Bode na Sala
Hellboy | Crítica

Hellboy

Ano: 2019

Direção: Neil Marshall

Roteiro: Andrew Cosby 

Elenco: David HarbourMilla JovovichMark StanleyBrian GleesonIan McShaneMario de la Rosa

 

Eu não faço parte do grupo que vê com irritação ou preocupação a enxurrada de filmes de superhe-róis na última década. É uma discussão válida e pertinente, com bons argumentos de ambas as partes, mas não é o assunto do texto. Dito isso, preciso confessar que Hellboy ajuda muito a fortalecer a opinião de quem critica a quantidade enorme de lançamentos desse sub-gênero. Poucas vezes, vi um filme acrescentar tão pouco e de maneira tão precária à história de um personagem.

Na trama, ao procurar por um antigo parceiro da agência de combate a ameaças sobrenaturais na qual trabalha, Hellboy (David Harbour) recebe o primeiro sinal de que algo grave estava por vir. O seu amigo, transformado em vampiro, faz uma espécie de profecia, que o herói veria, mais adiante, começar a fazer mais sentido. A bruxa Nimue (Milla Jovovich), derrotada e esquartejada pelo Rei Arthur (Mark Stanley) — sim, aquele — está se preparando para voltar à vida, e planeja provocar um verdadeiro apocalipse. E Hellboy tem um papel fundamental nisso.

Nessas horas que devemos refletir e compreender quando uma adaptação de quadrinhos não segue à risca o material original. O cinema e a literatura (seja ela de livros ou gibis) são mídias muito diferentes. Algumas vezes, o que funciona bem em uma, não necessariamente funcionará bem em outra. Ou, pelo menos, exigirá um pouco mais de tato, cuidado ou talento. Ou uma combinação das três coisas, de preferência. Não foi o que aconteceu em Hellboy. Visto que eu conhecia o personagem apenas superficialmente, e só tive mais contato com ele através dos filmes dirigidos por Guillermo Del Toro, me vi obrigado a pesquisar um pouco a respeito depois de tantos absurdos que assisti neste reboot. Assim, descobri que existe, sim, nos quadrinhos um arco que conta com a participação do Rei Arthur, Merlin, e algumas bruxas que também aparecem no filme. No entanto, ao ver como a obra de Mike Mignola que trazia estes personagens é elogiada por grandes nomes do cinema e dos gibis, fica muito claro que algo se perdeu completamente na adaptação.

Tanto o Rei Arthur quanto seu famoso amigo, o mago Merlin (Brian Gleeson), beiram ao caricatural. Considerando que a primeira aparição deles já acontece nos minutos iniciais do filme, a primeira impressão que recebemos é realmente bem desagradável. Para piorar, contracena com eles uma pouquíssimo inesperada e irritantemente inexpressiva Milla Jovovich. A ucraniana consegue a façanha de variar do overacting ao inexpressivo, sem jamais acertar o tom exato que se esperaria de sua atuação. E como a história é tão mal contada e tão atropelada, todas as revelações se dão de maneira artificial, e não parecem fazer nenhum sentido.

Considerando que o filme é um reboot, a lógica é que devemos esquecer tudo que foi visto nas adaptações anteriores e, dessa maneira, entrar em um novo universo do personagem. No entanto, o ritmo do longa é tão errático, com sequências de ação ruins acontecendo a todo momento, sem maiores explicações, que faz com que o roteiro pareça uma colcha de retalho, onde nada combina com nada. Se não devemos tomar as outras produções como base, talvez o roteirista e o diretor esperassem que o público tivesse um background dos quadrinhos para preencher algumas das enormes lacunas do roteiro. Isso já seria um erro grotesco mesmo se estivéssemos falando de um personagem que fizesse parte de um senso comum, do inconsciente coletivo das pessoas, como o Superman, Batman ou Homem-Aranha. Não é o caso. Hellboy não figura entre os mais famosos heróis dos quadrinhos. Apesar de premiado e elogiadíssimo, não possui o apelo popular dos principais personagens da Marvel e da DC. Não está nem em um segundo escalão. Sendo assim, seria fundamental um melhor desenvolvimento da história e algumas pontas melhor amarradas.

Outro ponto que prejudicou demais o já problemático roteiro foi, justamente, a presunção dos realizadores. Tentaram entregar uma produção mais adulta, violenta e visualmente impactante. E venderam essa ideia ao público. Entretanto, o que vemos na tela é decepcionante. Em primeiro lugar, porque a violência é gratuita, sem construção e, assim sendo, não é impactante. Não bastasse isso, a péssima qualidade do CGI faz com que todo esse sangue e violência soe como as imagens que vimos no jogo God of War do Playstation 2 ainda, acabando com qualquer possibilidade de ser levada a sério.

Como todo o resto do que vemos, até a trilha sonora do filme é artificial. Mesmo quando as músicas combinam com as cenas, elas parecem ter sido colocadas meio a esmo, em qualquer lugar, sem cuidado nenhum com o timing da ação que elas acompanham. Ação essa que é outro ponto fraco do filme. Novamente, o que vemos não difere muito dos cinematics de um jogo de videogames de uns 15 anos atrás.

Depois de tudo isso, fica o mistério sobre o que motivou o lançamento desse filme. Não era uma boa história para contar, não havia dinheiro para fazê-lo com qualidade e, possivelmente, ele sequer vá conseguir se pagar com sua bilheteria, visto que sua estreia ocorre ainda durante o tsunami de Vingadores: Ultimato e próximo de outros grandes lançamentos. Então, o que temos? Uma história mal elaborada e mal contada, lançada na hora errada e sem acrescentar nada relevante ou palpável à mitologia do herói. É, assim fica difícil defender.

Nota do crítico:

 

Nota dos usuários:

[Total: 1    Média: 5/5]


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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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