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Uma visão (a)crítica de Um Sonho de Liberdade 25 anos depois de seu lançamento

Uma visão (a)crítica de Um Sonho de Liberdade 25 anos depois de seu lançamento

Por Rodrigo Ramos

The Shawshank Redemption, traduzido como Um Sonho de Liberdade, no Brasil, foi adaptado para os cinemas em 1994, pelo diretor Frank Darabont. O livro que originou a película é de Stephen King, produzido no início nos anos 1980 e conhecida por aqui sob o título de Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank. Se Rita é mais redenção ou traição, King e Manuel Puig terão que discutir algum dia em um bar do outro mundo. Mas esse não o foco dessa análise.

Basicamente, evitando ao máximo os spoilers, mesmo que se trate de um filme com um quarto de século que eu espero que se você, por um acaso, não viu, sinta-se instigado a assistir ao ler essas linhas, trata do dia a dia de uma prisão na pequena cidade de Portland, no Maine, na fria região da Nova Inglaterra.

Toda prisão em qualquer parte do mundo tem uma lógica, algumas são mais fáceis de entender outras nos parecem mais estranhas, no nosso mundo-bolha de redes sociais, hashtags, ativismo de sofá e pouca transgressão real ou tentativa de verdadeira mudança de valores.

O fato é que toda e qualquer instituição tem essas lógicas. Você pode encontrar isso no seu colégio, na sua faculdade, na Igreja, no seu ambiente de trabalho ou em um partido político. Sempre há um facilitador, um sujeito que não se entrega fácil, aquele conformista, o fofoqueiro, o que não se encaixa, o que está institucionalizado àquele lugar e parece que só vai sair dali morto.

Podemos discutir a questão dos personagens que vivemos em cada aspecto da vida, de que formas somos levados a agir por pensar na vigilância ou na audiência desta ou daquela pessoa. O efeito plateia é muito importante para qualquer ser humano, aquele que é eminentemente um ser social segundo nos ensinou um antigo filósofo.

A frieza de Andy Dufresne (Tim Robbins) em seu julgamento nos faz antipatizar instantaneamente por aquela figura e condená-lo por antecipação pelos crimes que lhe são imputados. A reação do júri da película demonstra bem isso. Porém, é na vida carcerária que passamos a ter outro apreço por ele. Leve e ao mesmo tempo grave, compenetrado e meticuloso, porém, também capaz de amabilidades e é assim que ele conquista o respeito de seus pares, especialmente Ellis ‘Red’ Redding (Morgan Freeman).

Vale um comentário especial sobre Freeman. O personagem do livro, como o nome indica, é descendente de irlandeses, mas Darabont cismou e colocou um ator negro para interpretar o papel. Pois ele conhecia muito bem o personagem a e figura de Freeman e sabia o que ele poderia agregar à obra. Nessa época de custom made personas justamente para incluir as diversas etnias desse mundo, vale lembrar que o caráter e a postura de alguém são mais fortes do que qualquer traço genético/estético para definir quem se encaixa bem em qual papel.

A questão da regeneração e do que fazer depois de quase uma vida na prisão é muito bem retratada por Darabont. O fato é que se você passar mais de uma década encarcerado, seja onde for, qual país, por qual acusação, seu retorno a sociedade como consideramos é quase um suplício. A vontade é de voltarmos mesmo ao cárcere.

Ninguém os preparou para o mundo lá fora. Com o perdão da comparação são os mesmos problemas que viveram os escravos libertos em seus primeiros anos, que ganharam a liberdade de não ter para onde ir, nem o que fazer e muito menos ter como se sustentar. Em um mundo cada vez mais tomado por figuras autoritárias, vemos o pedido por mais encarceramento e por maior tempo. No que isso resultará?

O célebre personagem de Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro, deputado Fraga, já apontava para o momento em que os brasileiros presos serão maioria. Como isso se sustentará? Talvez, não tenhamos aprendido nada com Machado de Assis e seu O Alienista, quando até o médico que considerava todos loucos acabou se trancafiando no sanatório.

De perto não há normalidade. Muito menos regeneração. Talvez, você não queira admitir, mas não passa de um degenerado. Seja qual for o seu vício, a sua tara, o seu erro, a polícia do pensamento pode te pegar e aí será tarde demais. E justamente quando negarmos que estamos salvos é que nos darão de volta aquilo que lutamos tanto para conseguir. Talvez, porque achem que aí não seremos mais ameaça. Por não estarmos mais obedecendo. Sempre teremos as águas do Pacífico, que são bondosas e se esquecem de tudo. Rumemos juntos a Zihuatanejo e nos encontremos do outro lado do sol em um barco encalhado.


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