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O Medo de Olhar Para Cima | Crítica

O Medo de Olhar Para Cima | Crítica

O Medo de Olhar Para Cima (The Fear of Looking Up)

Ano: 2019

Direção: Konstantinos Koutsoliotas

Roteiro: Konstantinos Koutsoliotas

Elenco: Friday Chamberlain, Suzan Crowley, William Kalinak, Jordan Littel, Kitty Fenn

* Esse texto é uma cobertura do Fantaspoa 2019.

Konstantinos Koutsoliotas é um experiente trabalhador de Hollywood. Profissional das artes visuais, integrou as equipes que realizaram grandes produções, como 300 e Guardiões da Galáxia. Em O Medo de Olhar Para Cima, o cineasta grego assume a direção para criar um suspense noir fundado no horror Lovecraftiano. Competente em criar medo a partir de suas criações visuais, mas sem a mesma desenvoltura para dar vida a personagens humanos, Koutsoliotas entrega uma experiência sensorial morna, mas eficiente em criar uma atmosfera perturbadora.

O filme, que teve sua Première no Fantaspoa 2019 no último domingo, 2 de junho, acompanha a vida de Jamie, uma investigadora policial com sérios problemas de sono, tentando se adaptar a uma nova vida na casa de sua falecida mãe, ao lado de sua companheira Stephanie. Paralelamente, um serial killer inspirado no Deus do Sono aparece na cidade, escolhendo suas vítimas sem qualquer critério – dificultando, assim, o trabalho da polícia.

Conforme a trama avança, somos jogados à instável mente da protagonista, marcada por tragédias pessoais e assuntos mal-resolvidos na infância. Quando a tênue linha que mantém a personagem presa ao “mundo real” desmorona, o filme ganha contornos sobrenaturais. Ao passo em que Jamie afunda em seus traumas, as ilusões e os pesadelos ficam mais reais; suas atitudes, mais violentas e irracionais; tornando assim inevitável o seu destino.

O desfecho, dúbio como deveria ser, deixa bem clara a intenção do autor: todos os elementos da trama servem apenas como metáforas para os problemas pessoais de Jaime. O filme é sobre a sua mente sendo quebrada, afinal. Quando o mundo real não faz o menor sentido, com suas sucessões de tragédias estúpidas e sem significado, resta apenas se entregar à loucura dos nossos próprios pesadelos.

O filme se equilibra em duas representações visuais. Num primeiro nível, um pouco mais próxima da realidade que conhecemos,  acompanhamos uma ambientação noir, marcado pelos momentos introspectivos de Jamie (fumando cigarros, tomando remédios, andando sozinha à noite), que são pontuados sutilmente por uma trilha de saxofone. Quando embarcamos em seus sonhos, o roxo se torna predominante, e as cenas se intercalam entre acontecimentos estranhos e criaturas gigantescas. As criaturas incompreensíveis tomam aqui a forma de medos puramente humanos.

Quando ganha ares de manifesto sobre a natureza da realidade e dos pesadelos, O Medo de Olhar Para Cima cresce. O problema está nos personagens que criam a estrutura para a criação desse conceito. A inexpressão facial da protagonista, inclusive em momentos em que confronta tragédias pessoais pesadas, pode até ser intencional, mas dificulta na identificação com a personagem. Se ela não parece se importar com esses acontecimentos, porque nós deveríamos?

Os coadjuvantes apresentam o mesmo problema. Todos servem apenas como muleta para a protagonista, não tendo personalidade própria ou características marcantes dignas de nota. A única dimensão que apresentam é a funcional: cada um tem uma “tarefa”, a cumpre sem o menor brilho, e some. Isso prejudica a trama e sabota as tentativas do diretor de criar empatia com as figuras humanas que embasam a sua tese.

Fiel aos seus princípios ao longo de toda a projeção, Koutsoliotas esbarra na incapacidade de criar personagens identificáveis, mas acerta em cheio na atmosfera perturbadora e na defesa do horror Lovecraftiano como uma metáfora para os medos intrínsecos do ser humano.

Nota do crítico:

 

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Jornalista em formação, ex-membro do finado e saudoso Terra Zero e leitor de histórias em quadrinhos. Fã de ficção científica e terror, divide seu tempo livre entre o cuidado com suas dezenas de gatos e a paixão pela cultura pop. Sonha com o dia em que perceberão que arte é sim, uma forma de discutir política.

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