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Fora de Série | Crítica

Fora de Série | Crítica

Fora de Série (Booksmart)

Ano: 2019

Roteiro:  Emily Halpern, Sarah Haskins, Susanna Fogel, Katie Silberman

Direção: Olivia Wilde

Elenco:  Kaitlyn Dever, Beanie Feldstein, Jessica Williams, Lisa Kudrow, Will Forte, Jason SudeikisBillie LourdDiana SilversSkyler GisondoMolly GordonVictoria Ruesga, Eduardo FrancoMason Gooding, Mark O’Brien

Comédia adolescente é um ótimo e terrivelmente subestimado subgênero. Recentemente, a Netflix ficou famosa por capitalizar uma fórmula já conhecida e batida e, tecnicamente, lançar quase que o mesmo filme diversas vezes. Assim temos Para Todos os Garotos que Já Amei, Sierra Burgess é uma Loser e O Date Perfeito. Mas enquanto todos estes longas oferecem basicamente mais do mesmo, é raro sair uma comédia adolescente que consiga inovar e trazer algo diferente, ainda que familiar, para o gênero. E é aí em que Fora de Série triunfa.

Comandado pela atriz Olivia Wilde em uma ótima estreia na direção, o longa acompanha Molly (Beanie Feldstein) e Amy (Kaitlyn Dever), duas estudiosas melhores amigas no último dia de aula do Ensino Médio. Elas não compareceram a nenhuma festa ou sequer saíram para se divertir, completamente voltadas ao objetivo de passar em uma faculdade renomada. Quando Molly descobre que os jovens irresponsáveis que sempre foram a todas as festas também foram aprovados em prestigiadas faculdades ou conseguiram estágios em grandes empresas, ela sente que desperdiçou todos os anos colegiais exclusivamente se voltando aos estudos e pretende que as duas compareçam a festa do popular Nick (Mason Gooding) para compensar os quatro anos jogados fora um dia antes da formatura.

A premissa é longe de ser original e a trama do filme segue muitos dos mesmos pontos narrativos do clássico Superbad: É Hoje (curiosamente, Beanie Feldstein e Jonah Hill são irmãos na vida real), mas mesmo que o enredo seja conhecido, a execução faz toda a diferença. A amizade entre Amy e Molly é o personagem principal do filme. As duas atrizes, além de demonstrarem um excelente timing cômico, têm uma excelente química. A relação das duas é tão crível que chega a ser palpável. A todo momento as duas amigas constantemente se elogiam e nunca deixam de apoiar uma a outra, seja nos objetivos de vida, na vida amorosa ou na orientação sexual de Amy.

O humor do filme é afiado, inteligente e nunca ofensivo. É impressionante como ele é capaz de evitar armadilhas do gênero como fazer dos garotos populares os vilões do longa e, sim, mesmo que muitos sejam idiotas ou irresponsáveis, não existe nenhuma espécie de antagonismo na construção deles. A própria desavença que praticamente todos os colegas têm com Molly tem um motivo plausível e justificado para existir. Existe até uma cena em que o filme desconstrói o clichê de duas mulheres irritadas por estarem com a mesma roupa quando as duas protagonistas não ligam de estarem combinando. O elenco de apoio dos adultos, que conta com os veteranos da comédia Lisa Kudrow, Jason Sudeikis e Will Forte, é muito bom e todos estão ótimos em suas breves participações, mas as revelações adolescentes do filme roubam a cena.

Todo colega de classe da protagonista é engraçado e apresenta alguma característica marcante quando introduzido para ser facilmente reconhecido na próximo aparição. Billie Lourd, filha da Carrie Fisher, é histérica como Gigi; a personagem é completamente aleatória e desequilibrada, e rouba toda cena em que aparece randomicamente. Skyler Gisondo é hilário como o insuportável Jared e Eduardo Franco diverte bastante como o repetente Theo. O que surpreende nesses personagens é como eles recebem pequenos momentos para desenvolvê-los e não os resumirem a apenas unidimensionais. Gigi, Jared, Anabelle (Molly Gordon) e Hope (Diana Silvers) são mais do que aparentam inicialmente.

Outro aspecto excelente é a representatividade do longa. Amy é lésbica, mas não existem conflitos da personagem que se resumam a sexualidade dela no romance os desafios se dão pela timidez da protagonista, e até seus pais religiosos (vividos por Kudrow e Forte) aceitam a filha sem problemas. Nick e Ryan (Victoria Ruesga), os interesses amorosos de Molly e Amy, respectivamente, não fazem parte do padrão de beleza geralmente visto em filmes deste tipo e, mesmo populares, nunca são escrotos. Os demais personagens de apoio são negros, asiáticos e hispânicos, mas nunca soa como representatividade forçada, como se eles estivessem apenas lá para preencher uma cota e tornar o filme mais apelativo para as audiências modernas. Cada personagem flui perfeitamente bem dentro do enredo.

O roteiro, escrito por quatro mulheres, é excelente e ágil, fazendo os 100 minutos de duração voarem. A direção de Olivia Wilde promete uma carreira excelente pela frente se ela continuar a manter esse nível. Fora de Série tem um ótimo ritmo, atuações excepcionais e raramente tem uma piada que não funciona. Existem também dois momentos memoráveis de plano sequência, o primeiro é uma belíssima cena com Amy na piscina, e o segundo é uma intensa briga entre as duas protagonistas, que prova que Feldstein e Dever não são apenas boas na comédia, mas mandam bem no drama também.

Mesmo que as conclusões da narrativa recorram aos conhecidos clichês do gênero, Fora de Série ainda é uma excelente experiência para todos os públicos, mas principalmente para os adolescentes que podem se identificar com os personagens e situações da produção por seu aspecto inclusivo e, por vezes, inspirador. Assim como o brilhante Quase 18, o filme foi um sucesso de crítica, fato que não se repetiu nas bilheterias pouco expressivas. Com sorte, os dois poderão ser considerados clássicos adolescentes no futuro.

Nota do crítico:

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Estudante de jornalismo, tem 20 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli e de musicais, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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