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Big Little Lies – 2ª temporada | Crítica

Big Little Lies – 2ª temporada | Crítica

Big Little Lies – 2ª temporada

Ano: 2019

Criador: David E. Kelley

Direção: Andrea Arnold

Elenco: Reese Witherspoon, Nicole Kidman, Shailene Woodley, Alexander Skarsgård, Adam Scott, Zoë Kravitz, James Tupper, Jeffrey Nordling, Laura Dern, Kathryn Newton, Iain Armitage, Meryl Streep

Big Little Lies e 13 Reasons Why têm várias coisas em comuns. As duas começaram como minisséries de uma única temporada, baseadas em best-sellers que retratavam temas sérios (violência doméstica e depressão, respectivamente), em que a adaptação logo se tornou um sucesso. As duas séries deveriam ter terminado na primeira temporada, uma vez em que as mesmas adaptaram todo o conteúdo do livro, mas foram renovadas mesmo assim — afinal, o dinheiro fala mais alto. Mas, enquanto 13 Reasons Why se tornou ainda mais problemática e entregou um segundo ano dispensável, Big Little Lies, mesmo nunca alcançando o nível visto em sua temporada de estreia, conseguiu se manter relevante e ofereceu um ótimo segundo ano.

Meses após o assassinato passional de Perry Wright (Alexander Skarsgard), todas as envolvidas, conhecidas como as Cinco de Monterey, decidiram contar a todos que foi um acidente. Celeste (Nicole Kidman), além de ter perdido o marido e ter ficado sozinha para criar os gêmeos, precisa lidar com as constantes suspeitas e julgamentos de sua sogra, Mary Louise (Meryl Streep). Madeline (Reese Witherspoon) passa por uma fase muito frágil do seu casamento com Ed (Adam Scott). Jane (Shailene Woodley), apesar de estar aliviada, uma vez que seu estuprador está morto, ainda sofre com os efeitos do abuso, o que afeta seus relacionamentos afetivos. Renata (Laura Dern) precisa lidar com problemas financeiros que colocam em risco o futuro da sua filha. Por fim, Bonnie (Zoë Kravitz) tem de lidar com a culpa de ter matado um homem e as coisas complicam ainda mais quando é visitada por sua abusiva mãe, Elizabeth Howard (Crystal Fox).

Logo de cara, o que faz a originalmente desnecessária segunda temporada da série funcionar tão bem é como conseguiram manter a qualidade da primeira — mesmo sem se igualar a ela, vale sempre ressaltar. Todo o elenco e produção, com a exceção do diretor Marc Jean-Vallée (cuja ausência será discutida mais tarde), retornaram e deram o seu melhor. Liane Moriarty, autora do livro que inspirou a adaptação,  co-roteirizou todos os episódios ao lado do showrunner David E. Kelley, e a presença dela na parte criativa da série ajuda a manter não apenas a coerência nos temas explorados, mas também ajuda a expandi-los.

Mesmo com Perry morto, Celeste não consegue se livrar dele. A advogada continua tentando justificar as ações do marido, assumir parte da culpa do próprio abuso e sentir a falta dele, apesar de tudo que sofreu no casamento. Jane, por sua vez, tem dificuldade com relacionamentos amorosos por conta do estupro, sempre incapaz de se tornar íntima com outros. As mentiras, tema central de Big Little Lies, consomem ainda mais as protagonistas, especialmente Bonnie. Todos os relacionamentos da personagem ficam prejudicados. Ela se tornou distante, uma esposa ausente e emocionalmente indisponível para todos em sua vida. Com a presença dos pais na sua própria casa, ela precisa enfrentar o passado traumático dela e notar como todas as relações dela tem ecos da violência doméstica da qual foi vítima na infância. E Zoe Kravitz se mostra uma revelação na pele da personagem.

Não apenas Bonnie, mas Renata também ganha mais espaço para brilhar. Laura Dern, cuja performance na série já lhe rendeu o Emmy de Melhor Atriz Coadjuvante, rouba toda cena em que aparece; os seus surtos estão mais hilários (e presentes) do que nunca. Mesmo que seja utilizada como alívio cômico na maior parte do tempo, a atriz tem momentos dramáticos para deixar a personagem multidimensional e entender as motivações dela; Renata, assim como as suas amigas, só quer o melhor para a sua filha. Nicole Kidman, Reese Whiterspoon e Shailene Woodley estão tão boas quanto na primeira temporada. A adição de Meryl Streep no elenco, como era de se esperar, é fantástica. Mary Louise é uma mulher completamente manipuladora, petulante e desestabilizadora; Streep tem muito material para trabalhar e entrega outra ótima atuação.

Mas, mesmo com todos os pontos positivos, a série é incapaz de alcançar o nível de perfeição da primeira temporada. O interesse amoroso de Jane, Corey (Douglas Smith), é péssimo, o romance dos dois não é convincente e não ajuda o personagem nunca ser desenvolvido. Alguns pontos do roteiro são abandonados logo depois de introduzidos. A decisão de Abigail (Kathryn Newton) de não ir para a faculdade, mesmo que sirva para fazer a Madeline encarar as próprias escolhas de vida, não vai para lugar nenhum; a garota disse que queria ajudar os sem-teto ou abrir um startup, não fez nenhum dos dois. O principal ponto que não vai adiante é o da detetive Quinlan (Merrin Dungey). O final da primeira temporada implicava que ela não acreditava na versão da história do acidente contada pelas personagens, mas tudo o que ela faz é lançar olhares suspeitos, mal tem falas.

E o maior problema desta temporada é o drama por trás das câmeras. Como mencionado anteriormente, Marc Jean-Vallée, também responsável por Sharp Objects, não retornou para a direção da segunda temporada. A HBO contratou a vencedora do Oscar Andrea Arnold para dirigir todos os episódios do novo ano da série, com total controle criativo sobre o material. Controle que foi retirado da diretora na pós-produção para que a segunda temporada tivesse a mesma identidade visual da anterior. Dobraram o número de editores e trouxeram até Jean-Vallée de volta para a montagem. O resultado, obviamente, foi uma bagunça. Alguns episódios não têm ritmo, cortes são muito repentinos e se os capítulos parecem curtos para uma série da HBO, é porque reduziram as páginas do roteiro de 60 para apenas 40. A cereja do bolo é uma conversa entre Celeste e Madeline ser repetida fala por fala episódios depois. O controle da Andrea Arnold ter sido retirado do material autoral dela é, no mínimo, deprimente em uma série sobre mulheres saindo da influência de homens abusivos.

No final das contas, Big Little Lies continua com atuações marcantes, senso de humor afiado e abordagem responsável de temas sérios que tornaram a série famosa em primeiro lugar. Mesmo que desnecessário, o segundo ano vale a pena ser assistido. O último episódio é conclusivo, mas a HBO ainda não decretou o final da atração, abrindo espaço para uma possível terceira temporada.

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Estudante de jornalismo, tem 20 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli e de musicais, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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