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Ainda esperando o Outono

Ainda esperando o Outono

Por Rodrigo Ramos

Primeiro, eu tenho que agradecer a pessoa que me fez ver 500 Dias Com Ela (500 Days of Summer), dizendo que era absolutamente necessário que eu o fizesse — essa menina não fala comigo faz alguns anos. Portanto, provavelmente, eu não deva ter entendido o filme e seja apenas mais um que vive sofrendo porque as músicas britânicas nos dizem para fazer isso e não tenha compreendido patavinas de A Primeira Noite de Um Homem, mesmo tendo visto Dizem Por Aí… mais de uma vez.

O filme dirigido por Mark Webb, lançado em 2009, leva as comédias românticas a um novo patamar, a um período em que elas têm a capacidade de se autoanalisar e criar postulados antropológicos sobre os efeitos que elas causam sobre a humanidade. Pode parecer exagerado falar nesses termos, mas temos de ter consciência do impacto que as artes causam no comportamento humano. E, se antes o grande veículo era a literatura, há um bom tempo esse posto pertence ao cinema. Mesmo que se utilize de muitas obras literárias para criar seus mundos.

Quem não adoraria um jovem adorável como Tom (Joseph Gordon-Levitt)? Inteligente, engraçado, pouco ciente de suas qualidades e ensimesmado com suas problemáticas relações amorosas. Sua dificuldade em estabelecer um relacionamento mais aprofundado e o bullying que ele sofre dos amigos — pausa para aplaudir o bom desempenho de Mathew Gray Gubler, mais conhecido pelo papel do Dr. Spencer Reid de Criminal Minds, no papel de melhor amigo que mais atrapalha do que ajuda – e os conselhos da irmã caçula, que o domina plenamente em termos de compreensão de como é esse teatro da vida só tornam o protagonista mais cativante. Um belo jovem beta alguns diriam.

Eis que ele conhece Summer (Zoey Deschanel), aquela menina por quem todo homem boboca tende a se apaixonar e por um simples fato: eles aparentemente têm muitos gostos em comum. Para figuras como Tom, é mais importante compartilhar um gosto por uma banda, um poeta, um ponto turístico do que por belas pernas, seios voluptuosos ou um rosto perfeito. Não que eles não prestem atenção em beleza, que para a maioria é fundamental, ele apenas não percebe que gosta mais de se apaixonar por uma versão de saias dele mesmo do que por qualquer outra pessoa.

De início, Summer é distante, parece inatingível, aí vai se mostrando, flertando, partindo para o ataque. E é claro que ela tem que gostar de Smiths, mais do que isso ela tem de dizer que ama a banda, que ama certo tipo de comida, ama um lugar escondido na cidade em que se possa contemplar os demais com ar sofisticado e embebido em bucolismo. Ela só não consegue dizer que te ama. Pois, de fato, ela não ama. Ela está passando o tempo e vai dando dicas disso ao passo que os dias correm. Será que ela amou seu caso italiano, o popular Puma, ou ela amava mesmo os dotes do felino. Tudo isso vai transformando a cabeça de Tom em um trevo.

Até que ele precisa da validação, ele precisa do rótulo do namoro e tudo se esvai. Os 500 dias passaram rápido demais e agora só lhe resta sofrer e, quem sabe, tirar dessa experiência um pouco de força de vontade de mudar sua vida confortável e buscar desafios maiores. Quem sabe a busca pelo emprego perfeito, um novo lugar para morar, só sabemos que precisamos preencher o vazio de alguma forma e aí ela reaparece, mas não está mais disponível e todos os diálogos e momentos que você imaginou que teriam quando se reencontrassem foram para o espaço e ficas a bebericar devagar goles de cerveja em uma long neck enquanto vai finalmente percebendo que ela nunca foi sua. Na verdade, nunca tinha sido de ninguém até surgir o cara que ela realmente esperava.

Falar em filmes que apresentam suas narrativas fora da ordem cronológica se tornou tão comum que beira ao clichê. Já era o caso da época em que 500 Dias foi realizado. Mas a ideia da tantas idas e vindas no tempo cronológico e a utilização dessa contagem em cada dia, de forma totalmente desordenada, faz com que o filme tenha encontrado uma forma diferente de contar uma história. Por essas e muitas outras e por uma geração de Tom’s e por todas as Summers do mundo – seja homem ou mulher –, pois todo mundo deve ter sido ou feito alguém de Tom, que eu considero esse filme clássico e espero que todos nós possamos nos reencontrar festejando o Outono que sempre chega.


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