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Os Ossos de Um Olhar do Paraíso

Os Ossos de Um Olhar do Paraíso

Por Rodrigo Ramos

Suzie Salmon nunca foi beijada. Seus lábios estavam reservados para Ray Singh. Quiseram as circunstâncias e os pequenos infortúnios da vida que isso não acontecesse antes de sua passagem, de sua longa travessia. Apenas quando todos descansassem, quando seus ossos tivessem uma morada final, ela se sentiria confortável para seguir sua existência em um novo plano.

Esse beijo que faltou na vida terrena aconteceu em imaginação e realidades estendidas graças a estranha Ruth Connors. Uma prova de que pessoas que não seguem um padrão podem enxergar algo que ditas pessoas comuns não conseguem perceber. A estrada vai além do que se vê. Só Ruth seria capaz de descobrir quem era O Mouro e confortá-lo pela perda da amada.

O assunto abordado não é fácil. Longe disse. Quando tratamos de abusadores, violentadores e assassinos cruéis, não é fácil discernir na superfície quem é quem. Normalmente, esperamos que o mal venha de alguém desgrenhado, mal encarado, com roupas esfarrapadas, que parece não tomar banho alguns dias e carregue no olhar alguma coisa que queiramos identificar como maligna. Quando, por vezes, apenas estamos refletindo inadequações nossas.

Mr. Harvey está aí para nos provar que o sadismo, a maldade estão próximos, bem próximos, não só na casa ao lado, por vezes é alguém que consideramos como amigo, alguém incapaz de um deslize, ou pior: gente da própria família, mas não é o caso que estamos debatendo. Mas temos que prestar atenção sempre, e não foi sempre assim, sempre vivemos em bolhas, mas já passamos por bolhas mais perigosas, por tempos que realmente nos faziam acreditar que nada de mal poderia acontecer.

Quando a tragédia acontece, os familiares sofrem. Cada um tem seu jeito de lidar com uma perda, nem que o caminho seja negá-la. Por vezes, precisamos de um tempo de tudo que nos cerca para nos recuperarmos. E nessas horas aparecem algumas rochas que seguram a estrutura, seja como for e permitem nossos avanços.

Temos medo de ser esquecidos. Mas mesmo que não percebamos em vida, tocamos várias pessoas e sempre vai ter alguém em algum lugar lembrando de nós e buscando nos fazer justiça, não interessa o quão perigosa possa ser essa missão. O filme deixa muitas lições e eu resolvi escrever trechos de sua história como se não estivesse falando de uma película, pois ele trata de muito mais que uma obra de arte, ele é pungente e bate forte em situações que não queremos que aconteçam. Mas que, infelizmente, podem acontecer a qualquer um.

Um Olhar do Paraíso (The Lovely Bones) completa 10 anos agora em 2019 e foi adaptado de um romance, também chamado The Lovely Bones. Sua força não se perde nem com as atuações pouco convincentes de Mark Wahlberg e Rachel Weisz, nem mesmo com uma computação gráfica usada em exagero para representar o purgatório e o céu de Susie e que está bem datada, se comparada à arte de hoje.

Dá nojo do Stanley Tucci, de tão convincente que é sua atuação como o pérfido violentador e assassino Mr. Harvey. Susan Sarandon tem uma bela contribuição em um papel coadjuvante como a avó que é chamada a resgatar a sua família e faz isso de maneira pouco ortodoxa. E, a então novata, Saoirse Ronan diz tudo com seus belos olhos e representa toda a doçura e a inocência de uma adolescente de 14 anos dos anos 1970.


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