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Black Mirror – 5ª temporada | Crítica

Black Mirror – 5ª temporada | Crítica

Black Mirror – 5ª temporada

Ano: 2019

Criador: Charlie Brooker

Elenco: Anthony MackieYahya Abdul-Mateen IINicole BehariePom Klementieff, Ludi LinAndrew Scott, Damson Idris, Topher Grace, Monica Dola, Amanda Drew, Daniel Ings, Ruibo QianAngourie Rice, Miley CyrusMadison Davenport, Susan Pourfar,Marc Menchaca 

Pelo terceiro ano consecutivo, Black Mirror desaponta. A série cult britânica era excelente até ser comprada pela Netflix e, depois de render uma sólida terceira temporada ao alcançar o sucesso mainstream, Black Mirror teve um fraquíssimo quarto ano de exibição. No final de 2018, a série voltou a ser super comentada com Bandersnatch, um filme interativo que, apesar de fazer um interessante uso da tecnologia, não apresentou uma narrativa boa o suficiente para se sustentar por conta própria e as múltiplas escolhas eram frustrantemente limitadas.

A queda de qualidade dos anos recentes da série pode se atribuir ao fato de que o ritmo de produção dos roteiros está mais acelerado. Charlie Brooker, criador de Black Mirror e roteirista de todos os episódios, lançava uma temporada nova a cada dois anos e, desde que a diferença diminuiu para um único ano, é evidente o impacto no resultado final. Apesar de não ser necessariamente ruim, mais uma vez, a série retorna abaixo da média do que foi estabelecido anteriormente.

  • Striking Vipers

Na trama, Danny (Anthony Mackie) e Karl (Yahya Abdul-Mateen II) eram melhores amigos que acabaram se afastando quando o primeiro se casou e teve um filho com Theo (Nicole Beharie). Os dois acabam se reaproximando durante a festa de aniversário de Danny. Mesmo que eles não tenham conversado tanto assim na interação social, Karl presenteia o amigo com a versão em realidade virtual de Striking Vipers (claramente, uma homenagem a Street Fighter), um game de luta em que os dois jogavam quando moravam juntos.

Enquanto lutam como nos velhos tempos, os dois acabam se aproximando de uma maneira que nunca tinham experimentado antes — e o desenrolar desta relação acaba prejudicando o casamento de Danny e o namoro de Karl. O episódio usa a recém-desperta amizade dos dois protagonistas para desenvolver a fragilidade do casamento do personagem do Anthony Mackie, uma vez em que mesmo na tentativa de conceber mais um filho, Danny e Theo não sentem mais paixão um pelo outro ou sentem qualquer tipo de conexão a não ser deveres como pais. À medida que a relação dos dois amigos cresce de uma forma para eles confusa e nunca explorada antes, mesmo com anos de amizade, o episódio vai se mostrando mais interessante e seus personagens mais complexos. Striking Vipers nunca decola para se consagrar na lista dos episódios mais marcantes da série, mas é um começo muito bom para a temporada.

  • Smithereens

Os episódios de Black Mirror ambientados no mundo real sempre foram os mais cativantes. Mesmo que a série seja de ficção científica, Hino Nacional e Manda Quem Pode se destacam por não conter tecnologias inexistentes, trazendo situações que poderiam acontecer a qualquer momento na nossa realidade — e com Smithereens não é diferente. A trama começa com o protagonista, Christopher Gillhaney (Andrew Scott), em um grupo de apoio. É estabelecido que o personagem nunca se abre sobre o motivo que faz frequentar o local e tem a personalidade bastante introspectiva. Chris, trabalhando numa espécie de Uber, sequestra o jovem Jayden (Damson Idris), funcionário da empresa de internet Smithereens (equivalente ao Facebook ou qualquer rede social similar) com o objetivo de conseguir falar com Billy Bauer (Topher Grace), o dono do empreendimento.

Black Mirror usa da companhia fictícia para dissertar sobre a quantidade de dados em que as empresas de internet armazenam dos seus usuários e a falta de privacidade que isso proporciona. É cômico — mas chocantemente realista — como a equipe de um aplicativo consegue reunir e descobrir informações sobre qualquer pessoa mais rápido do que a polícia local e o FBI, beirando a onisciência ao apenas rastrear o histórico de registro de dados dos usuários. Andrew Scott, famoso por sua versão surtada de James Moriarty na série Sherlock, consegue ficar mais louco em um monólogo insano sobre as empresas de internet e ao manter o seu personagem em constante intensidade.

Mesmo que caminhe para revelações previsíveis, Smithereens é um episódio eficiente que desempenha a nobre função de lembrar do que Black Mirror já foi reconhecida um dia e como ainda existe o potencial para a série voltar à antiga glória, conseguindo tecer comentários sociais relevante ao mesmo tempo em que é envolvente em suas histórias. Algo que antes era o padrão e está ficando escasso.

  • Rachel, Jack and Ashley Too

Começos promissores levam às maiores decepções. Rachel (Angourie Rice) é uma adolescente solitária cuja mãe morreu alguns anos atrás. Ela não consegue se comunicar muito bem com o pai ou com a irmã e, como se mudou recentemente, não tem amigos na escola nova. O único porto seguro na vida de Rachel é Ashley O (Miley Cyrus, para todos os efeitos interpretando a si mesma), uma cantora pop que vive dando mensagens inspiradoras para seus fãs. A vida de Rachel fica mais colorida quando Ashley Too, uma robô com a voz da cantora, que canta, dança, dá dicas de maquiagem, aconselha e incentiva, é disponibilizada para venda.

Mas, apesar de ser objeto de adoração e inspiração para milhões de fãs, Ashley não vive o sonho que muitos podem imaginar. A diva pop é controlada pela tia e empresária Catherine (Susan Pourfar), que a obriga a criar uma imagem na sua carreira que não é dela, nem o ritmo musical que canta a jovem aprova. Mesmo que as trajetórias de Rachel e Ashley sejam clichês e vistas inúmeras vezes antes, o episódio é bem sucedido na sua abordagem e nas atuações do elenco feminino. Miley Cyrus está muito bem, mas é Angourie Rice, que é subestimada desde sua revelação no injustiçado Dois Caras Legais, está ótima em cena, mesmo interpretando uma personagem bastante limitada.

Apesar do começo clichê, Rachel, Jack and Ashley Too é um episódio aceitável até a sua metade, quando a trama começa a seguir caminhos absurdos, implausíveis e bobos. A série faz o uso repetido de uma tecnologia cuja qual já foi criticada por usar vezes demais. É questionável como Charlie Brooker conseguiu roteirizar algo que beira tanto a infantilidade.

  • Conclusão

Voltar a ter três episódios por temporada ajuda a série a ter um controle maior de qualidade com menos espaço para desapontamentos, mas vale sempre ressaltar que a terceira conseguiu ser consistentemente ótima durante o dobro disso. Enquanto Black Mirror já foi pior, ela parece ser incapaz de voltar à reputação que criou.

Não é que todo episódio precise ser um conto sombrio com um clímax perturbador e consequências arrebatadoras — a série já se mostrou excelente em episódios mais leves com finais felizes. No entanto, a qualidade dos roteiros recentemente não é mais a mesma e, a cada ano, fica menos empolgante assisti-la.

A atração não evoca mais emoções extremas ou abre espaços para discussões como antes. E, enquanto isso não voltar a ser recorrente, Black Mirror continuará decepcionando.

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Estudante de jornalismo, tem 20 anos e é assistidor de séries semi profissional. Fissurado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli e de musicais, é fissurado no cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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