Bode na Sala
Críticas Destaque Filmes

Rainhas do Crime | Crítica

Rainhas do Crime | Crítica

Rainhas do Crime (The Kitchen)

Ano: 2019

Direção: Andrea Berloff 

Roteiro: Andrea Berloff 

Elenco: Tiffany HaddishMelissa McCarthyElisabeth MossDomhnall Gleeson, James Badge DaleBrian d’Arcy JamesJeremy BobbMargo MartindaleBill CampCommonAnnabella Sciorra

Seguindo a receita mais comumente utilizada em produções cinematográficas, o primeiro ato do filme tende a apresentar personagens, o universo onde a história acontece e, de maneira mais sutil, algumas dicas do(a) diretor(a) sobre como devemos realizar a ‘leitura’ de elementos que serão utilizados no decorrer da trama. Isto foi seguido à risca em Rainhas do Crime, mas não da forma como gostaríamos. O primeiro ato é confuso, em um universo totalmente estereotipado, recheado de personagens rasos e mal desenvolvidos, coroado com uma montagem tão errática que mal se compreende o que acontece nos primeiros dez ou quinze minutos de filme. E, infelizmente, isso se arrasta durante os cerca de 90 minuntos restantes de projeção.

O roteiro adaptado por Andrea Berloff  a partir de quadrinhos do selo Vertigo da DC, Rainhas do Crime conta a história das esposas de três chefes do crime em Hell`s Kitchen, em Nova York, que, ao verem seus maridos serem presos após uma tentativa de assalto frustrada, precisam começar a se virar para se manter financeiramente. Para isso, decidem elas mesmas tomarem conta dos negócios ilegais que os maridos chefiavam e, devido a uma maior organização e cuidado com os moradores do bairro, conseguem conquistar muito mais dinheiro, poder e respeito do que os seus antecessores. No entanto, junto com os altos lucros, surgem rivais perigosos que pretendem tomar o controle da organização.

É difícil até explicar onde começam os problemas do roteiro e da execução da produção. Isso porque o conceito inicial não é ruim. A ideia de que o jeito bruto e irresponsável das lideranças criminosas masculinas eram menos lucrativas do que o planejamento bem feito e o compromisso das mulheres com os comerciantes que pagavam por proteção faz sentido e, mesmo dentro de um universo de práticas criminosas, serviria como uma espécie de lição. Infelizmente, a forma como as três esposas dos gângsters presos simplesmente decidem tomar o poder e conseguem sem nenhum empecilho inicial, como se estivessem simplesmente indo vender brigadeiros na escola, é ofensivo à inteligência do público. E, apesar da eficácia das práticas das novas “chefas” ser explicado verbalmente, não se enxerga isso na prática. Só vemos que elas estão ganhando muito dinheiro, mas pouco se vê de como isso acontece exatamente. Mas o que acaba pesando ainda mais é o fato de não haver nenhuma justificativa para as protagonistas não serem vistas também como vilãs do filme. Elas agem inclusive fora daquela espécie de “código de honra” de mafiosos e gângsters de uma forma geral, matando e extorquindo pessoas quase sempre em benefício próprio. Desta maneira, fica difícil criar um vínculo que produza alguma preocupação com o destino delas no decorrer dos acontecimentos.

O desenvolvimento das protagonistas Ruby (Tiffany Haddish),  Kathy (Melissa McCarthy) e Claire (Elisabeth Moss) segue a linha do todo da obra e se explica muito mais através dos diálogos do que realmente as personagens demonstram. Andrea Berloff, que além de responsável pelo roteiro realiza sua estreia na direção, peca pela inexperiência ao se tornar refém das falas de suas protagonistas, sem conseguir, em nenhum momento, tornar aquelas palavras convincentes, visto que além de não se justificarem na tela, por algumas vezes as imagens simplesmente as desmentiam. Por exemplo, ao tentar tratar o comportamento do trio principal como um exemplo de feministas que, na verdade, passa o filme inteiro se escorando na força dos homens para resolver qualquer coisa. Para piorar, o personagem que rouba a cena e acaba sendo o único destaque positivo tanto na sua construção quanto em seu desenvolvimento é, vejam só, um homem. Gabriel (Domhnall Gleeson) surge já em meio ao segundo ato e toma conta de todas as cenas nas quais aparece. Uma espécie de psicopata, sempre com a voz e a expressão tranquila e extremamente violento em suas ações, age com total naturalidade ao matar, desmembrar e desovar os corpos de qualquer indivíduo que se torne um incômodo ou ameaça às suas chefes.

A montagem que começa mal, com cenas picotadas em um ritmo frenético, mais adiante se torna simplesmente protocolar. As cenas conversam mal entre si, como se fossem pequenas esquetes ruins e inacabadas, ligadas umas às outras de maneira preguiçosa, parecendo sequer haver algum planejamento prévio. Como um trabalho em grupo na escola no qual cada um faz uma parte sozinho e depois unem no dia da apresentação. Assim, se torna difícil até reconhecer alguns personagens secundários, que fazem aparições quase aleatórias, e pouco ou nada justificam sua presença no filme. Além da relação entre alguns deles se apresentar importante em determinado momento mas, depois, ser totalmente ignorado ou alterado.

A tentativa final de plot twist, da forma como é mostrada, acaba soando completamente artificial, desperdiçando uma boa ideia em decorrência da condução mal executada de uma personagem, que foi sabotada o filme inteiro por uma interpretação ruim e de uma direção que pareceu não entender bem as motivações de suas protagonistas. Sendo assim, Rainhas do Crime se mostra um filme equivocado, para dizer o mínimo. E todo o esforço e atenção necessários para tentar entender quem é quem, o que estão fazendo e por quê estão fazendo, se mostra uma grande perda de tempo.

Nota do crítico:

 

Nota dos usuários:

[Total: 0    Média: 0/5]

Quer ficar por dentro de todas as novidades sobre filmes e séries? Curta a nossa página no Facebook!

The following two tabs change content below.

André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

Latest posts by André Bozzetti (see all)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close