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Good Omens – 1ª Temporada | Crítica

Good Omens – 1ª Temporada | Crítica

Good Omens – 1ª Temporada

Ano: 2019

Direção: Douglas Mckinnon

Roteiro: Neil Gaiman

Elenco: Michael Sheen, David Tennant, Sam Taylor Buck, Adria Arjona, Josie Lawrence, Jake Whitehall, Frances McDormandSian BrookeDaniel MaysJon HammAmma RisMichael McKeanIlan GalkoffAlfie TaylorMiranda RichardsonNed DennehySimon MerrellsPaul ChahidiDoon MackichanGloria ObianyoAriyon BakareAnna Maxwell MartinMireille EnosBrian CoxLourdes FaberesBill PatersonElizabeth Berrington. 

O que aconteceria se, às vésperas do Armagedom, o Céu e o Inferno não soubessem por onde anda o anticristo — aquele que deveria dar início à conclusão do Grande Plano (ou seria o Plano Inefável?) de Deus? —, e como isso pode ter acontecido?  É sobre isso que trata a nova série original da Amazon Prime VideoGood Omens, adaptação do livro Belas Maldições – As Belas e Precisas Profecias de Agnes Nutter, Bruxa, escrito por Terry Pratchett e Neil Gaiman, em 1990.

Aziraphale (Michael Sheen) e Crowley (David Tennant) são, respectivamente, um anjo e um demônio que estão na Terra desde os tempos de Adão e Eva. Crowley foi a serpente que ofereceu a maçã à Eva, e Aziraphale era um guarda dos portões do Éden — que deu sua espada flamejante a Adão quando o mesmo foi expulso do Paraíso. Esse é o tipo de coisa que Aziraphale faz o tempo inteiro. Por excesso de bondade unida a uma completa e total inconsequência, o anjo viveu por milênios na Terra se metendo em mais apuros do que um ser celestial deveria ser capaz, de acordo com o que poderíamos imaginar. E isso é uma das coisas que o uniu a Crowley que, sem preocupações com regras ou deveres, salvou muitas vezes a pele do anjo. Isso, porque, já que eram os responsáveis por angariar almas na Terra para seus respectivos exércitos, ambos se encontraram tantas vezes no passar dos séculos que acabaram criando algo que poderia ser descrito como uma amizade. Mais do que isso, dentro do possível, se ajudaram mutuamente diversas vezes para não precisarem ter tanto ‘trabalho’ por aqui.

O absurdo do relacionamento entre os dois é o principal fio condutor da trama. É, ao mesmo tempo, o ponto mais forte e o ponto mais fraco da série. Explico: é o mais forte porque existem diálogos incríveis, de um senso de humor afiado e questionador. Não são poucas as vezes que os debates entre o anjo e o demônio expõem a hipocrisia das religiões, das regras e das condutas morais da sociedade. Por exemplo, quando Aziraphale defende a posse de armas para as pessoas ‘certas’, pois elas ‘dão peso a um argumento moral’ — algo que é imediatamente ironizado por Crowley. No entanto, várias situações mostradas de interações entre eles parecem totalmente desconexas da trama, com o único objetivo de fazer piada e, quem sabe, simplesmente para estender o tempo em alguns episódios, o que provoca sérios problemas no ritmo da narrativa.

Voltando à história, esse tempo todo que ambos passaram na Terra fez com que, além da amizade que surgiu entre eles, ambos desenvolvessem um certo apreço às criações humanas. A música, a dança, a literatura, o teatro, carros, sushi e bebidas alcoólicas, são algumas das coisas que eles perceberam que sentiriam muita falta após o Apocalipse. Então, por que não tentar evitá-lo? E o plano deles era bom. Eles tinham todas as informações que precisavam para isso. Ou pensavam que sim.

Afinal de contas, Crowley foi encarregado pela administração do Inferno de entregar o Anticristo, ainda bebê, a um grupo de freiras satanistas. Estas, por sua vez, realizariam a troca dele, na maternidade, pelo filho recém-nascido de um embaixador dos Estados Unidos. Sabendo onde estaria o Anticristo, os dois imaginavam poder influenciar o garoto durante anos a ser uma criança normal, e não uma entidade maléfica que destruiria toda a humanidade sem remorso. O problema é que houve um leve mal entendido na maternidade, e eles ficaram durante anos observando e influenciando a criança errada. Algo que eles só foram descobrir no aniversário de 11 anos do garoto, poucos dias antes do Apocalipse. E, agora, eles têm pouco tempo (e poucas pistas) para descobrir onde está o verdadeiro filho de Satã, e tentar deter o fim do mundo. O que chama a atenção é que nem os habitantes do Céu nem os do Inferno querem impedir o Armagedom. Ambos exércitos estão ansiosos pelo conflito, sem preocupação nenhuma com a extinção da raça humana.

Mas Aziraphale e Crowley não são os únicos interessados em encontrar Adam (Sam Taylor Buck), o verdadeiro Anticristo. Anathema Device (Adria Arjona), descendente da última grande bruxa, Agnes Nutter (Josie Lawrence), se utiliza das incrivelmente precisas profecias de sua ancestral para procurar pelo garoto com o objetivo de destruí-lo. Além dela, Newton Pulsifer (Jake Whitehall), descendente do famoso caçador de bruxas Não-Cometerás-Adultério Pulsifer, também o procura, mesmo sem saber direito o motivo. Assim, pelos caminhos mais tortuosos, as histórias de todos eles vão se interligar nos momentos que antecedem o fim do mundo, e cada um terá um papel fundamental para o destino da humanidade.

Sendo uma série em apenas seis episódios, já era de se esperar que ela ficasse focada em poucos personagens. Os únicos arcos que são propriamente desenvolvidos são justamente os de Aziraphale e Crowley. Mesmo Adam, o Anticristo, possui uma abordagem muito superficial, algo que poderia ser corrigido dando a ele e seus amigos mais tempo de tela, no lugar daquelas esquetes de humor dos dois protagonistas através dos séculos. Só isso já faria uma grande diferença para o resultado final. Anathema Device, por sua vez, por mais que tenha um espaço maior para o desenvolvimento de sua personagem, também não foi eficaz. Pecou talvez pela falta de carisma da atriz, talvez por um problema de direção, ou ambos.

A direção de cena foi realmente algo bem oscilante durante a série. Good Omens começa muito mal. Apesar de se enxergar claramente que havia um material bom nos diálogos e na ideia que estava sendo apresentada, o timing dos atores na primeira metade do episódio de estreia estava péssimo — e era realmente muito difícil rir com naturalidade das piadas que soavam tão forçadas na tela. Não sei se com o tempo a gente se acostuma com o tom do humor inglês ou se, realmente, eles foram acertando a mão no ritmo, mas já após os primeiros 30 minutos, as piadas passaram a funcionar melhor. Tenho algumas restrições a David Tennant em outros papéis mas, em Good Omens, ele carregou quase todos os episódios nas costas, salvando a pele de Michael Sheen que, sozinho, perdia muito do seu brilho. A composição que Tennant fez de seu Crowley remetia diversas vezes ao fantástico Bill Nighy. Talvez com uma pitada de Jack Sparrow.

Os efeitos especiais jamais tentaram ser realistas, e seu estilo pode incomodar algumas pessoas. No entanto, dentro da proposta, considerei totalmente funcionais. Principalmente unidos à maquiagem e aos efeitos práticos na composição dos ambientes e dos seres celestiais e, principalmente, dos infernais. Ponto muito positivo para a direção de arte. Enquanto o Céu é representado em um andar alto, iluminado e espaçoso de um belo prédio, com pessoas vestidas em trajes sociais, o inferno é um subterrâneo escuro e abarrotado de seres pútridos, deformados, até mesmo com sapos ou lagartos como ornamentos na cabeça. Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, além de trazerem uma pequena mudança daqueles que conhecemos, estão modernamente transformados em motoqueiros, e agindo separadamente na Terra enquanto aguardam a chegada de seu líder.

Mesmo com inegáveis qualidades, a série acaba não empolgando muito em função de seus problemas de ritmo e da direção errática de Douglas Mckinnon. Além disso, a sua conclusão não chega a possuir um grande clímax, contando com alguns momentos bem decepcionantes. Parece que faltou um toque de Monthy Python para que Good Omens acertasse o tom. Até porque a cena que mais se assemelha ao humor do grupo inglês, quando Aziraphale e Crowley são mostrados acompanhando a entrada dos animais na Arca de Noé, é, sem dúvida, um dos melhores momentos de toda a série. Por serem poucos episódios, é fácil de maratonar em um ou dois dias no máximo e, portanto, vale a pena conferir. Mas o resultado ficou abaixo do potencial do ótimo material criado por Gaiman e Pratchett.

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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