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Chernobyl — 1ª temporada | Crítica

Chernobyl — 1ª temporada | Crítica

Chernobyl – 1ª temporada

Ano: 2019

Criador: Craig Mazin

Elenco:  Jared Harris, Stellan SkarsgårdEmily Watson, Paul Ritter, Jessie Buckley, Adam Nagaitis, Con O’Neill, Adrian Rawlins, Sam Troughton, Robert Emms, David Dencik, Mark Lewis Jones, Alan Williams, Alex Ferns, Ralph Ineson, Barry Keoghan, Fares Fares, Michael McElhatton

Seja em filmes de terror ou em produções de drama, o fato de uma produção ser baseada em acontecimentos reais sempre carrega consigo um peso maior do que obras de ficção. Para inspirar, chocar ou assombrar, saber que um filme ou uma série foi baseada na realidade, por si só, é o suficiente para vender um produto. E é aí onde a nova minissérie da HBO triunfa: Chernobyl relata de maneira poderosa um dos maiores desastres do século XX. Craig Mazin, criador e roteirista, disse em entrevista ter se inspirado em desenvolver a minissérie quando se tocou que, apesar de conhecer a explosão do reator e seus efeitos, o motivo da explosão lhe era desconhecido. E ao longo dos cinco primorosos episódios, além dos horrores do acidente e da luta das pessoas para impedir que as consequências se intensifiquem, é construído um eficiente mistério sobre o que levou a falha fatal do reator 4 da usina nuclear de Chernobyl.

Durante os cinco episódios de duração, a minissérie consegue manter uma opressora atmosfera de puro pavor, uma sensação de horror que entra debaixo da pele. Depois da explosão do reator, os moradores da área não entendiam direito os riscos de serem expostos à radiação, saindo de suas casas para ver o incêndio da usina e recebendo quantidades letais de radioatividade. Os bombeiros e socorristas, que se deslocaram até o local do acidente para prestar socorro aos funcionários da usina ou apagar o incêndio sem qualquer tipo de proteção. Os funcionários de Chernobyl, confusos, também não tinham noção do que tinha acabado de acontecer. A falta de consciência de todos os envolvidos do que realmente acontecia no local era assustadora, quando qualquer pessoa começava a vomitar, ficar com marcas na pele ou desmaiar, é efetivamente arrepiante.

Mesmo diante de um grande desastre, tanto o corpo diretivo da usina nuclear quanto os oficiais da União Soviética se mostram mais do que dispostos a afirmar que o evento não foi nada demais e não tomar qualquer medida preventiva. Valery Legasov (Jared Harris), diretor do Instituto Kurchatov de Energia Atômica, é convidado para o comitê de gerenciamento de crise formado após a explosão, liderado pelo implacável Boris Shcherbina (Stellan Skarsgard). Enquanto todos insistem em que não há grandes riscos e que a quantidade de radiação emitida não é preocupante, Legasov se impõe e tenta explicar a magnitude e as consequências de tudo o que aconteceu. Apenas para ser tratado com hostilidade.

Os constantes esforços do protagonista e de Ulana Khomyuk (Emily Watson), cientista de outro país soviético que detectou a radiação disseminada por Chernobyl no ar, em fazer todo o possível e além para fazer todos entenderem os reais riscos que o reator representa e tomar medidas preventivas para impedir que piore é louvável. O arco dramático de Shcherbina, que vai de político descrente a uma voz ativa no gerenciamento da crise e que faz de tudo para garantir que as medidas preventivas sejam tomadas, é um dos aspectos mais incríveis da minissérie. A amizade que ele desenvolve por Legasov depois da hostilidade presente nas primeiras interações é cativantes e evolui até um clímax sentimental emocionante. Os dois nutrem um respeito mútuo um pelo outro e são duas partes complementares, enquanto Legasov usa dos seus conhecimentos para definir o que precisa ser feito, é a influência de Shcherbina que faz acontecer.

Nisso, milhares de pessoas são utilizadas nos serviços para impedir que o reator exploda novamente. Mineiros, militares, liquidadores e civis se expunham a quantidades alarmantes de radiação porque era o único jeito de impedir uma tragédia ainda maior. Mesmo que invista mais tempo nos protagonistas, a minissérie entende a importância dos sacrifícios dos trabalhadores e os honra. Lyudmilla Ignatenko (Jessie Buckley), esposa do bombeiro Vasily (Adam Nagaitis), que estava apagando o incêndio na madrugada do acidente, é um dos maiores exemplos de resiliência. Ela atravessava a tudo e a todos para ficar do lado do seu amado, por mais que ele transferido de hospital e ficasse isolado, ela sempre dava um jeito de ficar ao lado dele. Por fim, Pavel Gremov (Barry Keoghan) é outro civil que recebe atenção e possui um arco dramático breve, mas competente. Após ser evacuado, ele se junta ao grupo de soldados que precisa exterminar todos os cães e gatos deixados para trás por serem muito perigosos contendo radiação. Mesmo em um episódio, a jornada de Pavel emociona.

As atuações da série são outro ponto altíssimo. Jared Harris, que já se tinha mostrado um excelente ator em Mad Men e em The Crown, prova-se mais digno do que nunca de ganhar um Emmy. Stellan Skarsgard, coadjuvante de luxo de incontáveis filmes, se aproveita de ter que trabalhar com um material mais significativo e cria Boris Shcherbina como um homem implacável, mas justo e respeitável. Emily Watson e Paul Ritter (intérprete do insolente, insuportável e cruel Anatoly Dyatlov) são ótimos dentro da proposta de seus personagens. Por fim, Barry Keoghan se mostra um jovem ator cada vez mais interessante de se ver em tela e prova que é um nome para se procurar no futuro.

E Chernobyl não suaviza nada. Seja na morte de animais, nos assombrosos estágios que o corpo humano passa depois de exposto a quantidades letais de radiação ou na morte eminente de crianças e bebês, tudo é entregue de forma brutal para a audiência. A direção de Johan Renck, que já comandou alguns episódios de Breaking Bad, é excepcional. Além da atmosfera muito bem conduzida, a série possui momentos de tensão tão eficientes que é possível sentir o perigo absurdo em que os personagens passam, seja em perigosos trabalhos na usina ou em ser perseguidos pelo KGB. A cena em que civis precisam retirar pedaços de granito do telhado, algo simples, em teoria, é dirigida com tamanha maestria que são 90 segundos de puro terror.

O roteiro de Craig Mazin, conhecido por filmes de paródia como Todo Mundo em Pânico 3 e 4 e Super-Herói: o Filme, prova que ninguém deve ser julgado pelos seus trabalhos anteriores. Mesmo que tenha tomado liberdade criativa como com a criação de Ulana Khomyuk, personagem fictícia que engloba inúmeros cientistas que trabalharam no incidente, Mazin mostra uma grande acurácia dos fatos do acidente, com uma excelente condução dos acontecimentos e um envolvente mistério sobre o que aconteceu de fato na madrugada da explosão do reator nuclear, algo sem precedente que ninguém sabia explicar. E mesmo que o pavor seja frequente, o roteiro permite momentos pontuais para dissipar a tensão com a presença dos mineiros, um ótimo alívio cômico. Até no episódio final, aquele em que a minissérie abandona a estrutura de mostrar os horrores resultantes do acidente para se tornar um eficiente episódio de tribunal é tão eficiente quanto.

Com um final emocionante que contabiliza todas as consequências da maior quantidade de radiação liberada na história e presta homenagens a todos aqueles que sofreram e se sacrificaram, Chernobyl é o melhor que a TV tem para oferecer em termos de história, atuação, direção e roteiro. Como entretenimento e dramatização de eventos históricos, a minissérie cumpre todas as suas propostas com excelência. Logo depois da tão criticada temporada final de Game of Thrones, a HBO prova que raramente ela escorrega e sempre se mantém consistente em entregar o ápice de qualidade televisiva.

Nota do crítico:

 

Nota dos usuários:

[Total: 1    Média: 5/5]

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Estudante de jornalismo, tem 20 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli e de musicais, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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