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A Gente Se Vê Ontem | Crítica

A Gente Se Vê Ontem | Crítica

A Gente Se Vê Ontem (See You Yesterday)

Ano: 2019

Direção: Stefon Bristol

Roteiro: Fredrica BaileyStefon Bristol

Elenco: Eden Duncan-SmithDanté CrichlowAstroMarsha Stephanie BlakeJohnathan NievesMyra Lucretia TaylorWavvy Jonez

Quem é fã de cinema sabe que estamos cercados por filmes que tem o tempo como principal método narrativo. Seja voltando nele ou fazendo dias se repetirem ininterruptamente, esse recurso é usado corriqueiramente, e se não houver algum plus na história, o longa que o utiliza corre o risco de cair no ostracismo. Mais recentemente, Vingadores: Ultimato dependeu do recurso para desfazer uma situação ao acrescentar a camada da criação de novas realidades temporais caso algo grave mude a história; é um jeito curioso de brincar com o tempo. Agora, a Netflix chega com um filme de viagens temporais, e o modo inventivo de contar a história encontrado não diz respeito ao tempo em si, mas ao contexto social e classicista que os protagonistas estão.

A Gente Se Vê Ontem segue a trajetória de dois adolescentes prodígios da ciência que vivem em um bairro pobre e majoritariamente negro de Nova York. CJ (Eden Duncan-Smith) e Sebastian (Danté Crichlow) são grandes amigos obcecados com a possibilidade de viajar no tempo, e volta e meia realizam experimentos na garagem que quase botam a casa ao chão, tudo feito na base da gambiarra. Um dia, acabam descobrindo a viagem no tempo, e logo no primeiro teste estabelecem que não podem se encontrar com suas versões do passado, pois geraria um efeito borboleta que poria fim àquela realidade em que vivem. O mundo de CJ desaba quando seu irmão Calvin (Astro) é morto por engano da polícia local, e ela tem a insensata decisão, embora compreensível, de voltar no dia do acidente e evitar que ele seja morto.

O longa é a estreia em longas de Stefon Bristol, que até então só havia dirigido curtas-metragens e escrito algumas coisas de renome, como Infiltrado na Klan. Após seu curta See You Yesterday, o cineasta foi apadrinhado por Spike Lee, que decidiu bancar o projeto de um longa-metragem para expandir a história; inclusive, o longa da Netflix conta com o mesmo elenco do curta. Lee, acostumado a fazer filmes com um forte contexto social, especialmente do povo afro-americano, quis levar essa história inusitada sobre a violência policial e o racismo institucional para a gigante de streaming, a maior distribuidora de entretenimento e conteúdo atualmente. E cá estamos.

Ao analisar A Gente Se Vê Ontem, percebe-se que o longa não tem pressa de finalizar a história de CJ. Todas as vezes que ela volta no tempo, seu plano dá errado e seu irmão ou outras pessoas próximas acabam morrendo. É uma visão pessimista, embora realista, de como a violência está tão enraizada nas camadas mais baixas da sociedade e, por isso, a morte antecipada é inevitável. Não é um filme que busca entreter com uma boa história de viagem no tempo, mas que busca o pensamento crítico desse assunto tão polêmico.

Os dois protagonistas, CJ e Sebastian, são ótimos juntos. Existe muita química na amizade deles, e é neles que reside o carisma e a pontada de esperança do filme. Além de trabalhar temas pesados e um gênero tão denso como a ficção científica, o roteiro faz questão de não deixar CJ e Sebastian sem os problemas comuns de adolescentes. É tudo muito crível e gostoso de se ver. Mas nem tudo são flores. Em alguns momentos, as cenas acabam soando repetitivas, o que é justificável pois os personagens estão sempre voltando ao mesmo dia para evitar o inevitável, e no final, fica uma certa decepção no ar. Não há motivos claros para o desfecho apresentado pela produção.

A Gente Se Vê Ontem é um mais um bom entretenimento da Netflix que trabalha com críticas sociais e que acaba derrapando em detalhes básicos que fazem um filme funcionar. No entanto, há coisas boas aqui. O nome de Stefon Bristol é um que se deve ficar de olho. O cineasta parece ter deixado logo de cara algumas características de sua identidade cinematográfica (que parece muito influenciada por Spike Lee). É de se esperar que seus próximos filmes tragam críticas sociais tão importantes, mas será ainda mais valioso se o público adotar A Gente Se Vê Ontem e começar a entender que a polícia não é melhor do que os civis e são tão passíveis de erros quanto nós. Diferente do filme, não existe máquina do tempo para repará-los.

Nota do crítico:

 

Nota do público:

[Total: 1    Média: 1/5]

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João Vitor Hudson

João Vitor Hudson é um publicitário aos 22 anos. Ama cinema desde quando desejava as férias escolares só pra assistir todos os filmes do Cinema em Casa e da Sessão da Tarde. Ama o MCU, e confia bastante no futuro da DC nos cinemas.

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