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Por que o live-action de Mulan parece tão diferente do original?

Por que o live-action de Mulan parece tão diferente do original?

O primeiro teaser de Mulan foi lançado nesta semana e o longa parece glorioso. O design de produção, os figurinos, a trilha sonora, o tom — tudo parece magnífico. Ainda assim, é perigoso julgar um filme, não importa qual, baseando-se apenas em um minuto e meio de conteúdo. E se o teaser de Mulan faz algo bem, é não mostrar logo de cara as mudanças que foram feitas em relação à animação da Disney de 1998. O remake em live-action, ao contrário do desenho clássico o qual todos estamos acostumados, não terá o Capitão Shang, não terá Mushu, não terá Gri-li e, principalmente, terá muitos personagens novos.

Todas essas exclusões e adições em relação ao material original são, no mínimo, curiosas, se levar em conta os outros remakes que a Disney tem lançado nos últimos anos. Com exceção de Alice no País das Maravilhas, Malévola e as sequências dos dois que tem como objetivo desde o início mostrar um ângulo diferente da obra clássica, os outros live-action foram bem fiéis ao material original. Claro que existem diferenças como personagens novos, músicas novas e alguns pontos narrativos que são diferentes, mas, no geral, são refilmagens bem fiéis. Então, por que logo Mulan vai sofrer mudanças tão drásticas? A resposta é bem simples: China.

  • Negócio da China

Com o crescimento da economia chinesa, o país se tornou mais presente em diversos mercados e o cinema foi um deles. No geral, a bilheteria global de um filme é dividida em duas: a americana e a do resto do mundo. Mas, de uns anos para cá, a China não apenas consegue trazer lucros massivos para filmes como também salvá-los do fracasso de bilheteria.

Vamos pegar o Círculo de Fogo como exemplo. O blockbuster de Guillermo Del Toro sobre robôs gigantes lutando contra monstros alienígenas gigantes estreou abaixo das expectativas, arrecadando apenas US$ 37 milhões nas bilheterias americanas no seu final de semana de estreia, ficando atrás de Meu Malvado Favorito 2, na sua segunda semana em cartaz, e Gente Grande 2, que também estreou  no mesmo final de semana. Mesmo que o desempenho de Círculo de Fogo tenha sido decepcionante com apenas US$ 101 milhões arrecadados em todo o seu tempo nos cinemas norte-americanos — algo preocupante contra o orçamento de US$ 190 milhões — o longa conseguiu fechar a bilheteria global com respeitáveis US$ 400 milhões, sendo US$ 100 milhões apenas dos espectadores chineses. Longe de ser um sucesso, mas o suficiente para garantir a sua sequência, Círculo de Fogo: A Revolta, que foi co-financiado pelo país mandarim.

E este não é o único caso. A adaptação do game Warcraft para as telonas desapontou a crítica e o público, conseguindo apenas US$ 37 milhões nos Estados Unidos. Mas o filme se tornou febre na China e, apenas no país, fez US$ 213 milhões; totalizado a bilheteria mundial em US$ 433 milhões. Vin Diesel parece ser um ator extremamente popular lá, além de ambos Velozes e Furiosos 7 e Velozes e Furiosos 8 arrecadarem US$ 390 milhões cada no país asiático, xXx: Reativado, terceiro filme da franquia protagonizada por Diesel, dobrou o orçamento de US$ 85 milhões na China com US$ 164 milhões, sendo que, nos Estados Unidos, o filme embolsou apenas metade do valor investido. Então, sim, a China possui um mercado extremamente valioso para a indústria cinematográfica.

E, para isso, é necessário agradar o país. A própria Marvel Studios, propriedade da Disney, já fez isso duas vezes. O Mandarim é provavelmente o único vilão realmente popular do Homem de Ferro nos quadrinhos e, no entanto, uma das exigências chinesas é que eles não sejam retratados como vilões nos filmes. Então, em Homem de Ferro 3, o Mandarim virou um terrorista do Oriente Médio interpretado pelo oscarizado Ben Kingsley. Doutor Estranho recebeu a mudança mais interessante. No material original, o Ancião, além de ser homem, era tibetano. E acontece o seguinte: a China odeia o Tibete. Existem séculos de conflito entre os dois países sobre a independência do Tibete — a China proclama ser soberana da nação. A questão não é um mero debate, uma vez que existem alegações de genocídio com um milhão e duzentos mil tibetanos mortos por ordem de autoridades chinesas. O conflito entre os dois países é delicado e a Marvel mudou a etnia da Anciã para não prejudicar o desempenho do filme do Mago Supremo nas bilheterias chinesas. Lady Gaga, Bon Jovi e Björk são uns dos artistas simplesmente banidos da China por terem sua imagem relacionada ao Tibete, seja por mencionar o país ou por estar com Dalai Lama. Brad Pitt é banido do país e os filmes que protagoniza não chegam lá, nem mesmo Guerra Mundial Z, maior sucesso da sua carreira. Tudo isso porque ele estrelou Sete Anos no Tibete, que retrata o massacre que a China sequestrou no país.

  • Como isso afeta Mulan?

Primeiro, é preciso entender que Mulan, mesmo que seja um filme popular, não foi um sucesso de bilheteria tão grande quanto às outras animações da Era da Renascença da Disney, com apenas US$ 304 milhões arrecadados mundialmente. Das outras animações lançadas pelo estúdio na década de 1990, A Bela e a Fera (US$ 425 milhões), Aladdin (US$ 504 milhões) e O Rei Leão (US$ 768.6 milhões, sem contar o relançamento em 3D) arrecadaram bem mais. Vale lembrar que o orçamento do novo filme está estimado em US$ 300 milhões, o que, se confirmado, tornaria o longa o live-action mais caro da Disney até agora. Ou seja, o estúdio investiu praticamente todo o valor arrecadado pelo original no remake. Então, sim, a bilheteria da China é determinante para o sucesso do filme.

E se o Mulan de 1998 tivesse sido bem recebido pelo público chinês, seria certo que a Disney faria um remake fiel ao original – mas não foi bem assim. Assim como tantas das histórias que a Disney adaptou para o cinema, Mulan passou por várias mudanças para ser mais comercial. Não existem dragões na lenda original da Mulan, Mushu (dublado originalmente por Eddie Murphy) e o grilo Gri-li foram criados apenas porque a protagonista não tinha parceiros animais, quase um padrão para a Disney. Shang também não existe na lenda — a sua presença na animação foi resultante da primeira versão do roteiro que, acredite ou não, era pra ser uma comédia romântica.

Quando lançado no país, Mulan foi duramente criticado pelo público chinês. Eles não aprovaram como o filme retratou a cultura deles, ou melhor, deixou de retratar, como muito dos aspectos do filme eram mais alinhados ao Japão do que à China em si. Se existe um exemplo de animação americana que respeita a cultura chinesa e é bem recebido no país este filme é Kung Fu Panda. O Shang é detestado porque ele não existe na história original e usar uma lenda inspiradora de uma mulher que foi à guerra e lutou por 12 anos para transformar a história em um romance é ultrajante. Outro ponto muito criticado é o final do longa, que conta com o Imperador da China reverenciando Mulan, algo que jamais aconteceria.

E musicais também não são muito populares no país asiático. Por anos, musicais até evitavam passar pelo desperdício de gastar dinheiro sendo lançados na China, porque os filmes não fariam sucesso algum lá. O maior exemplo é Mamma Mia!, o musical de maior bilheteria de todos os tempos (até o lançamento do remake de A Bela e a Fera) sequer foi lançado lá. A sequência até tentou, uma vez que o público chinês está ficando mais receptivo ao gênero com filmes como La La Land e o Rei do Show. Acabou que Mamma Mia!: Lá Vamos Nós de Novo arrecadou míseros seiscentos mil dólares. Como é já de se esperar, as canções de Mulan, com a notável exceção de Reflexão, também não caíram nas graças do público. A diretora Niki Caro afirmou que mesmo que as canções não sejam cantadas no filme, elas estarão presentes de outra forma. É de se esperar que as músicas do original estejam presentes na trilha sonora sinfônica do remake.

Por fim, a China, bem, a China odeia o Mushu. O alívio cômico, desculpa para vender brinquedo, é um dragão e a figura do dragão é sagrada e mítica na cultura chinesa — eles são benignos ao invés das muitas representações da criatura como perigosa no imaginário ocidental. A imagem de um dragão não pode ser representada de qualquer jeito no país. E Mushu, com todas as suas piadas e humor, acabou não sendo bem recebido por ser uma encarnação desrespeitosa da figura do dragão. Gri-li também não foi bem visto. Por que diabos uma guerreira levaria um grilo para a guerra?

Dos novos personagens que veremos no filme, Donnie Yen, mestre das artes marciais conhecido por O Grande Mestre e Rogue One, interpreta Comandante Tung, que será o mentor da Mulan no exército; a vilã será Gong Li, uma poderosa feiticeira; a irmã mais nova de Mulan, personagem criada para o filme; Bori Khan, um assassino em busca de vingança; Skath, um trapaceiro e Chen Honghui, um membro do Exército Imperial, parceiro de Mulan e possivelmente interesse amoroso da protagonista.
O live-action de Mulan, com sua estreia marcada para março de 2020, será quase que totalmente diferente ao que estamos acostumados pela animação de 1998. O que, mesmo que não seja o ideal para muitos, não deve ser motivo de preocupação. A Disney, assim como todo estúdio, ama o dinheiro. Mesmo que eles estejam investindo tanto e se arriscando para agradar o público chinês, é de se esperar que o resultado final será satisfatório para os fãs da animação também.

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Estudante de jornalismo, tem 20 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli e de musicais, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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