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Brightburn: Filho das Trevas | Crítica

Brightburn: Filho das Trevas | Crítica

Brightburn: Filho das Trevas (Brightburn)

Ano: 2019

Diretor: David Yarovesky

Roteiro: Brian GunnMark Gunn

Elenco: Elizabeth BanksJackson A. DunnDavid DenmanJennifer HollandMatt Jones

Os últimos anos foram marcados por uma avalanche de filmes de super-heróis (e até super-vilões). Além do sucesso do Universo Cinematográfico Marvel e do oscilante Universo Estendido da DC, outras franquias, como X-Men, e filmes independentes, como Hellboy e Venom, transformaram o subgênero de adaptações de quadrinhos praticamente em um gênero próprio. Sendo assim, parece ser o momento adequado para imaginar novas possibilidades para alguns eventos que fazem parte da origem de alguns dos personagens mais célebres destes universos. Assim, Brightburn: Filho das Trevas traz uma ideia muito boa, digna das famosas séries “O que aconteceria se…”, publicadas pela Marvel desde a década de 1970. O que aconteceu, neste caso, foi um filme de terror, com uma surpreendente aproximação ao gore.

O filme, que conta com James Gunn como produtor, tem um início que poderia tranquilamente ser um reboot de Superman. Um casal vivendo em uma fazenda no Kansas é surpreendido por um estrondo no meio da noite. Ao investigar, encontram uma espaçonave caída no meio da floresta com um bebê em seu interior. O casal Breyer, Kyle (David Denman) e Tori (Elizabeth Banks), que tentava engravidar há anos, vê aquilo como um sinal e decide adotar a criança, que recebe o nome de Brandon. Tudo parece correr tranquilamente bem durante mais de uma década. No entanto, quando Brandon (Jackson A. Dunn) está prestes a completar 12 anos, ele começa a perceber que não é uma criança comum. Esta descoberta desperta algo nele, e Brandon se torna um ser ameaçador e extremamente perigoso em função dos seus poderes recém manifestados.

A referência óbvia e direta à origem do Superman, ainda reforçada pelo fato de seus poderes serem praticamente os mesmos, é explorada também em alguns planos esteticamente belos e bem elaborados. Por exemplo, no momento em que Brandon levanta da cama com seu cobertor vermelho sobre o ombro, mas ao mostrar apenas seus pés, ele parece com a icônica capa utilizada por Kal-El. Em outros momentos, quando o garoto voa e fica com seus olhos vermelhos de energia, seus movimentos também simulam aquilo que conhecemos do filho de Krypton. Mas as semelhanças vão parando por aí. Ao se mostrar um menino muito inteligente, com comportamento e desempenho exemplares na escola e, em função disso, sofrer bullying por parte dos colegas, Brandon mostra um pouco de seu lado Peter Parker. No entanto, a ausência de um Tio Ben para ensiná-lo a correlação entre poderes e responsabilidades fez uma grande diferença no caminho que o jovem acabou seguindo.

Esta manifestação dos poderes na puberdade remete ao que acontece normalmente com os mutantes, nas histórias dos X-Men. Sendo esta uma época de alterações hormonais, que provocam mudanças físicas, emocionais e comportamentais em qualquer ser humano, nada mais compreensível que um menino com características tão peculiares como Brandon sofresse isso de forma mais drástica. O jovem começa a apresentar diversos sintomas de psicopatia. Se torna insensível, dissimulado, manipulador, entre outros sinais clássicos. Inclusive ‘testa’ seus poderes matando pequenos animais, como fazem normalmente os serial killers antes de partirem para vítimas humanas. Mas estas não demoram a surgir. Com total incapacidade de aceitar frustrações, acaba ferindo gravemente uma colega e matando pessoas apenas por atrapalharem seus desejos.

Como pode-se perceber, a construção psicológica do protagonista foi muito bem trabalhada. Infelizmente, o roteiro não se desenvolveu tão bem assim. Algumas situações são aceleradas demais, alguns personagens ficam com pontas soltas e, como principal problema, há uma certa falta de lógica em algumas ações de Brandon, considerando as que não são facilmente explicadas por sua imaturidade e imprudência. Há de se ressaltar que a experiência de assistir o filme foi muito prejudicada pelo que foi mostrado exageradamente nos trailers, que já deixavam claro demais qual seria o desfecho da história. Recomendo que, caso não tenham assistido aos trailers ainda, evitem fazê-lo.

Mesmo assim, ainda é possível aproveitar o filme de forma satisfatória, graças à boa direção de David Yarovesky. O clima de tensão é construído de maneira eficaz, sem abusar dos jump scares, que sempre são utilizados de forma apropriada. Além disso, o visual é surpreendentemente impactante, com cenas violentas que são estendidas ao máximo do suportável e além, fazendo com que seja quase impossível acompanhá-las até o final sem virar o rosto. Olhos perfurados, ossos esmigalhados, rostos mutilados e sangue, muito sangue. Serviço completo para os fãs de um gore light.

Considerando o baixo orçamento do filme, percebe-se que os responsáveis pelos efeitos especiais foram muito criativos na forma de transpor para a tela as necessidades do roteiro. Quase todos os efeitos que vemos — e que são 100% eficazes — podem ser feitos em softwares bem comuns, e até são encontrados tutoriais no YouTube de como produzi-los. Ainda assim, não se sente falta de nada e em nenhum momento as imagens soam falsas ou quebram nossa suspensão da descrença. Mais um ponto para a direção do filme, que soube se aproveitar bem dos recursos que teria à disposição.

E tudo isso acaba funcionando ainda melhor em função das atuações convincentes de seus principais personagens. Jackson A. Dunn traz uma inocência ao jovem Brandon que nos faz, o tempo todo, acreditar que aquele menino bonzinho vai voltar em algum momento. Até por isso ele se torna tão assustador quando fala as coisas mais cruéis sem demonstrar sinal nenhum de remorso. Elizabeth Banks também entrega muito realismo como a mãe amorosa que não consegue aceitar o que seu filho se tornou. E David Denman, o pai que, apesar de amar seu filho, começa a perceber e desconfiar mais cedo que algo não está certo com Brandon.

Com uma trama e várias situações que remetem ao clássico A Profecia, de 1976, Brightburn seria bem mais marcante se seu roteiro e seus personagens fossem um pouco mais desenvolvidos. Os cerca de 90 minutos de filme parecem atropelar uma história que tinha muito mais a mostrar. Em compensação, algumas pontas soltas da história podem servir como ganchos eficazes para uma continuação. Quem sabe se isso já não está nos planos de James Gunn?

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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