Bode na Sala
Críticas Destaque Filmes

Bacurau | Crítica

Bacurau | Crítica

Bacurau

Ano: 2019

Direção: Kléber Mendonça FilhoJuliano Dornelles

Roteiro: Kléber Mendonça FilhoJuliano Dornelles

Elenco: Barbara Colen, Thomas Aquino, Sônia Braga, Silvero Pereira, Wilson Rabelo, Udo Kier, Karine Teles, Alli Willow, Antonio Saboia, Julia Marie Peterson, Brian Townes, Lia de Itamaracá

Eu ia começar este texto falando sobre como o cinema costuma ser um retrato de sua época, e divagar um pouco sobre alguns exemplos até chegar a Bacurau, mas mudei de ideia. O filme escrito e dirigido por Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles é claro, direto, e é dessa forma que acredito que devemos tratar esta que se mostra como uma das obras mais importantes do cinema brasileiro nos últimos anos.

A trama nos apresenta o pequeno vilarejo de Bacurau, no interior de Pernambuco e seus peculiares habitantes. Devido às vias de asfalto esburacado somadas a quilômetros de estradas de chão batido, a cidade se mantém quase isolada do mundo. A chegada de alimentos, remédios, e até mesmo água, são motivos de comemoração para a população local. A aparição de pessoas estranhas, ao mesmo tempo em que misteriosas mortes acontecem em um curto espaço de tempo, acendem um sinal de alerta no município, e o povo precisará unir todas suas forças para enfrentar esta misteriosa e violenta ameaça.

O primeiro destaque que Bacurau merece diz respeito à organização de sua narrativa. A apresentação de seus personagens remete a um jogo de tabuleiro do qual nada sabemos. Cada peça que surge possui uma função e importância para a trama, e apenas quando todas elas estão distribuídas é que conseguimos compreender as regras e os objetivos deste jogo. E então, percebemos que o filme não possui um simples protagonista. O protagonismo pertence ao coletivo daquela cidade, à interação entre seus habitantes e à força da história daquele povo. Bacurau parece um organismo vivo e consciente, que une e dá força às pessoas que lá habitam.

A direção de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles tem o tom exato para que o suspense se mantenha intenso o tempo inteiro. Há sempre uma atmosfera de perigo no ar, e sentimos que a qualquer momento algo muito ruim pode acontecer. Dessa maneira, até o final do segundo ato seguimos em um constante estado de alerta, que se reforça cada vez que surge uma das tantas cenas de violência extrema. Em determinado momento há um longo e expositivo diálogo que nos traz mais informações sobre a natureza da ameaça a Bacurau, que poderia quebrar o ritmo do filme. No entanto, mesmo ali a tensão se mantém alta, devido à inclusão de novos elementos de conflito entre os personagens envolvidos.

Mesmo trazendo fortes referências de filmes de faroeste, a utilização do folclore nordestino e da história do cangaço cria uma forte identificação nacional para Bacurau. Além disso, a crítica política está escancarada. O prefeito corrupto e demagogo, cujo número é 150 (que lembra um dos maiores partidos políticos do país) e usa as cores azul e amarelo (como outros partidos que conhecemos bem), a citação discreta de nomes como Marisa Letícia e Marielle em uma homenagem, e até uma possível mas improvável coincidência de destaque para o número 17 em uma placa, são apenas alguns exemplos que ficam subentendidos. Mais claro que isso, a forma como o vilarejo de Bacurau é apresentada pode ser associada tanto aos povos indígenas do Brasil quanto às favelas das grandes cidades. São locais onde as pessoas podem ser mortas ou simplesmente a localidade toda literalmente sumir do mapa sem que ninguém perceba ou sequer se importe.

Na verdade, praticamente tudo que ocorre no filme possui algum paralelo com o que vemos diariamente nos noticiários, ou ficamos sabendo através de mídias alternativas, justamente por serem omitidos nas grandes redes de telecomunicação. O entreguismo do governo, a subserviência aos Estados Unidos, a tentativa de se sentir um deles quando, na verdade, são vistos pelos estadunidenses como seres inferiores. Dessa maneira, colaboram com o genocídio do nosso próprio povo. E ainda as desculpas para se matar um inocente, quando qualquer objeto, seja um guarda-chuva, um livro ou uma lanterna, na mão de um pobre, pode ser confundido com uma arma, e isso é tudo que precisam para justificar um assassinato a sangue-frio. É sintomático que nenhum dos forasteiros entre no museu de Bacurau. Eles não viram a história daquele povo. Não sabiam com quem estavam lidando.

E mesmo que o protagonismo seja dividido entre os habitantes do povoado, visto que o coletivo é que move a história, é fundamental destacar a qualidade inquestionável do elenco e os personagens maravilhosos que formam este todo. A começar por Teresa (Barbara Colen), a primeira peça do jogo que vemos surgir na tela. Sempre transparecendo calma e controle absoluto, é através de suas palavras e seus atos que percebemos sua força. Pacote (Thomas Aquino) já deixa mais claro desde o início que tenta esconder um passado de violência, mas é algo que toda a cidade conhece e aceita com naturalidade, e vemos ele permitir voltar à tona logo que pressente a necessidade. E Sônia Braga volta a dar um show como Domingas. A sua transformação dentro do filme, nas diferentes situações nas quais é exigida, permite que a atriz mostre todo seu talento e justifique o respeito conquistado durante sua carreira. E o que falar de Lunga (Silvero Pereira)? Uma espécie de cangaceiro moderno, mas que se mostra bem diferente dos estereótipos dos anti-heróis que vemos com frequência. Um trabalho fantástico de Silvero tanto na construção do personagem quanto na atuação marcante no longa. O plano fechado no qual só enxergamos seu rosto coberto de sangue é daqueles que sabemos que se tornarão uma das marcas do cinema nacional daqui para a frente.

Bacurau é o filme que o Brasil precisava agora. Principalmente quando pensamos neste exato momento histórico pelo qual o país está passando, no qual a educação e a cultura estão sendo violentamente atacadas e até ferramentas de censura se fortalecem rapidamente, sem que haja qualquer movimento para impedi-las. Assim como o vilarejo de Bacurau, o cinema brasileiro, e a cultura de maneira geral, também precisará lutar para sobreviver.

Nota do crítico:


Quer ficar por dentro de todas as novidades sobre filmes e séries? Curta a nossa página no Facebook!

The following two tabs change content below.

André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

Latest posts by André Bozzetti (see all)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close