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Euphoria – 1ª temporada | Crítica

Euphoria – 1ª temporada | Crítica

Euphoria – 1ª temporada

Ano: 2019

Criador: Sam Levinson

Elenco:  Zendaya, Maude Apatow, Angus Cloud, Eric Dane, Alexa Demie, Jacob Elordi, Barbie Ferreira, Nika King, Storm Reid, Hunter Schafer, Algee Smith, Sydney Sweeney

Filmes e séries adolescentes, usualmente, acabam caindo na mesma armadilha: a linguagem dos jovens de hoje em dia e como adaptá-la para o audiovisual. Como os diretores e roteiristas geralmente são adultos, eles acabam não entendendo como os adolescentes falam ou agem — e isso acaba afetando o material negativamente. Não é o caso de Euphoria. A nova produção da HBO é um remake de um seriado israelense que ficou popular pela retratação explícita de sexo e uso de drogas e, apesar de não fazer diferente, a versão americana (quase) nunca deixa de convencer com os seus personagens.

A série começa com Rue Bennett (Zendaya), uma adolescente de 17 anos, retornando para a escola após ter tido uma overdose nas férias. Apesar de ter ido para a reabilitação, a jovem não está limpa e volta a usar drogas na primeira oportunidade. A protagonista logo se torna melhor amiga de Jules (Hunter Schaffer), uma garota trans que acabou de se mudar para a cidade. A amizade das duas faz com que Rue consiga se manter limpa, mas depender de apenas uma pessoa para garantir a sobriedade — ou seja, trocar uma obsessão por outra — resulta em efeitos negativos para ambas.

A série ainda foca no agressivo e potencialmente sociopata Nate Jacobs (Jacob Elrodi) e no seu relacionamento tóxico com Maddie (Alexa Demie), que aceita os surtos e violência do namorado por acreditar que ele a ama; no início de namoro entre McKay (Algee Smith) e Cassie Howard (Sydney Sweeney), enquanto ele precisa lidar com os desafios de jogar futebol americano na faculdade, a garota precisa constantemente arcar com as consequências da imagem de vadia que possui; por fim, em como Kat (Barbie Ferreira) aprende a ter uma autoestima que nunca teve por conta de seu peso e tomar cuidado com a fragilidade da nova confiança adquirida.

Logo de cara, o maior ponto forte de Euphoria é como a série consegue desenvolver de forma eficiente cada um de seus sete protagonistas. O início de cada episódio trabalha com uma introdução para explorar os passados deles e como eventos críticos da infância e pré-adolescência moldaram as pessoas que são hoje. Identidade é um tema recorrente, com cada personagem tendo de lidar inúmeras vezes com a pessoa que são, quem eles querem ser e a expectativas e pré-conceitos de todos a sua volta. Também é abordado outras questões atuais sobre como a pornografia altera a concepção do sexo, catfishing, como o abuso de drogas afeta a família do envolvido e as esperanças em que os pais depositam nos filhos.

Mesmo voltada para o público adolescente, a série não se afasta dos elementos mais sérios. Todo episódio começa com um trigger warning avisando a audiência do conteúdo e não é para menores. Nudez explícita, agressão, estupro de menor, aborto e violência doméstica são encontrados por todo lado e a execução não deixa a desejar. A tudo que se propõe, Euphoria desenvolve os temas com responsabilidade ímpar. As doenças de Rue, o vício, a abstinência, a depressão, o transtorno bipolar e a mania são bem lidados ao longo dos episódios. Além disso, a forma como a série mostra como os problemas mentais da protagonista começaram na infância é exemplar. Com o vício, é ótimo que Rue tenha tantas pessoas nas quais se apoiar, sua melhor amiga desde a infância, Lexi (Maude Apatow), o traficante Fezco (Angus Cloud) e o colega do grupo de apoio, Ali (Colman Domingo).

E essa atenção na retratação dela não seria a mesma coisa se a personagem não fosse interpretada por uma atriz à altura e, por sorte, não é o caso. Zendaya é fenomenal sempre que está em cena, tanto nos momentos mais intensos como nas partes mais cômicas. A artista consegue se afastar da imagem de garota da Disney depois de três temporadas de No Ritmo. Zendaya protagoniza os momentos mais devastadores da série e nunca deixa a desejar. Outro destaque da temporada é Jacob Elrodi como Nate, o atleta é convencido, possessivo e totalmente desequilibrado, compondo um ótimo vilão. Não apenas a dupla, mas todo o elenco jovem está exemplar. Todos têm o seu momento para brilhar e provam ter carreiras promissoras pela frente — principalmente Sydney Sweeney, Hunter Schaffer e Barbie Ferreira.

Como em toda produção da HBO, a parte técnica não poderia deixar se destacar por si só. A direção da série é excepcional, algo raro de se ver em programas adolescentes, abusando de longos planos e jogos de câmera elaborados. O quarto episódio, Shook Ones Pt. II, é completamente louco e consegue passar uma atmosfera que é ao mesmo tempo cômica, inquietante e chapada enquanto os personagens estão passando por inúmeras desventuras no Carnaval. Outros momentos impressionam pela inventividade, como a cena em que Rue ensina a tirar uma dick pic ou quando ela começa a investigar a relação da Jules com o Nate e o episódio fica com um ar procedural de investigação policial — a própria personagem passa a vestir social com coldre e distintivo.

Mas, mesmo com tantos positivos, a série se perde em alguns momentos. Enquanto não suavizar os momentos mais intensos é digno de reconhecimento, algumas das cenas mais pesadas são desnecessárias e acabam tendo como objetivo apenas chocar a audiência. Alguns dos diálogos não são convincentes e deixam de parecer adolescente conversando com adolescentes. Mas vale lembrar que o diretor e roteirista Sam Levinson (que comandou cinco dos oito episódios ao lado de Augustine Frizzell, Jennifer Morrison e Pippa Bianco) tinha apenas dois créditos de direção até o momento.

Apesar das controvérsias por conta do conteúdo explicito e existir em um paradoxo por ser adulta demais para o público mais jovem ao mesmo tempo que é adolescente demais para o público adulto, Euphoria é uma série brilhantemente contada com o potencial de ser muito importante para as pessoas que virem a se identificar com seus personagens.

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Estudante de jornalismo, tem 20 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli e de musicais, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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