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O Gênio e o Louco | Crítica

O Gênio e o Louco | Crítica

O Gênio e o Louco (The Professor and the Madman)

Ano: 2019

Direção: Farhad Safinia

Roteiro: John BoormanTodd KomarnickiFarhad SafiniaSimon Winchester

Elenco: Sean PennMel GibsonNatalie DormerEddie MarsanJeremy IrvineJennifer EhleStephen DillaneBrendan Patricks

Em muitos sentidos, podemos dizer que as palavras libertam. Alguém recluso em um quarto, em um apartamento ou em uma cela, através da leitura é capaz de ir a qualquer lugar. Uma pessoa, no momento em que é alfabetizada, também se liberta. Ganha autonomia para as mais simples ações do dia a dia nas quais, anteriormente, era dependente de outros. Tendo isso em mente, podemos compreender a grandeza e a relevância do trabalho iniciado pelo Professor James Murray e pelo Dr. William Minor, no desenvolvimento da primeira edição do Oxford English Dictionary, que buscou reunir em suas páginas a totalidade das palavras da língua inglesa e seus significados através dos séculos. Uma tarefa hercúlea, apenas possível devido à dedicação e humildade de ambos, em reconhecer suas limitações e valorizarem o saber daqueles não pertencentes a uma elite intelectual.

No início do filme, na Inglaterra do final do século XIX, conhecemos o Dr. Willian Minor (Sean Penn). Um ex-militar, traumatizado pela guerra, que assombrado por fantasmas que não o deixam esquecer os horrores que viveu, acaba cometendo um crime gravíssimo. Considerado mentalmente incapaz de responder por seus atos, é internado em uma clínica psiquiátrica. Em outro lugar do país, somos apresentados ao Professor James Murray (Mel Gibson), um homem extremamente culto que, apesar de ter sido obrigado a abandonar a escola aos catorze anos de idade, se tornou autodidata, construindo um conhecimento impressionante em diversos idiomas e sobre a origem das palavras.

Ao ser convidado pelo conselho da editora da Universidade de Oxford para desenvolver o Oxford English Dictionary, Murray enfrentou a desconfiança e o preconceito de alguns membros, devido à sua falta de estudo formal e à sua origem humilde no interior da Escócia. Mesmo assim, conseguiu ser escolhido para o trabalho, e sua estratégia para convocar um verdadeiro exército de colaboradores tornou possível realizar algo que ninguém havia conseguido sequer chegar próximo antes. E foi justamente assim, nesta busca por auxílio, que os caminhos de Murray e Minor se cruzaram. Minor, encarcerado física e psicologicamente, encontrou a liberdade e motivação para viver ao ajudar Murray a construir algo que entraria para a história.

O diretor iraniano Farhad Safinia estreia com um bom trabalho na direção, demonstrando muita sensibilidade, e a capacidade de evitar que um filme recheado de diálogos, por vezes complexos, se tornasse cansativo, apesar das mais de duas horas de duração. A cena inicial de Minor, diga-se de passagem, possui um clima de tensão muito bem construído, e toda oscilação do personagem entre a sanidade e a loucura se dá de forma fluida e convincente. Isso, é claro, também se deve à excelente atuação de Sean Penn. Com uma performance marcante tanto nos momentos de extravasão de emoções como naqueles em que está mais contido e recolhido, Penn compõe seu personagem de forma extremamente comovente, fazendo com que o público consiga perceber com clareza a dor interna e a constante culpa que o personagem carrega consigo. Mel Gibson também se destaca por compôr seu Professor Murray com uma constante altivez frente aos membros do conselho, jamais deixando que a arrogância deles consiga diminuí-lo. Por outro lado, com sua família, se permite demonstrar seus medos e inseguranças, buscando na esposa e nos filhos a força para seguir adiante nos momentos mais complicados.

Desta maneira, o arco dramático dos protagonistas, por mais que não possua grandes surpresas, jamais deixa de ser tocante. Principalmente a partir dos primeiros encontros entre ambos, quando os diálogos cuidadosamente escritos conseguem trazer poesia através da simples menção de palavras aleatórias. Há beleza na simplicidade de não se importar apenas com o significado delas, mas também com sua sonoridade e sua história. O crescimento da admiração mútua entre o professor e o doutor, o gênio e o louco – “Quem é quem, afinal?” pergunta Murray em determinado momento – faz a jornada interior de ambos caminhar lado a lado com a missão que eles tinham a cumprir, e a partir de então não mais puderam ser separadas.

Além dos personagens principais, merecem destaque Eliza Merret (Natalie Dormer) e Muncie (Eddie Marsan). A primeira, com um arco muito bem desenvolvido, principalmente por se tratar de uma personagem secundária, e contando com uma atuação impactante de Dormer. O segundo, por surpreender com sua sensibilidade, conseguindo demonstrar ternura inclusive em momentos nos quais precisava agir de forma mais enérgica. O que acaba indo na contramão de tudo de positivo que o filme apresentou foram os antagonistas. Os membros do conselho da editora de Oxford que eram contrários à contratação de Murray. A forma como eles são apresentados é tão superficial e unidimensional que contrasta com a construção cuidadosa que é feita de praticamente todos os outros personagens. Além disso, eles se mostram quase desnecessários à trama, pois a tarefa de James Murray era tão complexa que não era preciso ter pessoas confabulando contra ele. Todas as cenas nas quais estes antagonistas surgem conversando apenas entre si poderiam ser retiradas do filme e sem que houvesse prejuízo algum à narrativa.

Mesmo assim, isso não tira o brilho e o caráter quase épico de sua produção. Em uma época em que o conhecimento é cada vez mais desvalorizado, e que inclusive as novas descobertas correm o risco de serem freadas pela glorificação da ignorância, chega a ser nostálgico e reconfortante acompanhar personagens que valorizam a cultura e lutam para perpetuar um saber, no caso o conhecimento da língua inglesa, para todas as pessoas e suas gerações futuras.

Nota do crítico: 

 

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André Bozzetti

André Bozzetti é professor. Formado em educação física e cinéfilo desde que se entende por gente, começou a estudar a sétima arte por conta própria e criou o projeto Clube das 5 de cinema escolar, do qual é coordenador atualmente, no município de Alvorada. Tem uma queda forte pelo cinema europeu mas não dispensa um bom blockbuster. Sente saudades dos filmes de Vincent Price nas sessões do Corujão.

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