare, porém limitado a uma porção mínima, de modo que não se torna repetitivo, previsível ou irritante. As cenas de assassinato são criativas o suficiente para provocar riso no público e combinam com as piadas das outras porções do filme, criando um estilo coeso desde a apresentação dos personagens até o subir de créditos.

Brinquedo Assassino é um filme que ao mesmo tempo que não teve medo de se reestruturar, mas o fez de maneira apressada e rasa. Ao mesmo tempo em que manteve o humor despojado pelo qual a franquia é conhecida, quis investir em um caráter mais reflexivo, transformando a história de um dos vilões mais conhecidos dos slashers em uma fábula com lição de moral.

Nota:


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Jornalista que migrou para a veterinária, mas sem deixar para trás as jornalices. Vive e respira horror, seja em quadrinhos, filmes, séries ou livros. Último posto de defesa da DC Comics em relação à Marvel, embora tenha que fazer vista grossa quando o papo é cinema. Fã de Heavy Metal, games single player e cospobre de carteirinha quando sobra dinheiro no final do mês.

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