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Turma da Mônica: Laços | Crítica

Turma da Mônica: Laços | Crítica

Turma da Mônica: Laços

Ano: 2019

Direção: Daniel Rezende

Roteiro: Thiago Dottori

Elenco: Giulia BenitteKevin VechiattoLaura RauseoGabriel MoreiraRodrigo SantoroPaulo Vilhena, Monica Iozzi, Ravel Cabral

Uma das minhas memórias mais antigas relacionadas à cinema é uma sessão de A Princesa e o Robô. O filme é uma animação da Turma da Mônica lançada no início da década de 1980, e que eu assisti em um extinto cinema de bairro aqui na capital gaúcha. Já naquele tempo, mais de 30 anos atrás, os personagens criados por Maurício de Sousa eram quase uma unanimidade entre as crianças. Mas foram necessárias algumas décadas para que aqueles personagens tão apaixonantes, que estão no imaginário popular dos brasileiros, mesmo daqueles que talvez nunca tenha lido sequer um gibi, chegassem aos cinemas através de um live-action que, sim, valeu cada segundo de espera.

Em Turma da Mônica: Laços, adaptação da Graphic Novel homônima, Floquinho, o cachorro de Cebolinha, é roubado por um homem misterioso na calada da noite. Agora, Cebolinha (Kevin Vechiatto ) precisa colocar em prática seus planos infalíveis e, com a ajuda de seus inseparáveis amigos Mônica (Giulia Benitte), Cascão (Gabriel Moreira) e Magali (Laura Rauseo), ir atrás das pistas que o ajudem a encontrar seu cachorrinho. Nesta busca, a turma vai precisar enfrentar perigos, dependendo de aplicar bem suas habilidades e superar suas limitações.

Turma da Mônica: Laços conquista o público já em sua cena inicial, ao nos trazer o Cebolinha arquitetando mais um plano infalível para roubar Sansão, o coelhinho de pelúcia da Mônica. Como sempre, ele envolve Cascão em seu plano. Como sempre, o plano dá errado e os dois levam uma surra. Aquele tipo de situação que todos sabem que vai acontecer e, mesmo assim, nunca perde a graça. Um ponto fundamental para que esta cena funcione bem é a maravilhosa caracterização dos personagens. Reconhecemos imediatamente cada um deles, não só os principais, mas todos os coadjuvantes (ou até mesmo alguns que surgem como meros figurantes), em uma sequência quase ininterrupta de fan services muito bem utilizados. Quem acompanhava todo o universo da Turma da Mônica, não só os personagens centrais, vai encontrar várias carinhas conhecidas em pequenas participações. E é impossível não sentir um calorzinho no peito e dar um sorriso involuntário nesses momentos.

O mais importante para o sucesso do filme é que a semelhança dos atores com seus personagens vai além do aspecto físico. Cada uma daquelas crianças conseguiu levar para a tela a essência dos integrantes da turma do Bairro do Limoeiro. Em especial, Kevin Vechiatto e Giulia Benitte, até porque o Cebolinha é o protagonista da história, e a Mônica é quem mais interage com ele (e é dona das melhores cenas do filme). Kevin Vechiatto teve a difícil missão de tornar natural a dificuldade fonológica característica do Cebolinha: de trocar o R pelo L. E ele conseguiu atingir o objetivo na maior parte do tempo, tendo poucos deslizes, naturais para um ator jovem e inexperiente. Já Giulia Benitte está irretocável. Além da caracterização perfeita, as emoções passadas pela Mônica saltam aos olhos. Ela conduz os principais momentos de interação com seu amigo / arqui-inimigo, e demonstra os sentimentos conflitantes que existem entre os dois, característicos de uma idade na qual é tão difícil compreendê-los e diferenciá-los. E Daniel Rezende mostra sensibilidade na forma como apresenta isso para o público, em planos fechados bem colocados para que os jovens atores demonstrem de forma sutil as mudanças em suas emoções.

Dessa forma, Cascão e Magali ficam relegados a segundo plano. Meros assistentes para as piadas e para as ações de Mônica e Cebolinha. Suas funções no filme restringem-se quase que completamente a piadas a respeito de suas famosas características: a fome infinita da Magali e o medo irracional que o Cascão tem da água. Isso não permite que os atores façam muito por seus personagens e, no caso da Magali, a torna quase completamente irrelevante na trama.

No entanto, o verdadeiro ponto fraco do filme está, sem dúvida nenhuma, no núcleo adulto da história. Mais especificamente, nos pais da turma. Tanto a escolha de atores quanto o tempo de tela destinado a eles foram muito equivocados. Mesmo que quase sempre apareçam em cenas curtas, é o suficiente para prejudicar o andamento do filme. Cada vez que Paulo Vilhena aparece na tela, no papel do Seu Cebola, não só o ritmo como a graça do filme são abalados. Inclusive, a relevância deles para a trama era tão pequena que poderiam ser tirados da história com uma pequena mudança no roteiro, o que daria mais espaço para as verdadeiras donas do show: as crianças. Para não dizer que os adultos só atrapalharam, vale ressaltar que o Louco, vivido por Rodrigo Santoro, teve uma participação divertida, e Ravel Cabral, o vilão do filme, cumpriu muito bem seu papel, de homem malvado unidimensional, que é o que se espera em um filme infantil.

A trilha sonora traz, eventualmente, novos e modernos arranjos para a famosa música tema da Mônica, encaixando de maneira eficaz nas cenas nas quais a turma do Bairro do Limoeiro está entrando em ação. Unida ao trabalho impecável da direção de arte, somos transportados para aquele universo, meio congelado no tempo, com seus ônibus antigos, telefones de disco, e belas e chamativas cores primárias tomando conta da tela.

Dessa maneira, Turma da Mônica: Laços consegue fazer com maestria algo que poucas vezes as adaptações de quadrinhos para o cinema conseguiram: nos dá, a todo momento, a sensação nostálgica de folhear um gibi. Um gibi no qual pouco nos importa se já antecipamos facilmente o final, visto que o que mais importa não é a surpresa guardada para sua conclusão, mas a alegria de passarmos aquele tempo ao lado de personagens tão apaixonantes.

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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