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True Fiction | Crítica

True Fiction | Crítica

True Fiction

Ano: 2019

Direção: Braden Croft

Roteiro: Braden Croft

Elenco: Sara Garcia, John Cassini, Julian Black Antelope, Julian Richings, Catherine Gell

*Esse texto é uma cobertura do FANTASPOA 2019.

O cinema de terror possui uma longa tradição metalinguística. Desde que Wes Craven abriu a porta para as histórias sobre outras histórias em Pânico (1996), várias produções mainstream se dedicaram a lançar manifestos sobre o horror nas últimas duas décadas. True Fiction, que teve sua premiere mundial em Porto Alegre na última sexta, 24, no Fantaspoa, se encaixa nessa linhagem. Mas, ao contrário de casos mais recentes, como O Segredo da Cabana (2012) e Corrente do Mal (2014), True Fiction utiliza a metaficção não como um fim, mas como um meio de apresentar seu caso sem auto-ironia.

Na trama, conhecemos a protagonista Avery Malone (Sara Garcia), que recebe a oportunidade da vida ao se tornar auxiliar de seu escritor favorito, Caleb Conrad (John Cassini). Porém, as coisas mudam de direção quando o recluso romancista oferece a Malone um contrato para que ela seja a cobaia de um experimento baseado no medo, que servirá de base para o novo romance do autor.

Num primeiro momento, percebemos que o roteirista e diretor Braden Croft não faz questão de fugir dos clichês de gênero. Avery é apresentada como uma mulher frágil, (aparentemente) sem família ou amigos próximos, e disposta a tudo para agradar Caleb. O escritor, por sua vez, representa o famoso caso do autor em bloqueio criativo, que pretende ir até as últimas consequências para buscar inspiração. Mas as intenções do cineasta canadense são compreendidas quando, ao final, percebemos que todas as convenções foram subvertidas para criar metáforas para o próprio gênero do horror.

Uma primeira camada perceptível é a questão de gênero. Ao longo da projeção, a protagonista vivida com intensidade pela estreante Sara Garcia se transmuta da doce menina inocente do primeiro ato para uma figura que se liberta da opressão masculina com violência, sarcasmo e autoconsciência no terceiro. Caleb, vivido pelo experiente John Cassini, também desempenha com competência seu papel de homem-machista–no-controle que se vê incredulamente acuado por sua vítima no final. Sua discrição é suficiente para não roubar o protagonista de Garcia, essa sim, dona do filme.

A direção de Croft é bem sucedida em criar um ambiente claustrofóbico (o que é essencial para o subgênero de filmes de câmara). A opção do diretor pelos cortes rápidos em um ambiente escuro se mostra estranhamente acertada. A sensação de confusão torna o filme quase insuportável em alguns momentos, e pode ter certeza que isso se trata de um elogio. Ao conferir a ficha técnica do filme, me surpreendi com sua curta duração. A sensação é de que passamos horas e horas acompanhando essa sufocante trama de gato e rato.

A trama do escritor enlouquecido que se isola em um ambiente inóspito com uma mulher frágil traça um claro paralelo com O Iluminado (1980), o que se torna ainda mais evidente com um plano aéreo que emula com precisão o clássico de Kubrick. E o fato de que ao longo do trama os papéis originais de Jack Nicholson e Shelley Duvall são radicalmente invertidos fala muito sobre True Fiction. Em um filme sem cinismo, a metalinguagem é usada para contar uma história que rediscute os papéis de gênero, seja ele o gênero de terror ou os próprios gêneros masculino e feminino.

Nota do crítico:

 

Nota dos usuários:

[Total: 2    Média: 4.5/5]


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Jornalista em formação, ex-membro do finado e saudoso Terra Zero e leitor de histórias em quadrinhos. Fã de ficção científica e terror, divide seu tempo livre entre o cuidado com suas dezenas de gatos e a paixão pela cultura pop. Sonha com o dia em que perceberão que arte é sim, uma forma de discutir política.

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