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Coisa Mais Linda – 1ª temporada | Crítica

Coisa Mais Linda – 1ª temporada | Crítica

Coisa Mais Linda – 1ª temporada

Ano: 2019

Criadores: Heather RothGiuliano Cedroni

Elenco: Maria CasadevallPathy DejesusFernanda VasconcellosMel LisboaLeandro LimaÍcaro SilvaGustavo VazAlexandre CiolettiThaila AyalaGustavo Machado

A Bossa Nova surgiu no final dos anos 1950 e, embora não tenha um pano de fundo político em torno de sua origem, o movimento é constantemente associado ao crescimento urbano do Brasil impulsionado pelo governo de Juscelino Kubitschek, o JK. Prova disso é o fato do ritmo musical possuir influência do jazz norte-americano e, em anos anteriores, o acesso ao estilo seria muito difícil. A mistura do samba com jazz, como muitos críticos chamaram na época, é a alma de Coisa Mais Linda, e isso pode significar tanto a canção de Tom Jobim e Vinicius de Moraes quanto a nova série brasileira exclusiva da Netflix.

A história de Coisa Mais Linda é focada em Maria Luisa (Maria Casadevall). A burguesa paulista de mais ou menos 30 anos tinha um espaço no Rio de Janeiro com seu marido para que pudessem abrir um restaurante. Pedro, seu marido, estava morando na então capital federal, mas simplesmente desapareceu do mapa com todo seu dinheiro, e os rumores é de que ele tinha uma amante. O acontecimento deixou Maria Luisa — ou Malu — devastada e, dessa tragédia, a jovem conheceu Adélia (Pathy Dejesus), uma mulher que é totalmente o oposto da protagonista e que futuramente se tornaria uma de suas amigas mais leais e sócia no clube.

Coisa Mais Linda toca profundamente em pontos que a segunda onda do feminismo criticava, como a diferença de tratamentos no mercado de trabalho e a falta de liberdade imposta pelo patriarcado. É interessante notar que, do final dos anos 1950 até hoje, não mudou muita coisa. Existem mulheres mais livres e mais independentes, mas o mercado de trabalho é injusto e a disparidade salarial é alarmante, isso sem falar na alta violência doméstica e do feminicídio — aproximadamente 13 mulheres morrem diariamente no Brasil. Coisa Mais Linda funciona como um espelho de 60 anos atrás e de hoje.

A produção da Netflix também mostra que o racismo sempre existiu e que isso não é uma invenção da esquerda moderna. A personagem de Pathy Dejesus está sempre sofrendo preconceito, seja de modo descarado ou de maneira velada e inconsciente, como na cena com Fernanda Vasconcellos. Adélia é uma mãe solteira e existe uma subtrama bem consistente a respeito de sua filha, cujo pai biológico hesita em assumir, visto que a personagem escondeu essa verdade por tanto tempo. Há também uma evidente diferença de tratamento entre ela e seu namorado, Capitão (Ícaro Silva), que também é negro e não sofre a mesma discriminação que ela e muito disso é pelo fato de ser um homem.

A relação entre Malu e Adélia é bem construída, e a sociedade que as duas fazem para a gerência do clube de música Coisa Mais Linda é plausível, embora pareça impossível que duas mulheres tão diferentes socialmente pudessem fazer algo do tipo nos anos 50. Outra relação importante é a de Malu com Lígia (Fernanda Vasconcellos), embora seja bem complicada. As personagens foram grandes amigas no passado, mas um acontecimento envolvendo o ex-marido de Malu provocou uma ruptura na amizade, e a série infelizmente não faz um bom trabalho deixando claro que elas não estavam em um bom momento. O mesmo vale para Lígia e Thereza (Mel Lisboa), que são cunhadas e é dito no começo que elas não se dão muito bem, mas isso nunca é transposto na tela. Essas pequenas falhas de roteiro são compreensíveis, já que mostrar rivalidade feminina em uma produção declaradamente feminista não tenha muita coerência, mas não deixam de ser falhas.

Tecnicamente, Coisa Mais Linda é quase impecável. A série recria com perfeição a estética da elite e das favelas do Rio de Janeiro daquela época, e fica muito claro a diferença entre as ambientações. O design de produção, os figurinos, a música, tudo contribui para mostrar o carioquismo como superior a outros lugares do Brasil, especialmente São Paulo. A belíssima fotografia não poupa nas cores saturadas, e Coisa Mais Linda casa perfeitamente com essa estética; o Rio de Janeiro, apesar dos problemas, é sim um lugar lindo e é essa a impressão que a série quer passar. No entanto, as últimas cenas do show são trágicas, e embora suas intenções fossem provocar revolta – o que de fato acontece –, tudo soa muito corrido e estranho; o último episódio tem um dos season finales mais mal montados já feitos na TV, o que é uma pena, pois a série vinha mostrando uma ótima fluidez até então e essa diferença de tom só a prejudica.

Tratando de temas tabus para a época e apresentando personagens interessantes originários de arquétipos, como o artista boêmio, o marido possessivo e agressivo, a mãe solteira trabalhadora e o casal poliamoroso cheio de segredos, Coisa Mais Linda é, sem dúvidas, a melhor produção brasileira que a Netflix já lançou. Isso mostra maturidade no negócio dos seriados e prova que o Brasil é diverso em suas produções. A música-tema ser uma versão de Garota de Ipanema cantada por Amy Winehouse é uma forma de apresentar a série para os outros países. O último episódio fecha alguns arcos e deixa alguns ganchos para uma 2ª temporada, que já está confirmada, e a expectativa é que a série só melhore — e seria muito bem-vindo se começassem a mostrar outros artistas da época e as variações da Bossa Nova. Um pouco de ousadia e coragem (como a de Malu) não faz mal a ninguém.

Nota do crítico:

 

Nota do público:

[Total: 1    Média: 1/5]

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João Vitor Hudson

João Vitor Hudson é um publicitário aos 22 anos. Ama cinema desde quando desejava as férias escolares só pra assistir todos os filmes do Cinema em Casa e da Sessão da Tarde. Ama o MCU, e confia bastante no futuro da DC nos cinemas.

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