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Democracia em Vertigem | Crítica

Democracia em Vertigem | Crítica

Democracia em Vertigem

Ano: 2019

Direção: Petra Costa

Roteiro: Petra CostaCarol PiresDavid BarkerMoara Passoni

Elenco: Petra CostaDilma RousseffMarília AndradeLuis Inácio Lula da Silva

A política brasileira está uma bagunça. Na verdade, sempre foi, mas piorou nos últimos anos. Os motivos para isso são os mais diversos, e vão desde protestos pelo aumento da passagem de ônibus até uma certa Copa do Mundo, passando por um processo de impeachment bizarro e culminando na eleição de um presidente de terceira via com aspirações nazi-fascistas. Claro, houve ainda uma crise econômica de proporções continentais para ajudar a piorar, mas a verdade é que não precisamos dela para começarmos a nos afundar. Então, vieram as famosas bancadas do Congresso: do Boi, da Bala, da Bíblia… Quem não é brasileiro deve se sentir confuso à beça quando ouve no noticiário a situação política do nosso País — e é aí que entra a cineasta Petra Costa e seu primoroso documentário Democracia em Vertigem.

Petra entra no filme como uma personagem. Ela é a diretora, mas também a narradora-observadora. No passado, seu pai e a sua mãe foram militantes contra o regime militar. A cineasta, então, conta que seus pais fugiam constantemente do governo, e as famílias não tiveram notícias do paradeiro do casal por mais de 10 anos. Uma das primeiras cenas é a de Petra com 1 ano de idade, em 1984. O momento serve para apontar que ela e a democracia brasileira possuem quase a mesma idade. Por 20 anos, não houve democracia no Brasil, e o objetivo da diretora é fazer o espectador refletir se estamos caminhando para seu fim iminente, fazendo da democracia “um sonho efêmero”, nas palavras da própria cineasta.

Democracia em Vertigem tem um viés ideológico bem definido logo no seu título. O documentário conta as trajetórias de duas figuras políticas brasileiras de extrema importância: Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. O longa apresenta retratos honestos de ambos os ex-presidentes, destacando seus fortes valores que fizeram seus nomes e os colocaram na vida política, mas nunca deixando de apontar os erros graves da dupla no que diz respeito à velha política (leia-se PMDB).

Em certo momento do filme, Petra proporciona um encontro entre a ex-presidente e sua mãe, Marília Andrade, e descobrimos que existem fortes ligações entre as duas, mesmo que elas nunca tenham se conhecido antes. Elas não só cresceram na mesma cidade como também foram feitas prisioneiras políticas no mesmo presídio, embora em períodos diferentes. Mas Democracia em Vertigem vai além de apenas apresentar essas pequenas descobertas, e volta em uma época distante, mas que parece ter sido há poucos anos.

Nos anos em que Juscelino Kubitschek governou, o avô de Petra enriquecia com a empresa que ajudou a fundar: a multinacional Andrade Gutierrez. A construtora, uma das mais citadas em delações premiadas da Operação Lava-Jato, foi importante no projeto “Cinquenta Anos em Cinco” de JK, que visava tornar o Brasil um dos países mais desenvolvidos de seu tempo. Desde então, a Andrade Gutierrez nunca deixou de lado a política. Petra não compartilha laços afetivos com seus familiares que são membros do grupo empresarial, mas afirma que a política sempre passou pelas mãos da construtora, e de várias outras, é claro. Isso é notável na cena em que ela passeia pelo Palácio do Planalto e percebe um detalhe em duas placas diferentes de obras no local: uma da época de Fernando Collor, e outra da época de Lula; o nome “Construtora Andrade Gutierrez” aparece nas duas, que tem uns 15 anos de diferença.

Democracia em Vertigem não é um filme fácil. É perfeitamente plausível que Petra Costa tenha feito um documentário como esse em um período tão turbulento. Mesmo assim, é certo afirmar que o longa já está ultrapassado. Se a diretora quiser, ela tem material para continuações por muitos anos, ainda mais agora com as revelações feitas pelo The Intercept sobre os crimes de responsabilidade cometidos por Sérgio Moro e Deltan Dallagnol. Se ela quiser, poderia até falar sobre narcotraficantes militares. Mas é difícil dizer, pois o objetivo de Petra Costa foi cumprido neste poderoso filme, que não é apenas resumir a bagunça brasileira para os gringos, mas também o de fazer um retrato sobre a farsa cômica que nossa política se tornou.

Nota do crítico:

 

Nota do público:

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João Vitor Hudson

João Vitor Hudson é um publicitário aos 22 anos. Ama cinema desde quando desejava as férias escolares só pra assistir todos os filmes do Cinema em Casa e da Sessão da Tarde. Ama o MCU, e confia bastante no futuro da DC nos cinemas.

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